Mulheres rurais de MG organizam-se para ter mais voz nas decisões de cooperativa

Um grupo de 30 mulheres de Poço Fundo (MG) reuniu-se em torno de uma causa e de um produto, o café. O grupo Mulheres Organizadas Buscando Independência (MOBI) surgiu a partir da Cooperativa dos Agricultores Familiares de Poço Fundo e Região (COOPFAM), frente à necessidade de maior participação das mulheres nas decisões da cooperativa.

O objetivo foi ampliar a inserção e a visibilidade das mulheres rurais na produção. Além disso, o grupo foi criado para ajudar na renda das famílias, já que nele as mulheres desenvolvem outras atividades como confecção de artesanatos com subprodutos do café. O relato é da Organização das Nações Unidas para a Alimentação e a Agricultura (FAO).

O grupo Mulheres Organizadas Buscando Independência (MOBI) surgiu a partir da Cooperativa dos Agricultores Familiares de Poço Fundo e Região (COOPFAM), frente à necessidade de maior participação das mulheres nas decisões da cooperativa de produtores de café. Foto: MOBI

O grupo Mulheres Organizadas Buscando Independência (MOBI) surgiu a partir da Cooperativa dos Agricultores Familiares de Poço Fundo e Região (COOPFAM), frente à necessidade de maior participação das mulheres nas decisões da cooperativa de produtores de café. Foto: MOBI

Enxada nas mãos durante o dia — roçar, arar, plantar. Entre um cuidado e outro com a terra, uma segunda jornada em casa. O trabalho da mulher do campo ainda não é tão valorizado quanto o do homem, mas essa realidade está mudando gradativamente no Brasil. As mulheres rurais estão se organizando em cooperativas, associações e fazendo alianças para se qualificar e aumentar as redes comerciais.

Pensando nisso, um grupo de 30 mulheres de Poço Fundo (MG) reuniu-se em torno de uma causa e de um produto, o café. O grupo Mulheres Organizadas Buscando Independência (MOBI) surgiu a partir da Cooperativa dos Agricultores Familiares de Poço Fundo e Região (COOPFAM), frente à necessidade de maior participação das mulheres nas decisões da cooperativa. Elas se reúnem na primeira sexta-feira de cada mês para decidir sobre diretrizes.

O objetivo foi ampliar a inserção e a visibilidade das mulheres rurais na produção. Além disso, o grupo foi criado para ajudar na renda das famílias, já que nele as mulheres desenvolvem outras atividades como confecção de artesanatos com subprodutos do café.

Atualmente, a cooperativa trabalha para desenvolver e melhorar a produção, o produto e a vida das pessoas, criando consciência e mudando mentalidades e atitudes. Também gera força de transformação que começa em cada uma das pioneiras e em suas cooperadas, promovendo destaque em toda a cadeia de consumo até o cliente final.

Segundo Edivania Fernandes, de 26 anos, responsável pela área comercial de torrefação do café, a satisfação vem de estarem organizadas, contribuindo com os rumos da cooperativa e de suas propriedades.

“Há poucos dias as mulheres fizeram um mutirão para colher o café da Regina Mendes Nogueira. Por meio dessas atividades, as cooperadas têm a oportunidade de trocar experiências e buscar novos conhecimentos”, disse.

“Nossas mulheres começaram a plantar seu café usando a palha e a borra para criar arte e artesanato e, também, cultivar rosas. Com isso, cresceram e continuam se aprimorando, se desenvolvendo e trabalhando para alcançar muito mais.”

Ela afirma que somente neste ano, a COOPFAM participou de duas feiras internacionais e uma nacional. Essas oportunidades servem como uma vitrine para os produtos orgânicos, e tiveram o café como grande trunfo.

“Participar de feiras é uma forma de apresentar nosso produto ao mundo. Mostrar a todos o trabalho transformador que a COOPFAM vem desenvolvendo ao longo dos anos. É uma forma de convidar o consumidor a fazer parte da cadeia do bem, a consumir com responsabilidade produtos da agricultura familiar e que traz benefícios para todos, além de valorizar a mulher do campo que se empodera com o próprio resultado.”

Rosângela Paiva, agricultora familiar e cooperadora do MOBI, conta que desde criança ajudava na lavoura de café. Cresceu ajudando o pai e a mãe e, ainda, catava café para vender e comprar material escolar, entre outras coisas.

“Depois que me casei, aos 18 anos, pude ter minha terra para ter meu talhão de café onde faço a desbota, adubação e colheita e pós-colheita, e também atuo nas decisões quando devo vender e em quem investir, o que é muito bom pra gente, porque trabalhamos alegres e com esperança. Isso ajuda no cuidar e na gestão da propriedade com responsabilidade. A participação da mulher é sempre boa para o desenvolvimento da cafeicultura”, declarou.

As mulheres nessa cooperativa não param. Em novembro, promovem a festa anual do café e organizam o festival de pratos, no qual o café é o ingrediente principal. Além de se desenvolverem, envolvem também toda a comunidade local, com eventos por meio dos quais transmitem seus conhecimentos e experiências.

Sobre a COOPFAM

A cooperativa nasceu da tomada de consciência de alguns produtores sobre a possibilidade de fazer as coisas diferentes e, assim, ter uma vida melhor. Em 2003, a cooperativa começa sua participação em feiras e visitas internacionais, ganhando visibilidade mundo afora e se aproximando de compradores de café “fair trade” e orgânico.

A COOPFAM acredita na agricultura familiar, sustentável, orgânica e solidária e no comércio justo. Suas certificações asseguram o cumprimento de requisitos e normas legais por parte da instituição certificada, que passa a ter um compromisso com a sustentabilidade socioambiental no que concerne à produção no campo, respeita as normas trabalhistas e promove, especialmente, a justiça comercial para a melhoria das condições de vida de seus cooperados.

15 dias pela autonomia das mulheres rurais

Os papéis desempenhados pelas mulheres rurais são tão numerosos quanto suas lutas e vitórias. O que não faltam são histórias de vida inspiradoras. No entanto, elas ainda não tem o reconhecimento merecido.

Elas sofrem com o preconceito e a desigualdade de gênero. Ainda há um longo caminho para o equilíbrio de direitos e oportunidades entre homens e mulheres no campo. A fim de mostrar que a equidade de gênero e o respeito são valores necessários cotidianamente, a ONU decretou 2018 como o Ano da Mulher Rural.

A partir de 1º de outubro, serão publicadas no portal da FAO uma série de reportagens que fazem parte da Campanha Regional pela Plena Autonomia das Mulheres Rurais e Indígenas da América Latina e do Caribe – 2018. Serão 15 dias de ativismo em prol das trabalhadoras rurais que, de acordo com o censo demográfico mais recente, são responsáveis pela renda de 42,2% das famílias do campo no Brasil.

Para acessar todas as matérias da campanha, clique aqui.


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