Na Síria, chefe de agência da ONU pede proteção reforçada para refugiados da Palestina

Situação humanitária piorou em abril, com aumento de bombardeios após um breve cessar-fogo. Acesso humanitário continua limitado para ONU e parceiros, que alertam para crimes em andamento. “Incidentes demonstram o fato inegável de que este conflito tem repetidamente colocado seu maior peso nos civis”, disse o brasileiro Paulo Sérgio Pinheiro, que preside a Comissão Internacional Independente de Investigação sobre a Síria.

Comissário-geral da Agência das Nações Unidas de Assistência aos Refugiados da Palestina (UNRWA), Pierre Krähenbühl, se encontra com refugiados palestinos da Síria. Foto: UNRWA/Taghrid Mohammad

Comissário-geral da Agência das Nações Unidas de Assistência aos Refugiados da Palestina (UNRWA), Pierre Krähenbühl, se encontra com refugiados palestinos da Síria. Foto: UNRWA/Taghrid Mohammad

Após passar dois dias em visita e se encontrar com refugiados, o chefe da agência de assistência das Nações Unidas encarregada do bem-estar dos refugiados palestinos no Oriente Médio pediu que a proteção às ações humanitárias seja reforçada.

A viagem de campo para Yalda permitiu que o comissário-geral da Agência das Nações Unidas de Assistência aos Refugiados da Palestina (UNRWA), Pierre Krähenbühl, se reunisse com refugiados palestinos de Yarmouk durante as distribuições de alimentos e materiais de higiene, bem como consultas médicas realizadas pela agência da ONU.

Muitos dos homens, mulheres e crianças presentes na distribuição vivem no acampamento de Yarmouk e falaram da extrema dificuldade em curso e das muitas consequências da violência armada a que estão expostos.

“Pelos olhos de Rana e Isra, eu vi o trauma indescritível pelo qual passaram, mas também a sua determinação de triunfar”, disse Krähenbühl depois de se encontrar com duas jovens que foram gravemente feridas por explosões de carros-bomba em fevereiro.

Durante sua visita a Damasco, o comissário-geral se reuniu com diversas autoridades locais. Apesar da piora da situação em relação a março, o chefe do UNRWA observou melhorias no acesso humanitário a certas comunidades de refugiados palestinos. Ele pediu que sejam tomadas medidas para reforçar sua proteção, instando também por acesso humanitário da UNRWA para alcançar os mais necessitados.

Após o fim do cessar-fogo, os bombardeios recomeçaram, agravando a situação de segurança. “Março tinha sido um mês bom, com poucas pessoas deslocadas e poucos trabalhadores humanitários atacados e bombardeados. Abril, no entanto, foi terrível”, afirmou Jan Egeland, assessor especial da ONU para o enviado da ONU para a Síria.

Comboios humanitários têm permissões para alcançar menos de metade das 905 mil pessoas que a ONU e parceiros esperavam apoiar este mês. Não há permissão para ir a todas as localidades de Alepo, onde as pessoas estão em grande necessidade.

Menina deslocada pelo conflito em curso na Síria, perto de um abrigo na cidade de Alepo. Foto: UNICEF

Menina deslocada pelo conflito em curso na Síria, perto de um abrigo na cidade de Alepo. Foto: UNICEF

Marianne Gasser, chefe do Comitê Internacional do Crescente Vermelho, declarou que deve haver condições mínimas para a ação humanitária independente na Síria. “Hoje não estão reunidas essas condições. Pedimos às partes responsáveis que nos permitam esse acesso imediatamente.”

No dia 12 de maio, um comboio humanitário teve acesso negado à cidade de Daraya. O comboio forneceria suprimentos médicos essenciais para uma unidade de saúde, distribuiria itens de nutrição e materiais de higiene para as crianças e levaria uma campanha de vacinação para os menores de 12 anos. Esta teria sido a primeira prestação de ajuda conjunta para a cidade, que tem estado sob cerco desde novembro de 2012.

“As comunidades em Daraya estão necessitadas de tudo. É trágico que até mesmo o básico que estávamos trazendo hoje está sendo adiado desnecessariamente. Temos de ser capazes de prestar ajuda imparcial e com segurança”, disse Gasser.

Conflito afeta sobretudo civis, denuncia Comissão da ONU

Na semana passada, uma comissão independente sobre a Síria condenou veementemente os ataques a civis. “Estes incidentes demonstram o fato inegável de que este conflito tem repetidamente colocado seu maior peso nos civis”, disse o brasileiro Paulo Sérgio Pinheiro, que preside a Comissão Internacional Independente de Investigação sobre a Síria.

A Comissão condenou “nos termos mais fortes” os recentes ataques contra civis e contra a infraestrutura civil, como hospitais e clínicas na cidade de Alepo, e em um acampamento para pessoas deslocadas internamente em Idlib.

“Bombardeios aéreos, terrestres e disparos de foguetes têm sido consistentemente utilizados em ataques deliberados, indiscriminados e desproporcionais em áreas onde civis sírios vivem e onde eles lutam para sobreviver”, disse a Comissão.

Destruição no bairro de Salah Ed Din, em Alepo, na Síria. Foto: OCHA/Josephine Guerrero

Destruição no bairro de Salah Ed Din, em Alepo, na Síria. Foto: OCHA/Josephine Guerrero

Além disso, a Comissão enfatizou que desde 27 de abril tem havido mais ataques contra instalações médicas, locais protegidos pelo direito internacional humanitário. Dezenas de civis e pessoal médico foram feridos ou mortos nestes ataques. Um outro ataque em 5 de maio no campo de Kamounah, que abriga deslocados internos, vitimou dezenas de civis.

Nas últimas semanas, mercados, padarias e uma estação de água também foram bombardeados. Com uma rota de um fornecimento ainda operacional nas áreas controladas pela oposição na cidade de Alepo, a destruição de alimentos, água e suprimentos médicos levanta sérias preocupações para os moradores.

A Comissão Internacional Independente de Investigação sobre a Síria, estabelecida pelo Conselho de Direitos Humanos em agosto de 2011 para investigar e registrar todas as violações do direito internacional, dos direitos humanos e acusações de crimes contra a humanidade e crimes de guerra, vai apresentar uma atualização ao Conselho de Direitos Humanos, em Genebra, sobre a crise durante um encontro em junho.