No Burundi, educação em saúde sexual e reprodutiva ajuda a proteger vida de jovens

No Burundi, a taxa de uso de métodos contraceptivos é de 32% entre a população do país. A baixa disseminação de informações sobre saúde reprodutiva e sexual afeta jovens como Cecile Nshimirimana, que abortou quatro vezes, em procedimentos ilegais e frequentemente sem as condições adequadas. Dos mais de 11 milhões de habitantes do Burundi, 31% têm entre 10 e 24 anos.

O Fundo de População das Nações Unidas (UNFPA) apoia 18 centros de saúde abertos à juventude no Burundi, onde funcionários foram treinados para fornecer informações de forma confidencial e sem julgamentos. A agência da ONU também trabalha com o governo do país para disseminar um programa abrangente de educação sexual. O programa, lançado há três anos, tem objetivo de alcançar tanto jovens em escolas quanto a comunidade como um todo.

Jovens do lado de fora de centro de saúde em Bujumbura, capital do Burundi. Foto: UNFPA/Chiara Frisone

Jovens do lado de fora de centro de saúde em Bujumbura, capital do Burundi. Foto: UNFPA/Chiara Frisone

“Durante minha juventude, tive que abortar quatro vezes”, disse Cecile Nshimirimana*, estudante na capital do Burundi, Bujumbura. Os procedimentos foram ilegais – no Burundi, aborto só é permitido para salvar a vida de uma mulher.

“Temi pela minha vida quando, em uma ocasião, estava escuro e o médico só tinha duas velas para iluminar a sala”, lembrou.

Ela não havia aprendido como se proteger de gravidez indesejada – algo considerado tabu em sua comunidade conservadora.

Meninas que ficam grávidas e não estão casadas são frequentemente forçadas a abandonar os estudos ou a se casar precocemente, mesmo sendo menores. “Para uma menina que fica grávida e tem ambições de estudar e seguir adiante na vida, a única opção restante é aborto ilegal, mesmo com todos os riscos que isso implica”, disse Nshimirimana.

Hoje, ela frequenta o Centro Juvenil de Kamenge, um centro patrocinado pelo Fundo de População das Nações Unidas (UNFPA), no qual as jovens podem aprender sobre saúde sexual e reprodutiva e ser encaminhadas para serviços de saúde próprios a adolescentes.

Estes serviços são essenciais, declarou Nshimirimana. “Alguns dias, eu penso como poderia ter evitado ficar grávida se tivesse a informação e os meios necessários para me proteger”.

Vergonha e tabus

A maioria dos adolescentes do Burundi não tem conhecimento suficiente para fazer escolhas responsáveis envolvendo sexualidade.

Nshimirimana enfrentou este desafio quando era adolescente. “Eu via vergonha no rosto da minha mãe quando perguntei questões sobre sexualidade e relacionamentos com meninos”, disse.

“Como podemos adotar comportamento responsável a respeito da sexualidade se ninguém, nem mesmo nossos pais, podem discutir isso abertamente conosco?”.

Na falta de informações confiáveis, rumores, mitos e mentiras correm desenfreados. Muitas pessoas acreditam incorretamente, por exemplo, que métodos modernos contraceptivos causam infertilidade e câncer.

Jovens também enfrentam barreiras no acesso a serviços de saúde sexual e reprodutiva. Eles podem enfrentar vergonha ou estigmas quando buscam ajuda.

“Ainda é desafiador hoje para uma menina ir a uma clínica e buscar suas pílulas anticoncepcionais”, disse Nshimirimana.

Tudo isso é refletido na taxa de fertilidade entre adolescentes do país. De acordo com pesquisa demográfica de 2016-2017, 8% das meninas entre 15 e 19 anos estavam grávidas ou tinham um filho.

Avanços

Apesar disso, há progressos. Como parte do Programa Nacional para Saúde Reprodutiva, informações sobre saúde sexual e reprodutiva estão sendo disseminadas entre redes jovens, muitas delas afiliadas a escolas, comunidades e associações religiosas.

Edouard Hatungimana, de 56 anos, é um facilitador de uma das organizações. Ele recebeu treinamento do UNFPA sobre como falar abertamente sobre saúde e sexualidade.

Ele lembra como estas conversas eram desafiadoras quando estava educando seus próprios seis filhos.

“Nós não entendíamos a importância de discutir saúde sexual e reprodutiva, especialmente o motivo de nossas crianças aprenderem sobre isto, porque assumíamos que isso iria levá-las à perdição”, disse.

Hoje, segundo Hatungimana, “estamos apoiando atividades de comunicação que buscam diálogo aberto entre líderes religiosos e adolescentes e jovens”.

O UNFPA também apoia 18 centros de saúde abertos à juventude no Burundi, onde funcionários foram treinados para fornecer informações de forma confidencial e sem julgamentos. A agência da ONU também trabalha com o governo do país para disseminar um programa abrangente de educação sexual. O programa, lançado há três anos, tem objetivo de alcançar tanto jovens em escolas quanto a comunidade como um todo.

Hatungimana disse acreditar que estes esforços podem salvar vidas, empoderando jovens a se protegerem.

“No que diz respeito à gravidez indesejada e ao risco de complicações por conta de abortos ilegais, que nossas crianças estão enfrentando, é claro que precisamos mudar nosso comportamento”, disse.

*Nome alterado para proteger privacidade.


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