No Rio, representantes da ONU alertam para mudanças climáticas e pedem compromisso com sustentabilidade

“O nosso problema está na área de desmatamento.” O diagnóstico é da representante da ONU Meio Ambiente no Brasil, Denise Hamú, que chamou a atenção na terça-feira (6) para os desafios que o país tem de enfrentar para combater as mudanças climáticas.

Em simpósio realizado no Museu do Amanhã, a dirigente lembrou o legado da Eco-92, a Conferência das Nações Unidas sobre o Meio Ambiente e o Desenvolvimento promovida na capital fluminense há 25 anos. Encontro na zona portuária da capital fluminense foi parte das atividades da agência da ONU para a Semana Mundial do Meio Ambiente — 4 a 11 de junho. Representantes de outros organismos da ONU pediram mais compromisso com o crescimento econômico sustentável.

Denise ressaltou que o desmatamento caiu excepcionalmente em território brasileiro nos últimos dez anos. Dados coletados pela ONU Meio Ambiente indicam que, de 2005 a 2009, o Brasil registrou uma queda de 36% na taxa de desflorestamento da Amazônia. Na comparação entre os anos 1990 e 2000, o índice anual de perda da cobertura vegetal do cerrado caiu de 0,79% para 0,44%.

“Agora, (o desmatamento) está dando uma indicação de uma leve subida. O que a gente não pode é deixar que o desmatamento volte, porque isso é parte dos compromissos que o Brasil assumiu, não só de manter um desmatamento zero, mas de reflorestar 12 milhões de hectares. Compromissos esses assumidos no Acordo de Paris”, defendeu a representante da ONU Meio Ambiente no país.

Sobre as mudanças que cada indivíduo pode fazer em seu dia a dia para ajudar na luta contra as mudanças do clima, a dirigente da agência enfatizou ser necessária uma mudança nos padrões de consumo.

“A gente precisa buscar uma vida calcada na economia limpa. Nós todos temos um compromisso com o planeta”, disse Denise. Para a chefe nacional do organismo, “é hora de fortalecer a nossa conexão e compromisso com o meio ambiente”. A diretora da ONU Meio Ambiente chamou governos, sociedade civil, o setor privado, meios de comunicação e organizações bilaterais e multilaterais a renovar os compromissos da Eco-92.

A Eco-92 trouxe ao Brasil 117 chefes de Estado para discutir questões ambientais. Entre os principais resultados da conferência, estão o documento da Agenda 21 — um roteiro para países, estados e cidades crescerem e resolverem problemas sociais e ecológicos, a criação da Convenção do Clima e da Convenção para a Biodiversidade.

O evento no Museu do Amanhã contou ainda com a participação de representantes e especialistas do Fundo de População da ONU (UNFPA), da Organização das Nações Unidas para a Alimentação e a Agricultura (FAO) e do Programa das Nações Unidas para Assentamentos Humanos (ONU-HABITAT).

Mais alimentos para o mundo

Um dos participantes, o representante da FAO no Brasil, Alan Bojanic, alertou para os riscos que as mudanças climáticas trazem para a segurança alimentar global. As transformações das condições ambientais, segundo o dirigente, agravam as metas que os países já têm de cumprir para acabar com a fome até 2030, conforme previsto pelos Objetivos de Desenvolvimento Sustentável (ODS).

Nos próximos 13 anos, a produção de alimentos terá de aumentar em torno de 70 a 80%. As safras de cereais precisarão alcançar a marca de 3 bilhões de toneladas anuais — atualmente, são produzidas 2,1 bilhões de toneladas por ano. Já a produção de carne terá de aumentar em mais de 200 milhões de toneladas.

“Temos o Acordo de Paris, que tem objetivos muitos concretos para a redução das emissões de gases do efeito estufa. Temos que renovar o compromisso com esse mandato”, defendeu Alan. O dirigente afirmou que, no Brasil, a agência tem trabalhado para difundir práticas agrícolas mais sustentáveis e com menos impacto sobre o meio ambiente.

Durante o evento, a agência da ONU e o Museu do Amanhã firmaram uma parceria para a promoção de atividades sobre sustentabilidade. Acordo prevê iniciativas conjuntas para os próximos dois anos.

Urbanização sustentável

Também presente no simpósio, a oficial nacional do ONU-Habitat para o Brasil, Rayne Ferretti, destacou que, em algumas partes do mundo, a proporção entre crescimento populacional e consumo de terras chega a níveis alarmantes. “Em algumas cidades, consome-se de quatro a cinco vezes mais terra do que cresce a população”, disse.

De acordo com a especialista, o fenômeno vai na contramão da busca pelo desenvolvimento sustentável, uma vez que o espraiamento urbano impacta a sustentabilidade econômica por aumentar o custo dos serviços per capita; afeta a sustentabilidade social ao criar bairros segregados e isolados dentro de uma mesma cidade; e afeta negativamente a sustentabilidade ambiental devido à necessidade de percorrer grandes deslocamentos diariamente, o que causa mais emissão de gases causadores do efeito estufa.

“Há um consenso de que a urbanização gera riqueza, gera valor para as cidades. Um dos desafios agora é como compartilhar, dividir esse valor de uma forma mais igualitária e equilibrada”, comentou a especialista.

Para a representante do programa da ONU, países da América Latina e de outras partes do planeta precisam investir mais em planejamento urbano integrado para superar problemas como a falta de mobilidade, de habitação social e também de gestão de riscos de desastres.

Demografia e desenvolvimento

O assessor para População e Desenvolvimento do UNFPA, Vinícius Monteiro, lembrou que, na época da Rio-92, o crescimento populacional era considerado uma ameaça ao desenvolvimento. Hoje, o aumento do número de pessoas deixou de ser taxado como um entrave ao crescimento, mas é visto da perspectiva da garantia de direitos — sobretudo, dos direitos à saúde sexual e reprodutiva.

Vinícius alertou que o Brasil enfrenta o desafio de aproveitar o bônus demográfico. “O país hoje conta com aproximadamente 52 milhões de pessoas jovens. Entre 20 e 30% dessas pessoas estão em idade de trabalhar, mas não estão nem trabalhando nem estudando. Essas pessoas geralmente têm um histórico de privação de oportunidades”, explicou.

O especialista afirmou que o país precisa garantir oportunidades de qualificação para esse público, além de promover a inclusão produtiva dos jovens. O tema, segundo Vinícius, é relevante principalmente para as adolescentes que iniciam a vida adulta sem um emprego. A gravidez nesse momento da vida, ou antes, dificulta ainda mais a inserção no mercado de trabalho.

De acordo com dados do UNFPA, 20% dos nascimentos de bebês no Brasil são de mães adolescentes. No país, a taxa de fecundidade adolescente diminui conforme aumenta a renda do lar.

As adolescentes que moram em residências com renda igual ou inferior a 25% do salário mínimo per capita apresentam um índice de mais de 126 nascimentos por mil mulheres. Entre as que residem em residências com rendas familiares per capita de duas a três vezes superior ao salário mínimo, a taxa de fecundidade cai para 31 nascimentos por mil mulheres, e entre as que moram em locais com rendas mais altas, a taxa é de oito a cada mil.

“A gente ainda precisa avançar mais na redução da fecundidade na adolescência e avançar nos indicadores de planejamento familiar para que a fecundidade desejada pelas mulheres se aproxime mais da fecundidade realizada”, defendeu.

(Foto de capa do vídeo: UNIC Rio/Pedro Andrade e Museu do Amanhã/Guilherme Leporace, respectivamente)