No Rio, ONU Mulheres promove debates sobre gênero, racismo, maternidade e tecnologia

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Evento ‘Por um Planeta 50-50 em 2030: Mulheres do Amanhã’ reuniu ativistas, pesquisadoras e ‘youtubers’ para uma tarde de debates sobre a condição atual da mulher no Brasil. Entre as convidadas, Djamila Ribeiro, Helen Ramos, do canal HelMother, Kenia Maria, da página ‘Tá bom pra você?’, e Monique Evelle, do Desabafo Social.

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Ativistas, pesquisadoras, blogueiras, “youtubers” e artistas agitaram o Museu do Amanhã, na última sexta-feira (28), para celebrar o empoderamento feminino e questionar estereótipos que afetam negativamente as mulheres. Organizado pelo centro cultural, pela ONU Mulheres e outros parceiros, o evento “Por um Planeta 50-50 em 2030: Mulheres do Amanhã” debateu obstáculos ainda existentes à igualdade de gênero.

A pesquisadora em filosofia política e secretária-adjunta da pasta municipal de Direitos Humanos e Cidadania de São Paulo, Djamila Ribeiro, alertou que “não se pode pensar gênero sem pensar raça”. “Nos últimos dez anos, aumentou em 54,8% o assassinato de mulheres negras”, disse.

A especialista criticou o racismo institucional que atravessa a sociedade brasileira e faz com que pessoas negras se sintam “inadequadas” em determinados espaços — de ensino, lazer e tomada de decisão — majoritariamente ocupados por brancos.

Ressaltando que no Brasil mulheres afrodescendentes vivem em contextos com os piores Indicadores de Desenvolvimento Humano (IDH) e enfrentam as maiores taxas de violência e também de mortalidade materna, a ativista afirmou que “nenhuma luta séria no país pode existir sem ter a questão racial como um nexo prioritário porque a gente está falando da maioria da população”.

Monique Evelle, fundadora do Desabafo Social, projeto criado em Salvador para a promoção dos direitos humanos em ambientes de ensino, lembrou que era a única estudante negra de sua classe na escola privada onde estudou.

Discriminação e machismo fizeram com que ela passasse grande parte da sua vida com receio de expressar suas opiniões e de se relacionar com os outros. “Racismo não é bullying. Relacionamento abusivo não é prova de amor. Eu nunca fui tímida, fui silenciada”, disse.

Racismo não é bullying.
Relacionamento abusivo não é prova de amor.
Eu nunca fui tímida, fui silenciada.

Monique lembrou ainda que o Brasil ocupa o 5º lugar no ranking global de feminicídio e que, por dia, 13 mulheres são mortas violentamente no país. “Até o final da minha fala, daqui a dez minutos, uma mulher terá sido estuprada”, alertou.

Ivo Herzog, diretor-executivo do Instituto Vladimir Herzog, chamou atenção para o papel da educação na eliminação da violência. Segundo o especialista, escolas não devem apenas alfabetizar ou ensinar estudantes a fazer conta. Centros de formação devem difundir direitos humanos.

“A gente tem que trabalhar com a criança, desde a creche, o ensino fundamental, para ela entender a riqueza que é a questão da diversidade, a questão do respeito. Entender que a pessoa que é diferente por gênero, religião, raça, cor, isso é uma coisa que agrega à comunidade dela”, afirmou. “A gente não tem que ter medo de nenhuma educação.”

O evento no Museu do Amanhã foi realizado pela ONU Mulheres em parceria com o Twitter, a agência Heads e o Grupo Boticário. A tarde de conversas teve ainda apresentações da artista Adriana Rolin e do bloco do Carnaval carioca, Mulheres Rodadas. Celebrações foram encerradas com show da cantora Hananza.

Mulheres e negros sub-representados na publicidade

Durante o evento, a agência de publicidade Heads divulgou dados sobre a representação da mulher e do negro em campanhas brasileiras.

Analisando pouco mais de 8 mil filmes publicitários exibidos em canais de televisão, a empresa descobriu que apenas 26% deles tinham mulheres como protagonistas. Oitenta e quatro porcento dessas personagens eram brancas e apenas 12% eram negras.

Quando homens eram as figuras centrais dos anúncios — em 33% dos casos analisados —, apenas 7% eram afrodescendentes. Nas outras peças publicitárias estudadas, os personagens eram ou os próprios produtos ou a sociedade em geral ou grupos com homens e mulheres.

A atriz Kenia Maria, que conduziu as atividades do “Planeta 50-50”, lamentou a ausência de determinados grupos na TV brasileira, meio de comunicação ao qual 97% da população tem acesso. “Eu nunca vejo famílias negras ou gays em comerciais de margarina por exemplo”, disse.

Para ela, empresas devem estar atentas à falta de diversidade, pois a representatividade é boa para as sociedades e também para os negócios. Com apoio da família e amigos, Kenia criou uma página no YouTube — o “Tá bom pra você?” — onde recria comerciais para dar visibilidade aos afrodescendentes brasileiros e criticar padrões publicitários hegemônicos.

Maternidade

A também “youtuber” Helen Ramos, do canal HelMother, discutiu como os estereótipos de gênero são perpetuados pela educação que mães, pais e pessoas próximas dão a crianças em casa.

“Desde pequeno, os meninos são ensinados que eles não podem ser sensíveis, que eles têm que fazer algum esporte, e as meninas, que elas têm que brincar com coisas rosas, serem princesas”, disse a blogueira que é mãe de Caetano, de apenas dois anos de idade.

“Você conhece um super-herói que não seja fortíssimo, ou que não caia numa luta, numa batalha? A gente tem algum super-herói que cai no choro, que é sensível, que o super-poder dele é estudar ou ajudar a mãe?”, questionou.

Em sua página no YouTube, Helen mostra como a romantização da maternidade acaba tornando invisíveis os problemas enfrentados por mães e gestantes durante a criação dos filhos.

“Eu queria que as pessoas entendessem que, ao se falar sobre isso, não é porque você está com depressão ou porque você não gosta de ser mãe. Não, eu amo o meu filho, mas é preciso trazer à tona os problemas, as dificuldades da maternidade para que, assim, as pessoas tomem consciência e possam ajudar”, explicou.

Empreendedorismo na tecnologia

Outra participante do “Planeta 50-50”, a jovem Kamila Brito apresentou o projeto Barco Hacker, liderado por ela e outras mulheres para levar capacitação tecnológica a comunidades ribeirinhas vivendo em ilhas e regiões afastadas da vida urbana na Amazônia.

No setor de tecnologia, “existe o machismo, existem os eventos que você vê (serem compostos por) 100% homens palestrando”, lembrou.

Kamila contou que já foi demitida de alguns empregos por coordenar o Barco Hacker, mesmo se envolvendo com a iniciativa apenas nos finais de semana e fora do horário de trabalho. A empreendedora afirmou que não desistiu do projeto, pois não queria abrir mão do compromisso de empoderar as pessoas.

Segundo a criadora do Barco, a igualdade de gênero começa com o acesso à informação. “E hoje em dia, o principal canal de informação é tecnológico, então não tem como você desvincular essas áreas.”


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