Mundo tem recorde de quase 80 milhões de deslocados internos e refugiados

O deslocamento global atingiu impressionantes 79,5 milhões de pessoas no ano passado – quase o dobro do número registrado há uma década – devido a guerra, violência, perseguição e outras emergências, informou nesta quinta-feira (18) a Agência da ONU para Refugiados (ACNUR).

Falando a jornalistas em Genebra, o chefe do ACNUR observou que, embora a questão do deslocamento afete todas as nações, os dados mostram que os países mais pobres hospedam 85% dos que foram expulsos de suas casas.

Uma mãe cuida de seu bebê dentro de um ginásio que foi transformado em assentamento de refugiados em Boa Vista (RR). Foto: ACNUR/Vincent Tremeau

Uma mãe cuida de seu bebê dentro de um ginásio que foi transformado em assentamento de refugiados em Boa Vista (RR). Foto: ACNUR/Vincent Tremeau

O deslocamento global atingiu impressionantes 79,5 milhões de pessoas no ano passado – quase o dobro do número registrado há uma década – devido a guerra, violência, perseguição e outras emergências, informou nesta quinta-feira (18) a Agência da ONU para Refugiados (ACNUR).

Destacando que esse número agora representa uma em cada 97 pessoas no planeta, o mais novo relatório Tendências Globais do ACNUR mostra que 8,7 milhões de pessoas foram deslocadas em 2019, com os países em desenvolvimento sendo os mais atingidos.

“Esse número de quase 80 milhões – o mais alto que o ACNUR registrou desde que essas estatísticas foram sistematicamente coletadas – é obviamente um motivo de grande preocupação”, disse Filippo Grandi, alto-comissário do ACNUR, em comentários para o Dia Mundial dos Refugiados, 20 de junho.

“Isso é aproximadamente 1% da população mundial, nunca tínhamos alcançado essa porcentagem tão significativa.”

Falando a jornalistas em Genebra, o chefe do ACNUR observou que, embora a questão do deslocamento afete todas as nações, os dados mostram que os países mais pobres hospedam 85% dos que foram expulsos de suas casas.

“Esta continua sendo uma questão global, uma questão para todos os Estados, mas que desafia mais diretamente os países mais pobres – e não os mais ricos – apesar da retórica”, afirmou.

Numerosas emergências antigas e novas estão por trás dos enormes fluxos de pessoas, do Afeganistão à República Centro-Africana e Mianmar, passando por República Democrática do Congo (RDC), Burkina Faso – e o Sahel mais amplo – e a contínua crise na Síria, depois de quase uma década de guerra civil.

Perto de casa

O documento mostrou que 73% das 79,5 milhões de pessoas em movimento buscaram abrigo em um país vizinho, disse Grandi, o que desmente a teoria frequentemente disseminada de a maioria dos migrantes e refugiados teria como destino países mais ricos longe de casa.

Quase sete em cada dez deslocados vieram de Síria, Venezuela, Afeganistão, Sudão do Sul e Mianmar, disse o alto-comissário.

“Se as crises nesses países fossem resolvidas, 68% do deslocamento forçado global estaria a caminho de ser solucionado”, disse ele.

Impacto da pandemia de COVID-19

Questionado sobre o impacto da COVID-19 nos movimentos populacionais de massa, Grandi disse que “sem dúvida” esta levaria mais pessoas a crises.

“Estou muito preocupado e já dissemos isso a muitos governos diferentes que nos fizeram a pergunta”, disse ele.

“A crise dos meios de subsistência, o aumento da pobreza dessas populações, na minha opinião – juntamente com a falta de soluções para uma situação de conflito e em situações como o Sahel, com uma deterioração da segurança – não há dúvida de que aumentará os movimentos da população na região, mas também além, em direção à Europa.”

Desde o início da crise mundial da saúde, a agência também registrou um aumento no número de rohingyas que se deslocam de Bangladesh e Mianmar para a Malásia e outros Estados do Sudeste Asiático.

“Na minha opinião, mais do que à COVID-19, isso está ligado à situação de estagnação da questão dos rohingya”, disse Grandi. “Nenhuma solução, grande pobreza e falta de oportunidades nos campos de Bangladesh, agora talvez também associadas a bloqueios que a COVID-19 tornou necessários, o que aumentou as dificuldades.”

Movimento de venezuelanos

Pela primeira vez, os 3,5 milhões de deslocados da Venezuela aparecem no relatório do ACNUR, respondendo em parte pelo aumento significativo em comparação com os dados de 2018-2019.

Considerando as pessoas forçadas a se movimentar várias vezes como um valor líquido, o número total de deslocamentos de 2019 não é de 8,7 milhões, mas de 11 milhões.

Isso abrange 2,4 milhões de pessoas que buscaram proteção fora de seu país e 8,6 milhões que foram deslocadas recentemente dentro das fronteiras de seus países, segundo a agência.

Muitas populações deslocadas não conseguiram encontrar soluções duradouras para reconstruir suas vidas no ano passado, com apenas 317.200 refugiados capazes de retornar ao seu país de origem e apenas 107.800 reassentados em países terceiros, disse o ACNUR.

Em termos de idade das pessoas afetadas, a agência da ONU estima que cerca de 30 milhões a 34 milhões dos 79,5 milhões de deslocados à força do mundo são crianças.

Das quase 80 milhões de pessoas citadas no relatório, 26 milhões são refugiadas; 20,4 milhões estão sob o mandato do ACNUR e 5,6 milhões são refugiados palestinos registrados na Agência das Nações Unidas para os Refugiados da Palestina no Oriente Próximo (UNRWA).

Clique aqui para acessar o relatório completo (em inglês).

Refugiados reconstroem suas vidas e melhoram a vida das pessoas em volta

Em mensagem para o Dia Mundial dos Refugiados (20), o secretário-geral das Nações Unidas, António Guterres, disse que a organização está comprometida a fazer tudo o que estiver ao seu alcance para acabar com o conflito e a perseguição que causam estes números assustadores.

“Hoje, também reconhecemos a generosidade e a humanidade das comunidades e dos países anfitriões que, frequentemente, têm que lidar com as suas próprias preocupações econômicas e de segurança. Devemos a estes países o nosso agradecimento, o nosso apoio e o nosso investimento”, disse Guterres.

Ele pediu que a comunidade internacional trabalhe para restabelecer a integridade do sistema internacional de proteção a refugiados e implementar as promessas feitas no Fórum Global para os Refugiados, para que refugiados e comunidades anfitriãs recebam o apoio de que precisam.

Nesse ano, a pandemia da COVID-19 representa uma ameaça adicional aos refugiados e deslocados, que estão entre os mais vulneráveis. No início do mês, a ONU lançou um relatório de políticas públicas em que trata das pessoas em movimento no contexto da pandemia, pedindo aos governos garantias que permitam a sua inclusão em todos os esforços de resposta e de recuperação.

António Guterres lembrou ainda que os refugiados e as pessoas deslocadas também se destacam entre os que querem fazer a diferença nas linhas da frente da resposta.

“De acampamentos no Bangladesh a hospitais na Europa, os refugiados estão trabalhando como enfermeiros, médicos, cientistas, professores e noutras funções essenciais, protegendo-se e retribuindo às comunidades que os acolhem.”

O secretário-geral agradeceu aos refugiados pela sua iniciativa e determinação em reconstruir as suas próprias vidas e melhorar a vida das pessoas à sua volta. “Hoje e todos os dias, vamos nos manter unidos e solidários com os refugiados e reconhecer a nossa obrigação fundamental de proteger os que fogem da guerra e da perseguição”, disse.