No Brasil, ONU lança guia sobre linguagem apropriada para falar de HIV e AIDS

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O Programa Conjunto das Nações Unidas sobre HIV/AIDS (UNAIDS) lançou em setembro (29), no Brasil, a tradução adaptada para o português de seu Guia de Terminologia, um documento com recomendações sobre o uso de palavras que sejam cientificamente precisas para abordar a epidemia. Publicação visa difundir uma linguagem que respeite a dignidade do indivíduo.

Guia contém recomendações para uso de linguagem adequada na abordagem da epidemia de HIV/AIDS. Foto: UNAIDS Brasil

Guia contém recomendações para uso de linguagem adequada na abordagem da epidemia de HIV/AIDS. Foto: UNAIDS Brasil

O Programa Conjunto das Nações Unidas sobre HIV/AIDS (UNAIDS) lançou em setembro (29), no Brasil, a tradução adaptada para o português de seu Guia de Terminologia, um documento com recomendações sobre o uso de palavras que sejam cientificamente precisas para abordar a epidemia. Publicação visa difundir uma linguagem que respeite a dignidade do indivíduo.

O guia foi apresentado oficialmente durante o painel de debates Palavras não são neutras: intervenções para reduzir o estigma da AIDS no Brasil, uma das atividades do 11º Congresso de HIV/AIDS, em Curitiba. Um dos objetivos da publicação é também combater a discriminação que atravessa expressões utilizadas para falar sobre as pessoas vivendo com HIV.

“A linguagem não é neutra. E no contexto do HIV, essa afirmação nunca foi tão verdadeira”, afirmou a diretora do UNAIDS no Brasil, Georgiana Braga-Orillard.

“As palavras que escolhemos e a forma como comunicamos nossos pensamentos e opiniões têm um efeito profundo na compreensão das mensagens. A escolha cuidadosa da linguagem, portanto, desempenha um papel importante na sustentação e no fortalecimento da resposta ao HIV, para que ela seja construída sobre uma base livre de estigma e de discriminação”, acrescentou.

Também presente no evento, o coordenador do Guia em inglês, Alistair Craik, explicou por que certos vocábulos precisam ser substituídos por novos. “Termos como ‘vítima da AIDS’ implicam que o indivíduo é impotente, sem controle sobre sua vida”, afirmou o especialista. “Por isso, é preferível usar ‘pessoas vivendo com HIV’.”

O objetivo da mesa foi discutir os avanços e desafios no uso linguagem relacionada ao HIV nos mais diversos campos como social, jornalístico, mídias tradicionais e digitais, medicina, ativismo e tantos outros.

Neste caso, como explica o Guia de Terminologia do UNAIDS, a expressão “pessoa vivendo com HIV” põe em destaque o protagonismo que a pessoa HIV-positivo tem em sua própria vida, na busca por saúde e direitos. Expressões de conotação bélica, como “luta contra a AIDS” e “combate à AIDS”, também perdem espaço para termos mais inclusivos e abrangentes, como “resposta à AIDS”.

Há muito tempo, o HIV deixou de ser visto apenas como uma questão médica: o risco de infecção e o impacto do vírus estão entrelaçados a outras questões sociais, incluindo discriminação contra a população LGBT e outras segmentos muitas vezes marginalizados — e, portanto, mais expostos ao risco de infecção pelo vírus.

Outro participante do painel, o jornalista e editor da Revista Galileu, Nathan Fernandes, chamou atenção para o papel da imprensa na difusão de uma linguagem mais inclusiva.

“Falar que o uso de um termo ou expressão é proibido não funciona. Acaba gerando um sentimento contrário, incentivando a pessoa a desafiar essa proibição e seguir usando essas palavras”, avaliou o repórter, que escreveu recentemente uma grande reportagem sobre o estigma enfrentado por indivíduos vivendo com HIV.

“Durante nove meses, conversei com pessoas vivendo com HIV e com pessoas que trabalham nessa área, para fazer a reportagem”, conta. “Isso foi uma exceção, quase um privilégio. Mas posso dizer que a falta de tempo e de espaço talvez expliquem por que temos reportagens tão negativas sobre HIV até os dias atuais.”

Para Fernandes, profissionais da mídia devem sempre manter mente que estão lidando com a vida das pessoas “e, por isso, a escolha das palavras e expressões mais adequadas é fundamental”.

Guia esclarece erros comuns

As diretrizes de terminologia do UNAIDS fornecem conselhos a autores e jornalistas para evitar erros comuns. Por exemplo, a expressão “vírus da AIDS” não deve ser escrita porque é cientificamente errada. Não há “vírus da AIDS”, porque a síndrome de imunodeficiência adquirida é uma síndrome de infecções oportunistas e doenças que, em última instância, é causada pelo HIV.

Outro equívoco recorrente está no uso da expressão “pessoas infectadas com a AIDS”. A AIDS não é o fator infectante e sim, o vírus, conhecido como HIV. O Guia explica ainda que, como a palavra “HIV” (do inglês, human immunodeficiency virus) significa em português ‘vírus da imunodeficiência humana’, é incorreto escrever o “vírus HIV” ou “vírus do HIV” por se tratar de uma redundância.

Com esses e outros exemplos, o guia propõe uma linguagem não discriminatória e culturalmente apropriada, que promove os direitos humanos de todas as pessoas vivendo com HIV. O UNAIDS enfatiza que as orientações terminológicas devem ser consideradas um trabalho contínuo, levando em conta que novas questões e dinâmicas emergem frequentemente.

Você pode acessar o Guia de Terminologia clicando aqui. Estas diretrizes podem ser amplamente copiadas e reproduzidas, contanto que esse uso não seja para fins lucrativos e que a fonte seja sempre citada. Comentários e sugestões de acréscimos, supressões ou modificações podem ser encaminhadas para brazil@unaids.org.


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