Nova revista ‘Policy in Focus’ explora os impactos de mudanças demográficas no crescimento econômico

Artigos analisam as transferências intergeracionais ao longo do ciclo de vida das pessoas em diferentes países da América Latina, África e Ásia.

Comunidade tribal Banjara perto de Hyderabad, na Índia. Foto: ONU/John Isaac

Comunidade tribal Banjara perto de Hyderabad, na Índia. Foto: ONU/John Isaac

A edição mais recente da revista Policy in Focus, do Centro Internacional de Políticas para o Crescimento Inclusivo (IPC-IG), “National Transfer Accounts and Generational Flows”, analisa mudanças demográficas, transferências intergeracionais e seu impacto no crescimento econômico em diferentes países.

Esta edição apresenta resultados de pesquisas em andamento que utilizam o National Transfer Accounts (NTA), um projeto que mede as contas dos países para entender o comportamento econômico das pessoas em diferentes idades, por exemplo, como produzem, consumem, compartilham recursos e poupam para o futuro.

Em muitas sociedades, crianças consomem recursos gerados por adultos, transferidos a elas pela família ou pelo setor público. Os idosos, por sua vez, possuem um acúmulo de bens adquiridos durante sua fase econômica ativa, e de recursos produzidos e transferidos pelos adultos ou por outras operações de crédito.

Ao longo de cada período de tempo, toda sociedade determina – através de normas sociais, leis e decisões individuais – a combinação de mecanismos para alocação de recursos durante ciclos de vida e como financiar o deficit do ciclo de vida. Transferências intergeracionais representam uma parcela significativa da alocação de tempo e produção distribuída durante o ciclo de vida e tornam-se cada vez mais importantes devido às rápidas mudanças demográficas que vêm acontecendo por todo o mundo nas últimas décadas.

Os dez artigos da Policy In Focus cobrem a experiência de países desenvolvidos e em desenvolvimento das Américas, África e Ásia. Fator comum a todos os artigos, as principais características de transferências intergeracionais nos países em questão são discutidas e associadas às transferências públicas, privadas e mudanças demográficas, para analisar seus possíveis impactos no crescimento econômico.

Essa edição especial começa com um artigo de Ronald Lee e Andrew Mason sobre as características do projeto National Transfer Accounts, que discute brevemente seus principais resultados. Os autores mostram como os deficits de ciclo de vida, da infância à velhice, são financiados nas diferentes regiões e países do mundo.

Em seguida, Queiroz e Turra investigam o impacto das mudanças na estrutura de idade da população no crescimento econômico do Brasil. Eles mostram que o país está deixando de aproveitar os impactos positivos dos dividendos demográficos. O dividendo demográfico deve ser entendido como um fenômeno que ocorre em um período de tempo no qual a estrutura etária da população apresenta menores razões de dependência – baixa proporção de crianças, adolescentes e idosos – e maiores percentuais de população em idade economicamente ativa.

Essa dinâmica gera uma janela de possibilidades para o maior crescimento da economia, todavia os resultados desse fenômeno não são automáticos e dependem de uma série de fatores. Nas últimas décadas, a economia brasileira cresceu de forma muito mais lenta do que os dividendos demográficos sozinhos poderiam prever.

Os artigos seguintes (Colômbia, Chile e México) mostram características mais específicas das transferências intergeracionais. Urdinola e Tovar estudam o caso da Colômbia e argumentam que as elevadas taxas de informalidade no mercado de trabalho têm impacto negativo nas transferências públicas, o que pode prejudicar um potencial crescimento resultante de mudanças demográficas. Miller, Saad e Holz fazem uma análise das transferências e desigualdade no Chile. Eles mostram como o padrão de transferências tem uma ampla variação entre os grupos socioeconômicos, podendo ter impacto no bem-estar da população.

Em outro artigo, Mejia-Guevara e Saucedo discutem uma característica específica ao sistema de transferências públicas do México: as transferências de educação pública e como elas beneficiam as crianças.

Os demais artigos abrangem a África e a Ásia e também discutem os impactos da mudança demográfica no crescimento da economia. Murithii et al. mostram como o Quênia pode tirar vantagem de sua transição demográfica se políticas adequadas de educação e saúde forem implementadas para aumentar a produtividade dos trabalhadores.

Para a África do Sul, Oostuizen mostra que já passou a primeira metade dos setenta anos de potenciais dividendos demográficos do país. Para se beneficiar de seus potenciais impactos, o país deveria investir em políticas para melhorar a inserção do jovem no mercado de trabalho.

Sobre a Ásia, um artigo da Índia mostra que para tirar proveito das mudanças demográficas, seria importante um aumento na produtividade do trabalho específico à idade, principalmente no setor informal, para maximizar os efeitos de crescimento decorrentes da transição nas estruturas de idades.

Além disso, Matsukura apresenta o caso do Japão, um país que tem a estrutura de idade mais velha dentre os países analisados. O autor mostra que o Japão deve começar a considerar maneiras de se beneficiar do segundo dividendo demográfico (acumulação de riqueza). Ele argumenta que a população idosa, normalmente vista como um peso (ou um ônus) para a sociedade é na realidade um importante ator no processo de crescimento econômico.

Concluindo a coleção de artigos, Maliki argumenta que, para a Indonésia alcançar maiores benefícios na sua mudança demográfica, são necessárias políticas para impulsionar o investimento, melhorar as condições do mercado de trabalho, melhorar o acúmulo de capital humano e aumentar a produtividade.

(Artigo baseado no texto introdutório de Bernardo Lanza Queiroz, Ronald Lee e Andrew Mason.)