Na ONU, Dilma diz que Acordo de Paris é apenas o começo do combate ao aquecimento global

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Presidente declarou que países em desenvolvimento como o Brasil têm apresentado resultados expressivos na redução de emissões, e se comprometeram com metas ambiciosas, tornando imprescindível o aumento progressivo do nível de ambição dos países desenvolvidos.


(Foto: ONU/Mark Garten; clique para assistir ao vídeo)

A presidente Dilma Rousseff defendeu a contribuição brasileira para o Acordo de Paris sobre o clima, em sessão de coleta de assinaturas nesta sexta-feira (22) na Assembleia Geral da ONU, em Nova York, completando que os próximos passos serão mais desafiadores: transformar as ambiciosas aspirações do acordo em resultados concretos.

“Tenho orgulho do trabalho desenvolvido por meu país e meu governo para que, coletivamente, chegássemos a esse acordo”, disse a presidente.  “Países em desenvolvimento como o Brasil têm apresentado resultados expressivos na redução de emissões, e se comprometeram com metas ambiciosas”, completou.

De acordo com a presidente, o desafio de enfrentar a mudança do clima torna imprescindível o aumento progressivo do nível de ambição dos países desenvolvidos. “Ao reiterar compromisso do Brasil com os objetivos do Acordo de Paris, quero assegurar que estamos cientes de que firmá-lo é apenas o começo”, disse.

“É fundamental ampliar o financiamento do combate à mudança do clima para além do compromisso de 100 bilhões de dólares anuais”, declarou. ”Realizar os compromissos que assumimos exigirá a ação convergente de todos nós, de todos os nossos países e sociedades.”

“O caminho que teremos de percorrer agora será ainda mais desafiador: transformar nossas ambiciosas aspirações em resultados concretos”, completou Dilma. “Sua conclusão exitosa, em dezembro de 2015, representou um marco histórico na construção do mundo que queremos.”

Dilma também defendeu o cumprimento das metas estabelecidas na Agenda 2030, e completou ser necessário que o setor privado desenvolva um esforço robusto de redução de emissões em todos os países.

Sobre o Brasil, Dilma lembrou ter anunciado durante a cúpula da Agenda 2030 a contribuição brasileira de 37% de redução dos gases de efeito estufa até 2025, além da meta de redução de 43% até 2030 – tomando 2005 como ano-base, em ambos os casos.

“Alcançaremos o desmatamento zero na Amazônia e vamos neutralizar as emissões originárias da supressão legal de vegetação”, disse, completando que o desafio brasileiro é restaurar e reflorestar 12 milhões de hectares de florestas e outros 15 milhões de hectares de pastagens degradadas. “Promoveremos também a integração de cinco milhões de hectares de lavoura-pecuária-florestas.”

Foto: ONU

Foto: ONU

Dilma ressaltou que todas as fontes renováveis de energia terão sua participação na matriz energética brasileira ampliada até alcançar 45%, em 2030.

“Meu governo traçou metas ambiciosas e ousadas porque sabe que os riscos associados aos efeitos negativos recaem fortemente sobre as populações vulneráveis de nosso país”, disse. “Sem a redução da pobreza e da desigualdade, não será possível vencer o combate à mudança do clima.”

Sobre a crise política brasileira, Dilma declarou ser grata a todos os líderes internacionais que expressaram sua solidariedade à presidente, que enfrenta um processo de impeachment.

Ela disse ainda que o povo brasileiro tem grande apreço pela liberdade. “Saberá, não tenho dúvidas, impedir qualquer retrocesso”, declarou. “Digo que o Brasil é um grande país, com uma sociedade que soube vencer o autoritarismo e construir uma pujante democracia”, afirmou.

‘Era do consumo sem consequências acabou’

Durante a abertura da sessão de coleta de assinaturas para o Acordo de Paris, o secretário-geral da ONU, Ban Ki-moon, disse que a “era do consumo sem consequências acabou”.

“Precisamos intensificar esforços para descarbonizar nossas economias. E precisamos apoiar os países em desenvolvimento nessa transição”, declarou. “Os povos mais vulneráveis não podem sofrer mais com um problema que eles não criaram”, disse.

Mais de 170 países confirmaram que assinarão o histórico acordo do clima fechado em dezembro do ano passado em Paris. Foto: ONU/Rick Bajornas

Mais de 170 países confirmaram que assinarão o histórico acordo do clima fechado em dezembro do ano passado em Paris. Foto: ONU/Rick Bajornas

Ban lembrou que os últimos anos vêm registrado recorde de temperaturas, de derretimento das geleiras e de níveis de carbono na atmosfera. “Estamos correndo contra o tempo.”

“Peço a todos os países que se movam rapidamente a se unir ao acordo no nível nacional para que o Acordo de Paris possa entrar em vigor o mais cedo possível”, disse.

O acordo tem como meta manter a elevação da temperatura global abaixo de 2 graus Celsius neste século. Mais de 170 países confirmaram que assinarão o histórico acordo do clima fechado em dezembro do ano passado em Paris.

Além disso, 13 países – a maioria pequenos Estados insulares em desenvolvimento – devem depositar seus instrumentos de ratificação imediatamente após a assinatura do acordo nesta sexta-feira.

A cerimônia de assinatura será o primeiro passo para garantir que o acordo entre em vigor o mais rápido possível. O documento vigorará 30 dias depois que ao menos 55 países, respondendo por 55% das emissões globais de gases de efeito estufa, depositarem seus instrumentos de ratificação ou aceitação com o secretário-geral.

Leonardo DiCaprio: ‘Chega de conversa, chega de desculpas’

Foto: ONU/Eskinder Debebe

Foto: ONU/Eskinder Debebe

Após a fala dos líderes mundiais, o renomado ator e mensageiro da Paz das Nações Unidas, Leonardo DiCaprio, se dirigiu à Assembleia Geral e pediu aos países que ajam de forma urgente contra as mudanças climáticas.

“É hora de declarar: chega de conversa, chega de desculpas, chega de estudos de dez anos e chega de permitir que as empresas de combustíveis fósseis manipulem e ditem a ciência e as políticas que afetam nosso futuro. Este (as Nações Unidas) é o organismo que pode fazer o que é necessário”, alertou DiCaprio.

O mensageiro da Paz destacou que o Acordo de Paris é “um motivo de esperança” para a comunidade internacional, mas alertou: “Nosso planeta não pode ser salvo, a não ser que deixemos os combustíveis fósseis (enterrados) no solo, aonde eles pertencem”.

DiCaprio ressaltou que as medidas tomadas agora por governos e chefes de Estado são “a última e melhor esperança da Terra” para preservar o futuro das próximas gerações. O mensageiro da Paz apelou aos líderes mundiais que se empenhem para “ir além das promessas feitas” no âmbito do Acordo, agindo de maneira ousada e inédita para conter o aquecimento global.

O ator norte-americano falou sobre as diversas viagens que fez ao longo dos últimos dois anos enquanto mensageiro da Paz da ONU – ocasiões em que pôde documentar como as mudanças climáticas já são uma realidade e como a degradação ambiental continua sem cessar.

DiCaprio testemunhou a devastação de secas na Califórnia, de enchentes na Índia, picos de poluição na China, desmatamento e incêndios florestais no Canadá e na Indonésia, além de observar, em primeira mão, o derretimento acelerado das geleiras no Ártico e na Groenlândia.

Segundo o mensageiro da Paz, as mudanças climáticas – desafio “definidor do nosso tempo” – estão transformando o equilíbrio natural do planeta e líderes mundiais serão cobrados por suas respostas a essa crise.

Número recorde de assinaturas

Em coletiva de imprensa realizada em seguida, Ban Ki-moon disse que um total de 175 países assinaram o acordo, o maior número a firmar um tratado internacional em apenas um dia.

“Estou tocado em ver tanto apoio e impulso político para impulsionar o Acordo de Paris”, disse à imprensa. “O bem-estar de nosso futuro comum e de nossa casa depende da implementação deste Acordo”, completou.

O presidente da França, François Hollande, chamou atenção para a necessidade urgente de implementar medidas nos níveis nacional, regional e global que garantam a precificação do carbono e a transição para a economia verdade.

Até 2020, o Estado francês planeja expandir para 5 bilhões por ano o financiamento de suas ações contra mudanças climáticas.

Da esquerda para a direita, a presidente da Conferência das Partes da UNFCCC, Ségolène Royal, o presidente da França, François Hollande, e o secretário-geral da ONU, Ban Ki-moon. Foto: ONU / La France à l’ONU

Da esquerda para a direita, a presidente da Conferência das Partes da UNFCCC, Ségolène Royal, o presidente da França, François Hollande, e o secretário-geral da ONU, Ban Ki-moon. Foto: ONU / La France à l’ONU

Segundo Hollande, cabe aos países mais riscos, principalmente os europeus, disponibilizar mais verba para o combate ao aquecimento global. Para o francês, é fundamental que as nações da Europa também ajudem os países mais pobres de outras partes do mundo, liberando recursos.

O governante destacou que o Estado francês tem empreendido esforços para agir “de forma exemplar” no cumprimento do acordo climático. Hollande informou que já definiu um calendário rigoroso com o objetivo de ratificar o mais rápido possível o documento no Legislativo da França.

A expectativa do presidente é de que o Acordo seja aprovado pelo Parlamento antes do verão. Iniciativas domésticas voltadas para a precificação do carbono em nível nacional também estão sendo buscadas por seu governo.

Também presente na coletiva, a presidente da Conferência das Partes da Convenção Quadro das Nações Unidas sobre Mudança do Clima (UNFCCC), Ségolène Royal, informou que a Comissão Europeia deve dar início ainda este ano a negociações que vão compartilhar entre os países-membros responsabilidades e deveres vinculados ao Acordo de Paris. Princípios para a precificação do carbono no âmbito regional devem ser discutidos pelo organismo europeu.

Como funciona o Acordo de Paris?


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