No Rio, projeto conecta pessoas por meio da literatura durante a pandemia

Toda semana, Cristina Ávila, de 45 anos, pega o telefone no bairro de Anil, no Rio de Janeiro (RJ), e digita uma coleção de números que nunca antes havia combinado. Enquanto isso, toda semana na Cidade de Deus, também no Rio, o telefone de Rosângela Oliveira – ou Tia Rô –, de 62, recebe ligações de pessoas das quais nunca ouvira a voz antes.

Conheça o projeto Histórias por Telefone: voluntários leem poemas e histórias para idosos em isolamento social durante a pandemia da COVID-19.

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Toda semana, Cristina Ávila, 45 anos, pega o telefone no bairro de Anil, no Rio de Janeiro, e digita uma coleção de números que nunca antes havia combinado. Enquanto isso, toda semana na Cidade de Deus, também no Rio de Janeiro, o telefone de Rosângela Oliveira – ou Tia Rô –, 62 anos, recebe ligações de pessoas das quais nunca ouvira a voz antes.

Desde abril, cariocas que jamais trocaram palavras antes agora se relacionam através de telefonemas que recitam histórias e poesia, formando conexões que começaram no Rio de Janeiro e que, hoje, se estendem por todo globo – há brasileiros residentes no Quênia, Suíça, Portugal, Estados Unidos e Espanha inscritos no programa para receber chamadas.

É assim que o projeto Histórias por Telefone, promovido pela Secretaria de Cultura e Economia Criativa do Estado do Rio de Janeiro, está propondo que as pessoas se sintam menos sozinhas em meio ao isolamento social, causado pela pandemia do novo coronavírus.

Foi justamente através de uma ligação na primeira semana de quarentena entre Tia Rô e Pedro Gerolimich, Superintendente de Leitura e Conhecimento da Secretaria, de 39 anos, que uma pulga se acomodou atrás da orelha de Pedro. Morando sozinha com seis cachorros, a idosa comentou com o superintendente sobre a solidão no isolamento.

“Fiquei pensando nos meus pais que ficam sozinhos em casa, fiquei pensando nos meus tios, e nesses idosos que estão sozinhos e não têm com quem falar”, relata em entrevista ao Centro de Informação das Nações Unidas para o Brasil (UNIC Rio). “Foi assim que surgiu a ideia de criar o projeto e usar histórias e poesias como ferramenta de relacionamento de pessoas”.

Através de dois formulários simples, contadores de histórias e ouvintes podem se inscrever na iniciativa. O que a Secretaria não esperava, no entanto, era a rápida e numerosa adesão do público.

Em três meses de existência, o Histórias por Telefone já possui mais de mil e seiscentos voluntários e mais de cinco mil pessoas que receberam ligações Brasil afora – além de ouvintes que recebem chamadas no exterior. Inicialmente destinado apenas a idosos, hoje o projeto também acolhe todo tipo de pessoa que se sente sozinha em meio à quarentena.

A escritora e funcionária pública Cristina Ávila se inscreveu no momento em que soube do projeto. Recitando poemas autorais e trechos de seus livros, ela já se conectou com cerca de 15 pessoas desde o início do isolamento social. “Se hoje eu estivesse sem o projeto, não sei como eu estaria, porque desde o início ele faz parte da minha rotina”, conta ela, que mora sozinha.

Em uma de suas últimas ligações, à uma senhora chamada Maria, o sentimento de acolhimento da ação provou ser uma via de mão dupla: tanto para quem recebe, quanto para quem faz a ligação. “Se eu tiver a possibilidade, gostaria de um dia conhecê-la pessoalmente, estreitar mais esses laços e dar um abraço”, relata.

O sentimento de carinho é o mesmo para Tia Rô. Cada vez que recebe uma ligação, ela diz, sente que está criando uma nova amizade. Tia Rô conta que é movida a abraço, emocionada, diz que o contato humano é o que mais lhe faz falta. “[O projeto] está me mostrando o quanto eu sou importante, que eu não estou sozinha, que nós precisamos uns dos outros”, diz.

A cada dia, a Secretaria recebe novas inscrições de diferentes faixas etárias para participar projeto. Há voluntários que vão de 10 a 80 anos de idade, enquanto os ouvintes chegam aos 99 anos. Muitas pessoas que inicialmente receberam ligações acabam se inscrevendo como voluntários depois.

“É um sopro de esperança”, diz Pedro Gerolimich. “Se a gente for tentar enxergar alguma coisa para além [do vírus], acho que precisa ser essa capacidade das pessoas de olhar para o outro, se reinventarem e repensar sua vida num sentido mais coletivo”.

Livros e distanciamento social  – A Organização das Nações Unidas para a Educação, a Ciência e a Cultura (UNESCO) reconhece que “a leitura possibilita que as pessoas se abram para os outros, apesar da distância; e possibilita viajar, graças à imaginação”. Para a UNESCO, num momento em que a maioria das escolas está fechada e as pessoas precisam limitar o tempo fora de casa, “o poder dos livros deve ser alavancado para combater o isolamento, reforçar os laços entre as pessoas e expandir horizontes, enquanto estimula mentes e criatividade.”

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