No Leste europeu, ONG aposta em redução de danos para lidar com epidemia de HIV e uso de drogas

A maioria das infecções por HIV em Minsk, capital da Bielorrússia, acontece pelo uso de drogas injetáveis. Para lidar com o problema, o governo e a ONG Movimento Positivo criaram clínicas móveis de diagnóstico do vírus, além de centros de acolhimento onde a população usuária de drogas recebe orientações de pessoas que já consumiram essas substâncias ou foram afetadas de alguma forma pela epidemia de HIV.

Vans móveis levam serviços de HIV e aconselhamento para usuários de drogas injetáveis. Foto: Movimento Positivo

Vans móveis levam serviços de HIV e aconselhamento para usuários de drogas injetáveis. Foto: Movimento Positivo

A maioria das infecções por HIV em Minsk, capital de Belarus, acontece pelo uso de drogas injetáveis. Para lidar com o problema, o governo e a ONG Movimento Positivo criaram clínicas móveis de diagnóstico do vírus, além de centros de acolhimento onde a população usuária de drogas recebe orientações de pessoas que já consumiram essas substâncias ou foram afetadas de alguma forma pela epidemia de HIV.

O diálogo “entre pares” — usuários e ex-usuários — permite estabelecer confiança junto a indivíduos que muitas vezes se afastam dos serviços oficiais de saúde. Nas clínicas, do tamanho de uma van, é possível não apenas fazer o teste de HIV, mas também conversar com um médico ou simplesmente beber chá e bater papo com conselheiros.

No ano passado, mais de 10 mil pessoas visitaram as três clínicas móveis em Minsk. Das 4 mil pessoas que usavam drogas injetáveis e decidiram fazer exames, mais de 500 tiveram resultados positivos para o HIV.

Dos 200 profissionais que trabalham nas clínicas, mais de 75% já foram afetados pelo consumo de drogas ou pela epidemia de HIV.

“No início, os funcionários eram pacientes, agora são membros do conselho”, conta Irina Statkevich, chefe do órgão diretor do Movimento Positivo.

“Acreditamos que a redução de danos funciona e que podemos derrotar a infecção pelo HIV”, diz a ativista, que chegou à ONG há oito anos.

Quando começou a trabalhar no projeto, lembra Irina, era impossível falar em agulhas ou em programas de troca de seringas.

Agora, a instituição tem centros de acolhimento abertos durante todo o dia, com instalações que fornecem agulhas e seringas novas, alimentos, testes de HIV e um lugar para se lavar. Também é possível ter acesso a aconselhamento jurídico e médico.

A consultora Julia Stoke, que trabalha com o diálogo entre pares, compara os centros a refúgios seguros.

“Esta é uma ilha de segurança”, diz a integrante do Movimento Positivo.

“Uma pessoa que usa drogas precisa, primeiro, de segurança, depois de confiança e, depois, de uma série de serviços.”

Julia Stoke, consultora da ONG Movimento Positivo que trabalha com diálogo entre pares. Foto: Movimento Positivo

Julia Stoke, consultora da ONG Movimento Positivo que trabalha com diálogo entre pares. Foto: Movimento Positivo

O assistente social Vyacheslav Samarin concorda. Ele explica que as pessoas que usam drogas muitas vezes enfrentam situações difíceis, como perda de moradia, falta de documentos e saúde precária. Às vezes, não têm nada para comer ou onde dormir.

“Em muitos casos, um problema leva a outro”, explica Samarin.

“Muitos estão em negação quanto à sua saúde”, acrescenta o assistente social, que aponta que os usuários temem o estigma.

Samarin lembra ainda que é fundamental apoiar esses indivíduos e não deixá-los se sentirem derrotados e abandonados.

“No início, as pessoas não querem acreditar no seu diagnóstico, por isso temos o cuidado de falar com elas sobre como começar o tratamento.”

Segundo Samarin, hoje existem mais métodos de tratamento e as pessoas vivendo com HIV são muito mais ouvidas. Na avaliação do assistente social, houve melhorias significativas nas relações entre pacientes e médicos.

Vyacheslav Samarin, assistente social de Belarus. Foto: Movimento Positivo

Vyacheslav Samarin, assistente social de Belarus. Foto: Movimento Positivo

Além disso, o governo de Belarus passou a apoiar muito mais as iniciativas em prol da saúde dos usuários de drogas e das pessoas que vivem com HIV.

Tatiana Migal, do Ministério da Saúde, confirma . “Ao trabalhar na prevenção do HIV entre pessoas que usam drogas e apoiando pessoas que vivem com HIV por nove anos, o Movimento Positivo não só ganhou experiência considerável neste campo, mas também contribuiu significativamente para reduzir a infecção pelo HIV entre as pessoas que usam drogas injetáveis.”

A especialista enfatiza a importância do aconselhamento entre pares, dos centros de apoio social e dos programas de troca de seringas, bem como da terapia de substituição com metadona.

“De acordo com estimativas da Organização Mundial de Saúde e do UNAIDS (o Programa Conjunto das Nações Unidas sobre HIV/AIDS), os programas de redução de danos ajudarão a superar a epidemia de HIV em Belarus”, acrescenta Tatiana.

O “boca-a-boca” permite que as pessoas saibam onde as clínicas móveis estão estacionadas. O Movimento Positivo também lista as localizações em seu site.