Na Ucrânia, agência da ONU ajuda mulheres vítimas de abuso a reconstruir suas vidas

A ucraniana Olena viveu oito anos dentro de um casamento abusivo, sofrendo agressões físicas e sexuais. Ameaças de morte eram feitas constantemente pelo marido, que tentava estrangulá-la quando ela não obedecia a ele.

Com o apoio do Fundo de População das Nações Unidas (UNFPA), ela e os cinco filhos puderam deixar para trás uma história de violência e recomeçar suas vidas.

Na Ucrânia, o UNFPA mobiliza diferentes instituições para combater a violência de gênero, garantindo o oferecimento de apoio psicossocial e de residência para as vítimas. Foto: UNFPA/Maks Levin

Na Ucrânia, o UNFPA mobiliza diferentes instituições para combater a violência de gênero, garantindo o oferecimento de apoio psicossocial e de residência para as vítimas. Foto: UNFPA/Maks Levin

Há pouco tempo, a ucraniana Olena* temia pela sua vida e pelo bem-estar dos filhos. Por anos, o seu marido a agrediu física e sexualmente. Ele ameaçava matar a esposa caso ela o deixasse. Até que Olena encontrou a força de que precisava para proteger as crianças e começar uma vida nova. No caminho, ela recebeu o apoio do Fundo de População das Nações Unidas (UNFPA).

Olena conheceu seu marido na Internet, quando os dois eram adolescentes.

“Como éramos, os dois, órfãos, não tínhamos pessoas próximas nas nossas vidas para conversar conosco sobre as consequências das relações sexuais”, lembra a ucraniana.

“Eu acabei ficando grávida aos 16 anos de idade.”

Eles logo se casaram. Olena só descobriu mais tarde que o seu novo marido consumia drogas de forma abusiva.

Sem ter para onde ir

“Antes, ele era sempre calmo e equilibrado”, recorda Olena. “Aí, num dia, ele chegou em casa, pegou uma frigideira e começou a andar pelo flat, sacudindo a frigideira no ar. Eu fiquei pasma. Aparentemente, eu não tinha ideia de com quem eu tinha casado.”

Mas a ucraniana era responsável por um bebê e não tinha nenhum apoio. Ela se sentiu como se não tivesse para onde ir.

A situação só piorou. O marido começou a bater em Olena e chegava a tentar estrangulá-la, quando ela se recusava a fazer o que ele pedia. Seu esposo controlava todos os detalhes da sua vida.

Ela lutava para sustentar a família, que cresceu e ganhou outros quatro filhos. O marido se recusava a trabalhar.

Violência de gênero na Ucrânia

A violência de gênero é um problema generalizado em todo o mundo — e a Ucrânia não é exceção.

De acordo com uma pesquisa realizada pelo UNFPA em 2014, 22% das mulheres ucranianas já sofreram abuso físico ou sexual. Um relatório de 2017 estimava que, por ano, até 1,1 milhão de mulheres no país viviam um episódio de abuso físico ou sexual.

A agência da ONU trabalha com parceiros na Ucrânia, incluindo o governo, para prevenir e enfrentar a violência de gênero. Programas apoiados pelo UNFPA ajudam a identificar mulheres vulneráveis e a conectar sobreviventes a abrigos, instituições de apoio psicossocial e outras formas de auxílio.

Vida nova

Olena aguentou um casamento abusivo por oito longos anos.

Numa manhã, ela percebeu que não podia suportar mais. Seu marido pediu que ela preparasse o café, mas não havia dinheiro nem comida e ela estava exausta.

“Não tem nada para comer. Olhe para as nossas crianças, dentro dos olhos famintos delas”, ela disse ao marido.

“Você é o pai delas, você deveria cuidar e proteger a gente, não (fazer) a gente se proteger de você.”

Olena chamou um amigo, que a ajudou a se mudar para uma “casa parental” — um abrigo da igreja para pessoas em necessidade. Ela e os filhos moram lá há dois anos e meio.

O recomeço foi duro. Ela conseguiu um emprego como professora assistente num jardim de infância. Mas ela queria um trabalho com mais flexibilidade para poder cuidar das crianças.

Foi aí que ela descobriu um curso gratuito de cabeleireiro.

Participantes do curso profissionalizante promovido pela Fundação L'Oréal e UNFPA. Foto: L'Oréal

Participantes do curso profissionalizante promovido pela Fundação L’Oréal e UNFPA. Foto: L’Oréal

Mas o programa de treinamento, chamado “Beleza para Todos”, era muito mais do que uma profissionalização. O UNFPA encaminhava sobreviventes de violência e outras mulheres vulneráveis para a iniciativa, que é financiada pela Fundação L’Oréal. A formação ajuda as mulheres a aprender como gerar renda, além de oferecer apoio psicossocial, incluindo sessões de aconselhamento individuais e em grupo.

Até o momento, 28 ucranianas já concluíram o curso.

“No início, eu não achei que me qualificaria para participar”, explica Olena. “Quando eu consegui, me senti no topo do mundo.”

Os mentores do programa perceberam logo que Olena tinha talento para o trabalho, apesar da descrença da própria ucraniana. Assim que se formou no treinamento, ela recebeu uma proposta de estágio que levaria uma vaga de emprego num dos salões mais famosos de Kiev, capital da Ucrânia.

“Antes do curso, eu era muito reticente, com medo de grandes grupos de pessoas e sempre me retraía”, diz Olena.

“Se você me visse como eu era antes do curso e como eu sou agora, você ficaria surpreso com o quanto mudei. Essas duas garotas são como (se fossem) duas pessoas diferentes.”

*Nome trocado por questões de segurança