Novo estudo não encontra relação entre risco de infecção pelo HIV e contraceptivos com progestógeno

Um estudo de pesquisa clínica conduzido em quatro países africanos não encontrou diferença significativa no risco de infecção por HIV entre mulheres que utilizam um dos três métodos anticoncepcionais reversíveis altamente eficazes.

Nos últimos 25 anos, à medida que a epidemia do HIV se instalou em muitos países, vários estudos observacionais sugeriram um possível aumento do risco de infecção por HIV entre mulheres que utilizam contraceptivos injetáveis apenas com progestógeno, particularmente o DMPA-IM.

Devido às limitações no desenho desses estudos, no entanto, não foi possível determinar se as infecções por HIV se relacionaram ao método contraceptivo usado ou a outros fatores. Os resultados recentes são os mais robustos até o momento a abordar essas preocupações.

O estudo foi realizado por um consórcio liderado pela FHI 360, da Universidade de Washington, pelo Instituto de Saúde Reprodutiva e HIV de Wits e pelo Programa de Reprodução Humana da Organização Mundial da Saúde (OMS).

Teste de HIV. Foto: Agência Brasil/Arquivo

Teste de HIV. Foto: Agência Brasil/Arquivo

Um estudo de pesquisa clínica conduzido em quatro países africanos não encontrou diferença significativa no risco de infecção por HIV entre mulheres que utilizam um dos três métodos anticoncepcionais reversíveis altamente eficazes.

Publicado nesta quinta-feira (13) na revista científica The Lancet, o estudo mostrou que cada um dos métodos considerados tinha altos níveis de segurança e eficácia para evitar a gravidez – todos eles bem aceitos pelas mulheres que os utilizam.

Os três métodos investigados no estudo “Evidence for Options Contraceptive Options and HIV Outcomes (ECHO)” foram: DMPA intramuscular, um contraceptivo injetável reversível trimestral, somente de progesterona; implante de levonorgestrel, somente de progestógeno, inserido sob a pele, no braço, que pode ser usado por até cinco anos;
DIU de cobre, um dispositivo inserido no útero que pode ser usado por até 10-12 anos.

“Os resultados apoiam a disponibilização para mulheres e meninas de uma ampla escolha de métodos contraceptivos eficazes que as capacitam a tomar decisões informadas sobre seus próprios corpos – incluindo se e quando ter filhos”, disse James Kiarie, do Departamento de Saúde Reprodutiva e Pesquisa na Organização Mundial de Saúde (OMS).

“Um melhor acesso à contracepção e a serviços de saúde reprodutiva de qualidade teriam um impacto significativo na vida de milhões de mulheres e suas famílias.”

O estudo descobriu, no entanto, que a incidência de infecções por HIV entre todas as mulheres participantes era alta – uma média de 3,8% ao ano –, indicando que o HIV continua sendo um significativo risco pessoal e um desafio de saúde pública para muitas mulheres nesses países.

“O estudo destaca a necessidade de intensificar os esforços de prevenção do HIV nesses países de alta carga – especialmente entre mulheres jovens”, disse Rachel Baggaley, do Departamento de HIV e Hepatites da OMS. “Estes devem incluir a oferta de testes de HIV e uma ampla oferta de métodos de prevenção dentro de programas de serviço de contracepção.”

Sobre o estudo

Nos últimos 25 anos, à medida que a epidemia do HIV se instalou em muitos países, vários estudos observacionais sugeriram um possível aumento do risco de infecção por HIV entre mulheres que utilizam contraceptivos injetáveis apenas com progestógeno, particularmente o DMPA-IM.

Devido às limitações no desenho desses estudos, no entanto, não foi possível determinar se as infecções por HIV se relacionaram ao método contraceptivo usado ou a outros fatores. Os resultados do ensaio ECHO são os mais robustos até o momento a abordar essas preocupações.

O estudo foi realizado em quatro países com cenários de alta incidência de HIV – Eswatini, Quênia, África do Sul e Zâmbia. Um total de 7.829 mulheres testadas e negativas para infecção pelo HIV sexualmente ativas, com idade entre 16 e 35 anos, que desejavam usar um método contraceptivo moderno, foram inscritas e distribuídas aleatoriamente em um dos três métodos.

Todas as mulheres que participaram do estudo receberam serviços de saúde contínuos, incluindo aconselhamento sobre prevenção e tratamento do HIV, triagem e tratamento de infecções sexualmente transmissíveis.

“Após décadas de incerteza, finalmente temos robustas evidências científicas sobre o potencial relacionamento entre a contracepção hormonal e o risco de HIV de um rigoroso ensaio clínico randomizado”, disse a professora Helen Rees, diretora-executiva do Instituto de Saúde Reprodutiva e HIV da Universidade de Witwatersrand, em Joanesburgo (África do Sul) e membro do comitê de gestão que lidera o estudo.

“Os resultados desta questão são reconfortantes, mas nossas descobertas também são preocupantes, porque confirmam uma incidência inaceitável de HIV entre jovens mulheres africanas”.

Resultados

Entre as 7.829 mulheres que participaram do estudo, contabilizaram-se 397 infecções por HIV. Não houve diferença estatística na taxa de infecção por HIV entre as mulheres; 143 infecções ocorrem entre mulheres que utilizaram o DMPA-IM, 138 entre mulheres que usaram um DIU de cobre e 116 entre mulheres com implante de levonorgestrel.

A taxa de infecção por HIV foi maior em mulheres com menos de 25 anos, independentemente do método de contracepção utilizado. Esta alta taxa de infecção entre mulheres, especialmente mulheres mais jovens, reforça a necessidade de fortalecer a integração da prevenção do HIV dentro dos serviços de contracepção e outros serviços de saúde sexual e reprodutiva.

Estes podem incluir testes de HIV e encaminhamento para serviços com terapia antirretroviral para pessoas soropositivas, testagem de parceiros e parceiras, promoção do uso de preservativos e Profilaxia Pré-Exposição (PrEP). A alta incidência de HIV relatada está acima do percentual sugerido pela OMS para a oferta da PrEP, que atualmente deve ser considerada em países onde a incidência de HIV está acima de 3%, conforme a recomendação.

Atualmente, 214 milhões de mulheres em países em desenvolvimento querem evitar a gravidez, mas não utilizam um método contraceptivo moderno. Serviços essenciais e de alta qualidade planejados com participação das mulheres e que respeitem os direitos humanos, protejam sua privacidade e sejam livres de estigma, discriminação, violência ou coerção são essenciais.

“Independentemente dos dados do estudo ECHO, a escolha limitada de contraceptivos que as mulheres têm não é suficiente. Esperamos que esse resultado leve à ação e coloque as mulheres em primeiro lugar. Elas querem mais opções além do DMPA”, afirmou Yvette Raphael, do Grupo Consultivo da Comunidade Global para o estudo ECHO.

A expansão das opções de contracepção de qualidade garantida é fundamental para reduzir a necessidade atual não atendida. A oferta de uma ampla variedade de métodos contraceptivos aceitáveis e eficazes permite que meninas e mulheres tomem suas próprias decisões sobre se e quando desejam engravidar, bem como quantos filhos desejam ter.

Permitir que mulheres e meninas tomem decisões conscientes é um princípio fundamental ao fornecer informações e serviços contraceptivos. Os resultados do estudo apoiam o acesso contínuo a todos os métodos estudados para mulheres, incluindo aquelas com alto risco de infecção pelo HIV.

Próximos passos

Seguindo sua prática padrão em caso de importantes descobertas sobre novas pesquisas relacionadas à segurança da contracepção, a Organização Mundial da Saúde (OMS) convocará um Grupo de Desenvolvimento de Diretrizes para revisar as recomendações existentes sobre a elegibilidade das mulheres para o uso de vários métodos contraceptivos se estiverem sob alto risco de contrair HIV.

Orientações atualizadas serão emitidas até o fim de agosto de 2019. Este cronograma reflete a prática estabelecida pela OMS para garantir um processo de revisão oportuno, robusto e inclusivo.

A OMS apoiará os países com altas taxas de incidência de HIV, incluindo os quatro em que o estudo foi conduzido, a desenvolver planos para fornecer planejamento familiar integrado e serviços de HIV e IST, conforme recomendado na Call to Action on Sexual and Reproductive Health and Rights(SRHR)-HIV Linkages.

O estudo foi realizado por um consórcio liderado pela FHI 360, da Universidade de Washington, pelo Instituto de Saúde Reprodutiva e HIV de Wits e pelo Programa de Reprodução Humana da OMS.