No Líbano, 384 escolas dobram rotina de trabalho para que refugiados sírios tenham educação

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No Líbano, 384 escolas encaixam dois dias de aulas em um, levando educação para 150 mil crianças refugiadas sírias. Antes com atividades apenas num turno, de manhã ou à tarde, esses centros de ensino decidiram dobrar sua carga de trabalho para garantir que os jovens deslocados pela guerra continuem a aprender. O relato é da Agência da ONU para Refugiados (ACNUR).

Crianças sírias em escola no Líbano. Foto: ACNUR/Andrew McConnell

Crianças sírias em escola no Líbano. Foto: ACNUR/Andrew McConnell

No Líbano, 384 escolas encaixam dois dias de aulas em um, levando educação para 150 mil crianças refugiadas sírias. Antes com atividades apenas num turno, de manhã ou à tarde, esses centros de ensino decidiram dobrar sua carga de trabalho para garantir que os jovens deslocados pela guerra continuem a aprender. O relato é da Agência da ONU para Refugiados (ACNUR).

Durante a semana, no horário do almoço, as paredes da Escola Bar Elias, no Vale do Bekaa, são preenchidas com as vozes das mais de 1,6 mil crianças. Cercada por hortas, a instituição é um dos quase 400 colégios que operam em um “segundo turno”. Atualmente, o Líbano abriga cerca de 987 mil refugiados sírios, dos quais 490 mil são crianças em idade escolar, com idade de três a 18 anos. Mais da metade dos jovens sírios não frequentam um centro de ensino.

O colégio Bar Elias é uma das instituições que recebe sírios — 770 estrangeiros frequentam a escola durante o turno da tarde em turmas de cerca de 35 alunos. O currículo, os materiais de ensino e a maioria dos professores são os mesmos das crianças libanesas que vão à aula durante a manhã.

Moaed, de 13 anos, é um dos estudantes sírios da Bar Elias. Com sua família, o menino foi forçado a fugir de Raqqa, na Síria, há quatro anos, para escapar dos extremistas que controlavam a cidade.

“Ainda me lembro de como eles decapitaram as pessoas na minha cidade”, lembra o garoto. “Eu vi com meus próprios olhos. Isso é uma coisa que eu não consigo esquecer, mas eu tento apagar essas memórias.”

Pouco depois de chegar ao Líbano, Moaed e seus pais descobriram que os sírios poderiam se matricular em escolas públicas libanesas. Os certificados seriam reconhecidos na Síria. Com isso, o adolescente retomou seus estudos.

“Fiquei muito feliz por ter esta oportunidade de frequentar a escola. Eu adorei desde o primeiro dia”, conta o jovem. “Eu perdi dois anos de escolaridade por causa da guerra. Eu deveria estar na sétima série, mas agora estou na quinta série.”

Em todo o Líbano, cerca de 220 mil crianças sírias frequentam a escola como parte do segundo turno ou em aulas matinais com alunos libaneses.

O diretor da Bar Elias, Ehsan Araji, explica que a escola está operando com capacidade máxima para oferecer educação ao maior número possível de refugiados sírios. “Como a escola está localizada em um local onde vivem muitos refugiados sírios, às vezes fica difícil para nós. Temos listas de espera e, às vezes, se não podemos acomodar mais alunos, os enviamos para outras escolas próximas.”

O ACNUR presta assistência a essa e outras escolas no Líbano, fornecendo livros, móveis e outros suprimentos, além de financiar a reforma e a expansão da infraestrutura. A agência da ONU também incentiva as crianças sírias a se matricular e permanecer no colégio, por meio de clubes de estudos, grupos de engajamento dos pais e voluntários que atuam como um elo entre centros de ensino, alunos e pais.

Para realizar seu desejo de se tornar um engenheiro, Moaed sabe que deve estudar muita matemática. Seu professor, Mohammed Araji, afirma que sua habilidade e motivação são típicas de muitos alunos sírios.

“Eles tiram boas notas e aprendem rápido. Os estudantes sírios têm grandes esperanças. Alguns querem ser engenheiros, outros querem ser médicos, apesar de suas situações difíceis. Às vezes, o acampamento pode ficar longe da escola, mas os alunos insistem em conseguir obter um certificado e melhorarem”, acrescenta o docente.

Mohammed espera que as crianças refugiadas possam, um dia, usar o que aprenderam para poder trabalhar, quando puderem voltar para a Síria.

“Com essa educação, eles construirão algo para o futuro. Eles dirão aos seus filhos: ‘Nós já fomos estudantes refugiados sírios, longe de casa, quando houve uma guerra aqui, mas nós tínhamos ambições e conseguimos realizá-las’. Isso incentivará outros a fazerem o mesmo.”


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