Na ONU, Brasil pede um minuto de silêncio por Marielle Franco

Tributo foi liderado pela secretária especial de Política para as Mulheres em encontro paralelo à 62ª sessão da Comissão sobre o Estatuto da Mulher. A ativista e vereadora Marielle Franco foi assassinada na quarta-feira (14) em ataque que matou também seu motorista, Anderson Pedro Gomes.

Sessão Solene na Câmara dos Deputados, Brasília, em Homenagem à memória de Marielle Franco na quinta-feira (15). Foto: Mídia Ninja

Sessão Solene na Câmara dos Deputados, Brasília, em Homenagem à memória de Marielle Franco na quinta-feira (15). Foto: Mídia Ninja

Participantes de um encontro sobre os direitos da mulher, ocorrido na sede global das Nações Unidas na quinta-feira (15), fizeram um minuto de silêncio em respeito à vereadora Marielle Franco, assassinada um dia antes, no Rio de Janeiro.

O tributo foi solicitado pela secretária especial do Brasil de Política para as Mulheres, Fátima Pelaes, numa reunião à margem da sessão anual da Comissão sobre o Estatuto da Mulher, em Nova Iorque.

“Ela estava exercendo o seu papel. Portanto, nós mulheres estamos aqui registrando a nossa indignação. E esperamos que venha ser esclarecida. Que seja punido. E que nós possamos através do exemplo desta mulher que morreu no campo de batalha, que nós possamos alertar para que as mulheres possam continuar travando uma luta para vivermos sem violência. Portanto, eu queria pedir a todos e a todas que nós possamos levantar e fazer um minuto de silêncio em respeito à vida de Marielle”, destacou a secretária brasileira.

O assassinato da vereadora Marielle Franco, do Partido Socialismo e Liberdade (PSOL) do Rio de Janeiro, foi condenado pelo Sistema das Nações Unidas no Brasil, pelo Escritório de Direitos Humanos, e agências da organização, incluindo a ONU Mulheres.

No exercício do seu primeiro mandato, a vereadora presidia a Comissão de Defesa da Mulher da Câmara Municipal do Rio de Janeiro. Seu último compromisso foi um debate com jovens negras como parte da programação de ativismo em torno do Dia Internacional pela Eliminação da Discriminação Racial, data instituída pelas Nações Unidas.

Realizar os direitos humanos das mulheres é um dos propósitos da ONU Mulheres em resposta à Agenda 2030 de Desenvolvimento Sustentável, com ação especial em 2018, quando a Declaração Universal de Direitos Humanos completa 70 anos.

Em sua conta em uma rede social, a chefe da ONU Mulheres, Phumzile Mlambo-Ngcuka, afirmou que o assassinato de Marielle Franco deve unir todos na luta contra ataques violentos a defensores de direitos humanos.

Nas redes sociais, a diretora regional da ONU Mulheres para Américas e Caribe, Luiza Carvalho, manifestou pesar e assinalou o legado da vereadora Marielle Franco. “O tempo de Marielle não acabou, sua vida fortalece para sempre a nossa luta”, declarou.

A deputada Rosângela Gomes (PRB-RJ) também se pronunciou, representando as parlamentares da Comissão de Países de Língua Portuguesa (CPLP). As duas manifestações ocorreram em evento organizado pelo governo brasileiro sobre empoderamento econômico das mulheres rurais.

Pela sociedade civil, Valdecir Nascimento, secretária-executiva da Articulação de ONGs de Mulheres Negras Brasileiras (AMNB) e integrante do Comitê Mulheres Negras Rumo a um Planeta 50-50 em 2030, manifestou “a indignação de todas as mulheres negras brasileiras que vêm resistindo. Nós queremos ter direito a falar, direito de participar e queremos construir uma outra democracia”. Valdecir lembrou a violência no campo contra as quilombolas. “É preciso que a gente possa ir fundo, não podemos tapar os olhos para o que está acontecendo no Brasil.”

O Sistema ONU no Brasil divulgou uma nota na manhã seguinte ao assassinato destacando que era “uma das principais vozes em defesa dos direitos humanos na cidade” e que “desenvolvia plataforma política relacionada ao enfrentamento do racismo e das desigualdades de gênero e pela eliminação da violência, sobretudo nas periferias e favelas do Rio”.

A ONU diz ter “expectativa de rigor na investigação do caso e breve elucidação dos fatos pelas autoridades, aguardando a responsabilização da autoria do crime”.

O Alto Comissariado das Nações Unidas para os Direitos Humanos, órgão sediado em Genebra, também condenou o assassinato, que classificou como “profundamente chocante”, lembrando que Marielle foi “uma reconhecida defensora dos direitos humanos que atuava contra a violência policial e pelos direitos das mulheres e das pessoas afrodescendentes, principalmente nas áreas pobres”.

“Entendemos que as autoridades se comprometeram a realizar uma completa investigação dos assassinatos ocorridos no Rio de Janeiro na quarta-feira à noite. Apelamos para que essa investigação seja feita o quanto antes, e que ela seja minuciosa, transparente e independente para que possa ser vista com credibilidade. Os maiores esforços devem ser feitos para identificar os responsáveis e levá-los perante os tribunais”, afirmou o porta-voz do organismo internacional especializado em direitos humanos.

A campanha das Nações Unidas no Brasil “Vidas Negras”, que busca ampliar a visibilidade do problema da violência contra a juventude negra no país, expressou por meio das redes sociais “solidariedade aos familiares e amigos da vereadora Marielle Franco”, se somando a “todos e todas que esperam uma investigação rigorosa e ágil”.

“Na Câmara Municipal do Rio de Janeiro, Marielle teve atuação marcada pela defesa da igualdade racial e voz ativa exigindo o fim da violência contra a juventude negra. Sua memória agora nos inspira a continuar buscando sem cessar caminhos para valorizar cada vez mais as vidas da juventude negra brasileira”, acrescentou o texto da mensagem.

Comissão sobre a Situação das Mulheres

A ONU Mulheres atua como secretariado da Comissão sobre a Situação das Mulheres (CSW), que se reúne, no mês de março, em Nova Iorque, há mais de 60 anos. Participam dos encontros anuais, as autoridades dos mecanismos das mulheres, sociedade civil e especialistas.

Na CSW 62, o tema central é “Empoderar Mulheres e Meninas Rurais” e também está discutindo como tema emergente “Mulheres e Mídia”, para verificar os progressos sobre os direitos das mulheres nessas áreas.

São discutidos os avanços e as lacunas na implementação da Declaração e da Plataforma de Ação de Pequim, de 1995, o principal documento de política global sobre igualdade de gênero, e a 23ª sessão extraordinária da Assembleia Geral realizada em 2000 (Pequim+5), bem como questões emergentes que afetam a igualdade de gênero e o empoderamento das mulheres.

Na CSW, os Estados-membros acordam sobre novas ações para acelerar o progresso e promover os direitos das mulheres nos campos político, econômico e social. Os resultados e as recomendações de cada sessão são encaminhados ao ECOSOC, o Conselho Econômico e Social das Nações Unidas, para acompanhamento.

(Com ONU News em Nova Iorque e ONU Mulheres Brasil. Vídeo: cortesia da Missão do Brasil junto às Nações Unidas)