Na Síria, partes usam fome e medo como ‘métodos de guerra’, alerta chefe humanitário da ONU

Embora haja significativamente menos relatos de violência em algumas partes da Síria, as consequências do conflito continuam a devastar vidas, disse nessa terça-feira (30) o chefe humanitário das Nações Unidas. Na frente diplomática, negociador da ONU vê “passos promissores”, em meio a violações frequentes do cessar-fogo.

Crianças em um abrigo em Jibreen, na cidade de Alepo, Síria, brincam com um carrinho. Foto: UNICEF / Rzehak

Crianças em um abrigo em Jibreen, na cidade de Alepo, Síria, brincam com um carrinho. Foto: UNICEF / Rzehak

Embora haja significativamente menos relatos de violência em algumas partes da Síria, as consequências do conflito continuam a devastar vidas, disse nessa terça-feira (30) o principal funcionário humanitário das Nações Unidas. Ele pediu o fim de ataques e obstáculos que impedem que os trabalhadores humanitários de alcançar centenas de milhares de civis ainda sitiados no país devastado pela guerra.

“Não devemos perder de vista o fato de que, em toda a Síria, milhões de pessoas, em locais dentro e fora das quatro áreas sendo paficiadas, continuam a sofrer porque não têm os elementos mais básicos para sustentar suas vidas”, disse Stephen O ‘Brien, chefe humanitário da ONU, ao Conselho de Segurança.

“Não devemos ficar em silêncio enquanto a violência acena em outros lugares do país e as partes continuam a usar a fome, as táticas de medo e a negação de alimentos, água, suprimentos médicos e outras formas de ajuda como métodos de guerra”, afirmou.

A guerra na Síria, agora em seu sétimo ano, pesou sobretudo para as crianças. Foram mortas dezenas de milhares e muitas outras detidas, torturadas, submetidas a violência sexual, recrutadas à força e, em alguns casos, executadas.

Só na semana passada 30 crianças e mulheres ficaram feridas em um ataque do Estado Islâmico do Iraque e do Levante (ISIL/Da’esh) em bairros sitiados em Deir ez-Zor quando estavam se alinhando para coletar água.

Além disso, nas últimas semanas, mais de uma centena de civis, muitas delas mulheres e crianças, foram vítimas de ataques aéreos crescentes contra o ISIL, particularmente nas províncias do nordeste de Al-Raqqa e Deir ez-Zor.

De acordo com as mais recentes estimativas, cerca de 7 milhões de crianças vivem na pobreza e cerca de 1,75 milhão estão fora das escolas, com outras 1,35 milhão de pessoas com risco de abandono. Cerca de uma em cada três escolas foi danificada, destruída ou tornada inacessível.

“E mesmo que as escolas estivessem intactas, muitas não seriam capazes de abrir, com quase um quarto dos professores tendo abandonado seus postos”, disse O’Brien.

A situação daqueles que estão fora do país, vivendo como refugiados, permanece igualmente incerta com muitos se tornam apátridas.

Civis na Síria devem ser poupados de ataques aéreos contra grupos terroristas

O chefe de direitos humanos das Nações Unidas pediu na última semana (26) a todas as partes em conflito na Síria que tomem todas as medidas possíveis para poupar a população civil dos efeitos do conflito armado, observando que os civis estão sendo atingidos pelos combates entre as forças governamentais e os terroristas do ISIL/Da’esh.

Em particular, o alto-comissário das Nações Unidas para os Direitos Humanos, Zeid Ra’ad Al Hussein, exortou as forças aéreas do governo e de outros governos que enfrentam o ISIL na Síria a terem muito mais cuidado em distinguir entre alvos militares legítimos e civis.

“O aumento das mortes e lesões civis já causadas por ataques aéreos em Deir-ez-Zor e Al-Raqqa sugerem que precauções insuficientes podem ter sido tomadas nos ataques”, disse Zeid.

Um comboio da ONU passa por edifícios destruídos na cidade antiga de Homs, na Síria. Foto: UNICEF/Ebo (março de 2017)

Um comboio da ONU passa por edifícios destruídos na cidade antiga de Homs, na Síria. Foto: UNICEF/Ebo (março de 2017)

“Só porque o ISIL possui uma área não significa que menos cuidados podem ser tomados. Os civis devem sempre ser protegidos, quer estejam em áreas controladas pelo ISIL seja em qualquer outra parte”, acrescentou.

Lugares como a cidade fronteiriça de Albo Kamal – onde combatentes do ISIL e suas famílias se misturam a cerca de 100 mil pessoas, incluindo sírios e iraquianos deslocados – são particularmente preocupantes, disse Zeid.

Passos “promissores” na frente diplomática

Na frente diplomática, apesar de passos “promissores”, o negociador das Nações Unidas alertou na semana passada (22) sobre as hostilidades em curso entre o governo e os grupos de oposição armados em diversas áreas, como Hama, Homs e Damasco.

A negociação avançou após uma rodada de diálogos na capital do Cazaquistão, Astana, com um cessar-fogo anunciado em dezembro.

“Astana produziu, na minha modesta opinião, um passo promissor”, disse Staffan de Mistura durante um informe ao Conselho de Segurança em Nova York por teleconferência, a partir de Genebra. Uma reunião na capital do Cazaquistão, liderada pela Rússia, Turquia e Irã, chegou a acordo sobre um cessar-fogo entre as partes em guerra na Síria no final de dezembro de 2016.

Cinco meses depois, um acordo foi concluído para criar “zonas de redução da escalada [militar]” na Síria para evitar incidentes e confrontações militares entre as partes em conflito. Espera-se que essas zonas também proporcionem maior acesso humanitário às 6,3 milhões de pessoas que ainda vivem no país hoje.