No centenário do fim da Primeira Guerra Mundial, ONU lembra importância do multilateralismo

De conflitos e crises econômicas a doenças e mudança climática, problemas globais exigem “mais do que nunca” um fortalecimento da cooperação internacional, disse o secretário-geral das Nações Unidas, António Guterres, a líderes mundiais no domingo (11) no Fórum de Paris sobre a Paz, marcando o centenário do fim da Primeira Guerra Mundial.

Destacando que cooperação internacional – ou “multilateralismo” – se tornou uma “necessidade”, Guterres observou que países trabalhando juntos “geraram resultados incontestáveis”, incluindo redução da mortalidade infantil e extrema pobreza durante as últimas décadas; batalhas importantes vencidas contra ameaças à saúde pública, como varíola, pólio e AIDS; e diversos esforços de sucesso na prevenção de conflitos e construção da paz.

Secretário-geral da ONU, António Guterres, no primeiro Fórum de Paris sobre a Paz, em 11 de novembro de 2018. Foto: UNESCO/Luis Abad

Secretário-geral da ONU, António Guterres, no primeiro Fórum de Paris sobre a Paz, em 11 de novembro de 2018. Foto: UNESCO/Luis Abad

De conflitos e crises econômicas a doenças e mudança climática, problemas globais exigem “mais do que nunca” um fortalecimento da cooperação internacional, disse o secretário-geral das Nações Unidas, António Guterres, a líderes mundiais no domingo (11) no Fórum de Paris sobre a Paz, marcando o centenário do fim da Primeira Guerra Mundial.

O Fórum de Paris sobre a Paz, o primeiro do gênero, é uma iniciativa do governo francês liderada pelo presidente Emmanuel Macron. Realizado até terça-feira (13) na capital francesa e classificado como “um fórum global para projetos de governança”, o evento reúne dezenas de líderes mundiais e representantes de organizações internacionais para uma série de mesas-redondas para debater e reafirmar comprometimento comum para enfrentar os grandes desafios do mundo atual.

Destacando que cooperação internacional – ou “multilateralismo” – se tornou uma “necessidade”, Guterres observou que países trabalhando juntos “geraram resultados incontestáveis”, incluindo redução da mortalidade infantil e extrema pobreza durante as últimas décadas; batalhas importantes vencidas contra ameaças à saúde pública, como varíola, pólio e AIDS; e diversos esforços de sucesso na prevenção de conflitos e construção da paz.

“Durante os últimos 100 anos, o desejo de resolver conflitos pacificamente com base em regras comuns foi transformado em um sistema universal de instituições nas esferas política, econômica, social e ambiental”, disse o secretário-geral da ONU.

“O horror destes grandes conflitos globais não pode ser esquecido. Mas o horror nunca deve prevalecer sobre a esperança”, afirmou em suas observações iniciais ao fórum. “Foi essa mesma esperança que deu origem ao desenvolvimento do multilateralismo no século 20”, declarou, referindo-se à criação da Liga das Nações, em 1919, e das Nações Unidas, após a Segunda Guerra Mundial, em 1945.

Cenário atual

Citando uma análise das causas do primeiro conflito global feita pelo historiador Christopher Clark, que afirmou em seu livro “The Sleepwalkers” que a guerra começou porque líderes mundiais da época estavam “cegos” e “aprisionados em percepções destorcidas de seus inimigos”, o secretário-geral da ONU destacou “muitos paralelos” entre o mundo na primeira metade do século 20 e o atual. Ele disse que isto está “nos dando motivos para temer que uma série de eventos imprevisíveis possa acontecer”.

Por exemplo, a crise financeira de 2008, similar à crise de 1929 – embora contida e revertida graças a “um arsenal sem precedentes de instrumentos orçamentários e monetários” – levou a uma “desestabilização das classes médias” e à “indignação das pessoas pela traição das elites”.

Outro exemplo de similaridade citado pelo chefe da ONU foi o crescimento do totalitarismo na década de 1930. “Não estamos na mesma situação”, afirmou, “mas o que estamos vendo hoje é a polarização da vida política e da própria sociedade, que está levando a uma erosão perigosa de direitos e liberdades fundamentais, de princípios democráticos e do Estado de Direito”.

“Um enfraquecimento do espírito democrático de compromisso e uma indiferença às regras coletivas são venenos gêmeos para o multilateralismo”, acrescentou, citando como principais exemplos uma divisão no Conselho de Segurança da ONU sobre o conflito na Síria, crescentes “confrontos comerciais” e a “crise de confiança” enfrentada pela União Europeia.

“Mais de 1 milhão de homens e mulheres de 125 países serviram em missões de manutenção da paz durante os últimos 70 anos para evitar a propagação de crises, proteger civis e apoiar processos políticos”, afirmou, acrescentando que tais atos possuem “custo-benefício”.

Citando dados do Escritório de Contabilidade do Governo dos Estados Unidos, ele disse que uma operação nacional de paz na República Centro-Africana, por exemplo, teria custado aos EUA dez vezes mais do que a missão da ONU, MINUSCA.

“O quadro multilateral se mostrou indispensável na resolução de crises de proliferação nuclear”, acrescentou o chefe da ONU, se referindo à união do Conselho de Segurança em negociações sobre situações no Irã e na Coreia do Norte, que geraram soluções negociadas em 2015 e em 2018.

Grandes desafios à frente

Uma questão-chave pela qual esforços multilaterais são particularmente essenciais, destacou o secretário-geral, é mudança climática. Conforme o mundo se prepara para a Conferência sobre Mudança Climática na Polônia (COP 24) em dezembro, o secretário-geral alertou a urgência de ação.

“A mudança climática está se movendo mais rápido do que nós”, lamentou. “O gelo marinho do Ártico está diminuindo, a desertificação está se espalhando e o branqueamento de corais é amplo”, disse, se referindo às descobertas mais recentes do Painel Intergovernamental sobre Mudança Climática, que “excederam até mesmo as previsões mais pessimistas”.

Citando demografia e migração como o segundo maior desafio de nossa época, Guterres pediu para líderes mundiais “retomarem seus sentidos”.

“Em um contexto de mudança climática, desigualdades e conflitos, a migração irá permanecer como um fenômeno duradouro”, afirmou. “Sem cooperação internacional, e se nos escondermos atrás de nossas fronteiras nacionais, nós iremos sacrificar nossos valores coletivos, e perpetuar a tragédia de migrantes sendo explorados pelos piores traficantes”.

Ao passo que a “transformação digital está virando de cabeça para baixo nossas economias e sociedades”, o chefe da ONU identificou a tecnologia como o terceiro grande desafio mundial à frente. Ele citou inteligências artificiais reestruturando o mercado de empregos e a natureza de empregos em si, o aumento de crimes cibernéticos e a lacuna entre inovação e nossos panoramas legais.

Sede da ONU. Foto: Elif Gulec/ONU

Sede da ONU. Foto: Elif Gulec/ONU

Multipolaridade não é a solução

“Nosso mundo no presente parece caótico, mas está se movendo em direção à multipolaridade multidimensional”, explicou Guterres, que destacou que “seria errado classificar esta multipolaridade, em si, como a solução”.

“Sem o sistema multilateral e respeito às regras internacionais, arriscamos um retorno unicamente para relações de poder, mecanismos de recompensa-sanção e um ciclo de conflitos congelados”, disse. “É por isto que não irei me sentar e observar uma agressão ao multilateralismo justamente quando ele é mais necessário”.

O secretário-geral reconheceu a dificuldade de líderes políticos explicarem um compromisso multilateral aos seus constituintes, à medida que “pessoas frequentemente veem o que ele dita, não o que ele mantém”.

Para atacar isto, ele pediu “para Estados renovarem seus pactos com cidadãos” e disse que “precisamos de um multilateralismo inclusivo que seja relacionado intimamente à sociedade civil e à comunidade empresarial”, buscando solucionar desigualdades através da Agenda 2030 conhecida para o Desenvolvimento Sustentável.

“Minha missão é simples: ser mais eficaz para poder servir melhor às pessoas para as quais somos uma necessidade e uma esperança”, explicou o secretário-geral da ONU.

Visão de “um planeta” destaca caminho multilateral

Ecoando o pedido do secretário-geral para “reafirmar os ideais de ação coletiva”, a presidente da Assembleia Geral da ONU, María Fernanda Espinosa, que teve um discurso feito em seu nome durante o debate, disse que “multilateralismo não representa em nenhum sentido uma ameaça à soberania ou aos interesses nacionais de Estados-membros”.

“Isto oferece a única maneira de responder desafios complexos que nenhum país pode superar por conta própria”, segundo comunicado.

A presidente do Conselho Econômico e Social da ONU, Inga Rhonda King, também destacou o papel central que a ONU desempenha na solução de algumas questões humanitárias essenciais, encerrando suas observações com um pedido ao Conselho de Segurança para fortalecer cooperação internacional, com uma referência ao renomado físico Stephen Hawking.

“Em seu último livro, Hawking explicou que, quando vemos a Terra do espaço, nós nos vemos como um todo, nós vemos a unidade, e não as divisões”, disse King, encorajando membros do Conselho de Segurança a verem o mundo como “um planeta, uma raça humana”.