Nesta sexta (22), ONU Brasil transmite ao vivo roda de conversa pelo Dia da Visibilidade Bissexual

O Dia da Visibilidade Bissexual foi criado em 1999 por ativistas bissexuais que sentiam que as demandas e prioridades da sua população não eram suficientemente ouvidas pela sociedade nem estavam adequadamente representadas pelas pautas do movimento LGBTI. Desde então, o 23 de setembro tem sido reconhecido mundialmente como o Dia da Visibilidade Bissexual.

Às 16h desta sexta-feira, 22 de setembro, a campanha da ONU Livres & Iguais transmitirá ao vivo uma roda de conversa para tratar dos principais temas e desafios que cercam as vidas dessas pessoas que desafiam cotidianamente a monossexualidade.

Nesta sexta-feira, 22 de setembro, a campanha da ONU Livres & Iguais transmite ao vivo, pelo Facebook da ONU Brasil, uma roda de conversa para tratar dos principais temas e desafios que cercam as vidas de milhares de pessoas que, cotidianamente, desafiam a monossexualidade. A atividade acontece no âmbito do Dia da Visibilidade Bissexual, 23 de setembro.

O dia da Visibilidade Bissexual foi criado em 1999 por três ativistas norte-americanos bissexuais, Wendy Curry, Michael Page e Gigi Raven Wilbur. A data foi instituída porque as demandas e prioridades da população bissexual não eram suficientemente ouvidas pela sociedade, nem estavam adequadamente representadas pelas pautas do movimento LGBTI – lésbicas, gays, bissexuais, travestis, transexuais e pessoas intersexo.

Desde então o 23 de setembro tem sido reconhecido mundialmente como uma data para celebrar as identidades bissexuais em toda a sua diversidade e pluralidade, mas também e principalmente, uma ocasião para chamar atenção para os desafios e obstáculos que ainda se interpõem para a efetividade plena de direitos da população bissexual.

Você tem a impressão de que só se fala em bissexualidade quando se passa pelo “B” na sigla “LGBTI”? Vamos mudar isso?
Acompanhe o Facebook Live da campanha da ONU Livres & Iguais.
Contribua para o enfrentamento à bifobia. Compartilhe no seu feed, participe pelos comentários e ajude a dar às pessoas bis sexuais a visibilidade que elas precisam e merecem neste 23 de setembro.

Ibrat – Instituto Brasileiro De Transmasculinidades Corpolítica United Nations Free & Equal

#LGBTI #visibilidadebissexual #direitoshumanos #livreseiguais

Publié par ONU Brasil sur vendredi 22 septembre 2017

Por que uma data para a visibilidade bissexual?

De 1999 para cá, foram pontuais os avanços no pleito por visibilidade da população de homens, mulheres e pessoas não-binárias que se identificam como bissexuais. Um dos principais obstáculos a serem vencidos é a resistência em a bissexualidade ser percebida e reconhecida como uma identidade própria, tanto pela própria comunidade LGBTI quanto pela sociedade.

Ainda é comum ouvir que pessoas bissexuais são “metade heterossexuais” e metade “gays” ou “lésbicas”, como se a sua orientação sexual fosse derivada, incompleta ou inferior, por ser composta por duas “partes”. Outros equívocos são achar que a orientação sexual muda conforme a pessoa com quem o ou a bissexual esteja se relacionando, ou ainda que não existem formas específicas de discriminação enfrentadas por pessoas bissexuais, distintas da lesbofobia ou da homofobia.

É desafiador encontrar números que quantifiquem a bifobia, mas ela se manifesta tanto na ausência de dados oficiais e de políticas públicas dirigidas especificamente para esta população, como também em pesquisas feitas por organizações da sociedade civil e relatórios de organizações internacionais.

Um estudo global feito pelo Alto Comissariado da ONU para Direitos Humanos em 2016 verificou que um número importante de países tem tomado medidas para enfrentar a violência e a discriminação com base na orientação sexual, mas mesmo nesse contexto medidas dirigidas especificamente a pessoas bissexuais são praticamente inexistentes.

Uma pesquisa publicada em 2015, realizada no Reino Unido pela LGBTI Equality Network, revelou que 85% das pessoas bissexuais entrevistadas se sentiam “apenas um pouco” ou “nem um pouco” parte de uma “comunidade bissexual. 66% afirmaram que se sentiam “apenas um pouco” ou “nem um pouco” parte da comunidade LGBT, e 69% disseram que se sentiam “apenas um pouco” ou “nem um pouco” parte da comunidade heterossexual.

Nos Estados Unidos, o trabalho do BiNetUSA, Bisexual Resource Center e Movement Advancement Project (MAP) revelou que pessoas bissexuais têm até seis vezes mais chance de esconder sua orientação sexual em relação a gays e lésbicas. Apenas 28% das e dos bissexuais afirmaram que as pessoas mais próximas sabiam sobre sua orientação sexual. O número é de 77% para homens gays e 71% para lésbicas.

Essa é realidade é confirmada por dados da pesquisa norte-americana General Social Survey de 2008, que revelou que 25% dos e das bissexuais nunca revelaram sua orientação sexual a ninguém, comparado com 4% de gays e lésbicas.

BISSEXUAL. Bissexuais são pessoas que podem sentir atração emocional, romântica e/ou física por mais de um sexo ou gênero. A bissexualidade não depende de quantos (ou com quais gêneros/sexos) relacionamentos alguém teve. A orientação sexual não está relacionada à identidade de gênero.

MONOSSEXUAL. São as pessoas que se sentem atraídas emocionalmente, romanticamente e/ou fisicamente por um único sexo ou gênero. Lésbicas, gays e heterossexuais são monossexuais.

BIFOBIA. É o medo, ódio ou aversão irracional em relação às pessoas bissexuais.

Saiba mais: unfe.org/pt-pt/definitions

Violência e discriminação contra pessoas bissexuais

Pessoas bissexuais compartilham algumas demandas e sofrem com algumas das violências e das discriminações também enfrentadas por lésbicas e gays. Isso não significa que a bissexualidade não mereça ser reconhecida como uma identidade própria, nem que as violências e discriminações sofridas por pessoas bissexuais mereçam ser reconhecidas como bifobia.

O relatório de 2015 da Comissão Interamericana de Direitos Humanos sobre violência contra pessoas LGBTI nas Américas registrou que a violência contra pessoas bissexuais é a mais difícil de documentar. Em um período de monitoramento de 1,5 ano, a CIDH foi informada de apenas 3 casos de violência contra pessoas bissexuais. Isso porque bissexuais são frequentemente apagados das estatísticas sobre violência LGBTI-fóbica, já que vítimas bissexuais são registradas como “lésbicas” ou “gays”.

Esse mesmo fenômeno pode ser observado no Brasil. No último relatório publicado pela Secretaria de Direitos Humanos sobre Violência Homofóbica, apenas 2,3% dos casos foram registrados como envolvendo vítimas bissexuais (dados de 2013). Isso ainda representa um avanço em relação ao relatório anterior, em bissexuais representavam apenas 0,39% dos casos.

Natasha Avital, do Coletivo Bi-Sides, organização que atua pelos direitos das pessoas bissexuais em São Paulo, diz que os desafios enfrentados por esta população são especialmente grandes quando o tema é saúde mental. Ela diz que “é comum que pessoas bissexuais recebam diagnóstico de transtornos mentais que não têm, como transtorno bipolar ou transtorno borderline, doenças associadas a um ‘senso instável de identidade’ e ‘promiscuidade sexual’, estereótipos ligados à bissexualidade”.

Para Nathasha, “isso se torna ainda mais preocupante quando se descobre que pesquisas nacionais e internacionais revelam que pessoas monodissidentes, aquelas com atração sexual e/ou afetiva por mais de um gênero, apresentam índices mais altos de suicídio e de problemas de saúde mental, como depressão, abuso de álcool e outras drogas, transtornos alimentares e automutilação. Ou seja, somos a população que mais precisa de atenção em saúde mental, no entanto ao procurar tal atenção sofremos muitas vezes revitimização”.

Mulheres bissexuais

Mulheres que integram a comunidade LGBTI, sejam elas lésbicas, bissexuais ou trans, correm risco maior de sofrer com a desigualdade de gênero e com restrições à sua autonomia em decidir sobre a sua sexualidade, sua reprodução e sua vida familiar. São muitos os relatos de mulheres bissexuais que vivem ou já viveram relacionamentos abusivos em razão da sua orientação sexual. Parceiros e parceiras podem consideram a identidade bissexual como sinônimo de objetificação, hipersexualização ou promiscuidade.

Nos Estados Unidos, dados de 2010 da Pesquisa Nacional sobre Casais e Violência Sexual (‘National Intimate Partner and Sexual Violence Survey’) indicaram que mulheres bissexuais sofrem desproporcionalmente mais de violência doméstica do que mulheres lésbicas e bissexuais. Enquanto que 61% das mulheres bissexuais reportaram haver sofrido alguma forma de violência sexual, 43,8% de mulheres lésbicas e 35% de mulheres sexuais afirmaram o mesmo.

A ONU, a Comissão Africana dos Direitos Humanos e dos Povos e a Comissão Interamericana de Direitos Humanos reportaram que um estudo conduzido em quatro países no sul da África revelou que mulheres lésbicas e bissexuais que sofreram violência sexual perpetrada por homens tinham mais chances de apresentar carga viral positiva.

No relatório de 2015, a Comissão Interamericana de Direitos Humanos registrou que mulheres bissexuais, assim como as lésbicas e homens trans, sofrem violência sexual com motivação de corrigir ou sancionar a sua orientação sexual ou identidade de gênero, especialmente os “estupros corretivos”.

Mulheres bissexuais também apresentam indicadores maiores de depressão, transtornos alimentares e ideação suicida do que lésbicas.

Mulheres negras bissexuais enfrentam formas de discriminação múltiplas, que incidem de modo simultâneo e cumulativo em suas vidas. Mulheres negras bissexuais sofrem com uma invisibilização ainda mais aprofundada, já que estão triplamente à margem: pelo gênero, pela raça, pela orientação sexual.

MULHERES BISSEXUAIS NO BRASIL. Um momento importante para mulheres bissexuais no Brasil foi a 9ª Edição do Seminário Nacional de Lésbicas e Mulheres Bissexuais (SENALESBI), realizado em 2016, em Teresina. Foi a primeira vez que as mulheres bissexuais foram contempladas na sigla do evento mais importante reunindo mulheres lésbicas e bissexuais no país. Até então, o Seminário usava apenas o acrônimo SENALE. A mudança foi fruto de deliberações feitas em edições anteriores.

Solicitantes de refúgio bissexuais

Relações sexuais entre pessoas adultas do mesmo sexo ainda são criminalizadas em mais de 70 países do mundo. Em pelo menos 5 desses países, a pena pode chegar à morte. Por isso, Estados têm reconhecido o direito à proteção internacional advinda do refúgio a pessoas que fogem de seus países de origem por conta de fundado temor de perseguição com base em sua orientação sexual, seja ela real ou percebida. Isso afeta também pessoas bissexuais.

Alguns países têm negado o pedido de reconhecimento de status de refugiada a pessoas bissexuais, argumentando que elas podem voltar pra casa e “escolher” viver vidas heterossexuais, acusando-as de serem desonestas quanto a sua orientação sexual, ou ainda exigindo provas arbitrárias de sua orientação sexual.

Os Princípios de Yogyakarta estabelecem que todas as pessoas têm direito a buscar refúgio, incluindo nos casos de fundado temor de perseguição por conta de sua orientação sexual ou identidade de gênero (Princípio 23). Os Estados não podem remover, deportar ou extraditar as pessoas para um país em que corram risco de serem perseguidas por conta de sua orientação sexual ou identidade de gênero, real ou percebida.

A Diretriz nº 9 do ACNUR afirma que “a orientação sexual e/ou a identidade de gênero são aspectos fundamentais da identidade humana, que são inatas ou imutáveis e dos quais ninguém deve ser obrigado a abrir mão ou esconder”. Todas as pessoas solicitantes de refúgio têm o direito de viver em uma sociedade como elas são e não ser obrigadas a esconder isso.

Mitos e estereótipos negativos sobre bissexuais e bissexualidade

Mitos e estereótipos negativos sobre bissexuais e sobre a bissexualidade afetam a saúde mental e o bem-estar de pessoas bissexuais, deixam-nas mais vulneráveis a sofrer violência, inclusive violências sexuais, contribuem para a sua invisibilização na sociedade em geral e na comunidade LGBTI, além de serem um obstáculo ao seu acesso pleno à saúde e à plena efetivação dos seus direitos humanos.

Neste 23 de setembro, a campanha da ONU Livres & Iguais convida você a conhecer mais sobre as identidades bissexuais e desconstruir mitos e estereótipos negativos sobre pessoas bissexuais e a bissexualidade.

1. Bissexuais são “metade héteros” e metade “gays/lésbicas”.
A bissexualidade não é composta pela soma de duas partes, nem é derivada ou incompleta. Ela é uma identidade e uma orientação sexual que merece ser reconhecida e respeitada por si própria.

2. A orientação sexual muda conforme a pessoa com quem a(o) bissexual esteja se relacionando.
Ninguém deixa de ser bissexual por estar se relacionando com um homem ou com uma mulher. Uma mulher bissexual que esteja se relacionando com outra mulher não “vira” lésbica, assim como ela não “vira” heterossexual por estar em um relacionamento com um homem. O mesmo vale para homens bissexuais.

3. A bissexualidade é apenas uma “fase” entre a heterossexualidade e a homossexualidade.
A bissexualidade não é uma “etapa” ou uma “fase” a ser ultrapassada entre a heterossexualidade e a homossexualidade. Enquanto isso pode ser verdade para algumas pessoas, outras podem se identificar como bissexuais durante toda a vida adulta e não devem se sentir pressionadas a fazer nenhum tipo de escolha ou ter suas identidades deslegitimadas por não se encaixarem na monossexualidade.

4. Bissexuais são indecisos, ou confusos.
Ao passo que muitas pessoas bissexuais entendam que sua orientação sexual é “fluida”, ou que a bissexualidade é um guarda-chuva para várias orientações sexuais não-monossexuais (como os pansexuais, fluidos, polissexual, homoflexível/lesboflexível, heteroflexível), isso não deve ser entendido como indecisão ou confusão. Ninguém deve se sentir pressionado a fazer uma escolha entre a heterossexualidade e a homossexualidade, ou ser considerado “confuso” ou “indeciso” por conta disso.

5. Bissexuais são desonestos, ou promíscuos.
Não há qualquer evidência empírica de que a população bissexual apresente índices mais elevados de desonestidade ou promiscuidade em relação à sociedade geral. Muitas vezes, é a ignorância de que pessoas possam ter outras orientações sexuais além das monossexuais que produzem estereótipos negativos sobre bissexuais. Esses estereótipos negativos deixam pessoas bissexuais, principalmente mulheres, mais vulneráveis a sofrer violência sexual.

6. Bissexuais podem escolher por quem sentem atração.
Vivenciar plenamente a sexualidade, sem medo de sofrer violência ou discriminação, é um aspecto fundamental da identidade humana. Ninguém deve ser constrangido a abrir mão da sua orientação sexual ou ser obrigado a escondê-la. O fundado temor de perseguição por conta da orientação sexual é base legítima para a determinação do status de refugiado ou refugiada, ainda que a pessoa bissexual tenha vivido ou esteja vivendo em uma relação heterossexual.