Nações Unidas denunciam desvio de ajuda humanitária no Iêmen

Após descobrir evidências de que entregas de alimentos estão sendo desviadas em Sanaa, capital do Iêmen controlada pelos rebeldes houthis, e em outras partes do país, o Programa Mundial de Alimentos (PMA) das Nações Unidas exigiu o fim imediato desta prática.

“Esta conduta equivale a roubar comida da boca das pessoas mais famintas”, disse o diretor-executivo do PMA, David Beasley, na segunda-feira (31).

A inspeção descobriu fraude em ao menos uma organização parceira local afiliada ao Ministério da Educação em Sanaa e que administrava e distribuía a assistência alimentar do PMA.

Menino de nove meses pesando 3 kg é tratado por desnutrição em hospital de Sanaa. Foto: OCHA/ Charlotte Cans

Menino de nove meses pesando 3 kg é tratado por desnutrição em hospital de Sanaa. Foto: OCHA/ Charlotte Cans

Após descobrir evidências de que entregas de alimentos estão sendo desviadas em Sanaa, capital do Iêmen controlada pelos rebeldes houthis, e em outras partes do país, o Programa Mundial de Alimentos (PMA) das Nações Unidas exigiu o fim imediato desta prática.

“Esta conduta equivale a roubar comida da boca das pessoas mais famintas”, disse o diretor-executivo do PMA, David Beasley, na segunda-feira (31).

Após um número crescente de relatos de que alimentos de entregas humanitárias estavam à venda na capital, o PMA realizou uma inspeção para descobrir a apropriação indevida destes alimentos.

A inspeção descobriu fraude em ao menos uma organização parceira local afiliada ao Ministério da Educação em Sanaa e que administrava e distribuía a assistência alimentar do PMA.

“Em um momento em que crianças estão morrendo no Iêmen porque não têm comida suficiente, isto é um absurdo”, destacou Beasley. “Este comportamento criminoso deve acabar imediatamente”.

A assistência da agência da ONU tem sido essencial para prevenir a fome, mas conforme a situação de segurança alimentar piora, o auxílio está sendo intensificado dramaticamente para alcançar até 12 milhões de pessoas com fome severa no país devastado pela guerra.

“Peço para autoridades houthis em Sanaa tomarem ação imediata para acabar com o desvio de assistência alimentar e garantir que chegue às pessoas que dependem disso para viver”, disse Beasley.

“A não ser que isto aconteça, nós não teremos opção a não ser deixar de trabalhar com aqueles que estão conspirando para privar pessoas vulneráveis de alimentos”, acrescentou.

Durante inspeção, monitores do PMA: reuniram fotos e outras evidências de caminhões removendo ilicitamente alimentos de centros de distribuição; descobriram que escolhas de beneficiários estavam sendo manipuladas por autoridades locais; e expuseram registros falsos de distribuição de alimentos. Também descobriram que pessoas não autorizadas receberam alimentos; e identificaram que alimentos estavam sendo vendidos em mercados em Sanaa.

As autoridades em áreas controladas por houthis têm resistido à reforma apoiada pelo PMA do sistema de ajuda na região, incluindo maior monitoramento dos processos de registro e seleção de beneficiários.

Apesar disso, o chefe do PMA afirmou: “estamos continuando nossas investigações e respondendo às lacunas que deram origem a este uso irregular de assistência”.

A guerra do Iêmen foi intensificada no começo de 2015 quando uma coalizão liderada pela Arábia Saudita se juntou à luta do governo contra rebeldes houthis, realizando uma campanha de bombardeios aéreos.

Os lados conflitantes iniciaram recentemente conversas de paz que aliviaram os desafios de levar alimentos à cidade portuária de Hodeida.

Como milhões de pessoas dependem de assistência humanitária alimentar para sobrevivência, é vital que ela chegue aos que mais precisam, alertaram as Nações Unidas.

Acordo de cessar-fogo

O PMA expressou em dezembro esperança de que um acordo de cessar-fogo recém-aceito, que cobre as províncias de Hodeida e Taiz, irá melhorar acesso para envios humanitários e comerciais.

“Este acordo possui o potencial de permitir que os portos de Hodeida e Seleef operem em capacidade quase normal”, disse o porta-voz do PMA, Hervé Verhoosel, a jornalistas em Genebra. “O fluxo livre de suprimentos alimentares comerciais para o Iêmen irá impedir maiores aumentos de preços de alimentos, que subiram nos últimos meses”.

O PMA e outras agências da ONU descreveram Hodeida como principal linha para dois terços da população, que sofre em larga escala desde agravamento de conflito.

Para ilustrar a necessidade de assistência no Iêmen, Verhoosel desacou que em janeiro de 2017 o PMA entregou ajuda a 3,5 milhões de pessoas ao mês, número que hoje é três vezes maior. “É uma das nossas maiores operações já feitas”, disse, acrescentando que a agência planejada alcançar até 12 milhões de pessoas em janeiro.