Na Ucrânia, pessoas LGBTI fogem do conflito armado e do preconceito

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Conflito armado no leste da Ucrânia forçou 2 milhões de pessoas a deixar suas casas. Entre elas, gays, lésbicas, bissexuais, indivíduos trans e intersex que já viviam em risco antes mesmo do início da guerra, em 2014. No país, a comunidade LGBTI sofre com a perseguição da própria polícia. O universitário Oleg foi denunciado às autoridades pela própria mãe, mesmo a homossexualidade tendo sido legalizada no país em 1991.

Oleg conversa com uma amiga em Kiev. Foto: ACNUR/Anastasia Vlasova

Oleg conversa com uma amiga em Kiev. Foto: ACNUR/Anastasia Vlasova

Quando Viktor*, um homem gay de 27 anos, abriu sua porta para a polícia uma manhã, ele sabia: sua orientação sexual — mantida em segredo até então — havia sido descoberta. Quando afirmou que tinha uma namorada, os oficiais reagiram com desprezo — um de seus vizinhos já havia lhes contado tudo. A menos que Viktor pudesse apresentar a suposta mulher dentro de 24 horas ou pagar um suborno, cujo valor não tinha condições de pagar, o rapaz seria preso.

Em pânico, o jovem juntou seus pertences em uma mochila e fugiu durante a noite.

A história de Viktor é semelhante de muitas pessoas gays, bissexuais, trans e intersex (LGBTI) que vivem na Ucrânia, onde a homossexualidade foi legalizada apenas em 1991 e ainda é considerada tabu. A discriminação é ainda mais exacerbada nas regiões do leste do país, como Donetsk, onde um conflito com entidades separatistas forçou 2 milhões de indivíduos a deixarem suas casas. Confrontos já deixaram mais de 10 mil ucranianos mortos.

Muitas pessoas LGBTI enfrentam estigma e assédio, sendo vítimas de violentos ataques. Em alguns casos, o lugar onde vivem apresenta tantos riscos que a única opção é fugir.

Assim como outros deslocados internos que fazem parte da comunidade LGBTI — e vêm de territórios não controlados pelo governo da Ucrânia —, Viktor recebeu ajuda de uma organização chamada Insight. A instituição administra um abrigo e oferece assistência jurídica para quem que não possui os meios de se sustentar.

“Não é fácil ser LGBTI no Leste”, diz a diretora Olena Shevchenko. “Eles podem te espancar, eles podem te estuprar. Não é possível ser aberto (quanto à orientação sexual ou identidade de gênero) porque você nunca tem certeza do que pode acontecer em seguida. Você precisa levar uma vida escondida.”

Mesmo em Kiev, a capital da Ucrânia que este ano foi palco de sua quarta Parada do Orgulho Gay, agressões homofóbicas não são incomuns. Recentemente, uma das filiais da loja Lush, que se posicionou publicamente contra a discriminação, foi pichada. As inscrições diziam: “A Ucrânia é contra perversões. Saiam daqui!”.

Viktor passou quatro meses no abrigo da Insightem Kiev, tentando encontrar um emprego e uma moradia. Para deslocados internos, a busca por uma ocupação pode ser difícil, devido aos estereótipos negativos associados à condição de migrante forçado. Mas, para pessoas gays ou trans, o estigma é duplo.

Preocupação com o futuro e com o passado

Escapar do conflito não significa esquecer a guerra. “Muitas pessoas que chegam ao abrigo ainda estão com seus pais em Donetsk e Luhansk”, explica Shevchenko. “Sempre há operações militares e você nunca sabe se sua casa será a próxima. Você não tem renda porque você não consegue achar um emprego e, se alguém te machuca, para onde você corre? É uma vida horrível”.”

Oleg, estudante de teatro de 22 anos, oriundo da região de Donetsk, foi denunciado pela própria mãe à polícia. Ela forçou o filho a ver um psicólogo.

“Quando minha mãe descobriu pela primeira vez que eu era gay, ela não entendeu”, lembra o jovem. “Foi muito chocante para ela. Ela chamou a polícia três vezes para me assustar. Nas duas primeiras vezes em que vieram para nossa casa, apenas falaram comigo, mas, da terceira vez, me levaram para a delegacia. Eles passaram horas me atormentando e me ofendendo. Eu estava aterrorizado. Quando cheguei em casa, eu lembro que eu disse: ‘Você não é minha mãe porque as mães não fazem isso’.”

Olena Shevchenko, ativista de direitos humanos, na sua mesa no escritório da Insight em Kiev. Foto: ACNUR/Anastasia Vlasova

Olena Shevchenko, ativista de direitos humanos, na sua mesa no escritório da Insight em Kiev. Foto: ACNUR/Anastasia Vlasova

O universitário já havia sido humilhado anteriormente. No ensino médio, foi espancado e xingado. “Eu chamo isso de caça às raposas”, diz Oleg. “Eles corriam atrás de mim e eu me escondia. Os meninos me empurravam escada abaixo. Isso sempre acontecia.”

No verão de 2014, quando os confrontos armados começaram, ele decidiu se mudar para Kiev. Sua mãe fugiu alguns meses depois, quando sua rua foi atacada. Milagrosamente, sua casa permanece intacta, mas não vale quase nada estando localizada em uma zona de conflito. Nenhum deles pensa em voltar para lá.

“É como uma grande bola de neve”, afirma Oleg. “Para mim, não se tratava apenas da guerra. Tinha a ver também com a discriminação e a identidade LGBTI. Você é incompreendido.”

Cartilhas e panfletos informativos no escritório da Insight, em Kiev. Foto: ACNUR/Anastasia Vlasova

Cartilhas e panfletos informativos no escritório da Insight, em Kiev. Foto: ACNUR/Anastasia Vlasova

A Agência da ONU para Refugiados (ACNUR) trabalha para oferecer assistência individual aos deslocados internos LGBTI mais vulneráveis na Ucrânia, oferecendo orientação jurídica e treinamento para o pessoal de campo. O organismo internacional também apoia a iniciativa pública “T-ema”, que ajuda as pessoas trans deslocadas e é dirigida por participantes de um grupo de trabalho do ACNUR com representantes da comunidade LGBTI. Em julho, a entidade da ONU participou da Parada do Orgulho Gay em Kiev.

Para Oleg, e muitos outros como ele, seu futuro na Ucrânia é incerto. “Eu não posso ir para casa porque eu serei detido ou morto. Não vejo como ter uma vida normal na Ucrânia, mesmo em Kiev. É uma luta todos os dias e não quero (isso). Eu quero ser normal. Eu quero ter uma casa e um marido e gatos de estimação”.

O estudante vê com certo pessimismo o histórico do movimento LGBTI no país onde nasceu. “Ainda não lutamos por nossos direitos. Não temos esse histórico. Requer coragem, requer valentia”, confessa.

Mas para ativistas como Olena, a mudança está próxima. “As pessoas na Ucrânia precisam dos seus direitos e precisam de proteção”, afirma a responsável pela Insight. “E elas estão prontos para exigir isso.”


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