Mulheres na linhas de frente da COVID-19

O novo coronavírus impacta todas as pessoas, mas a maioria das decisões tomadas são de homens e as vozes são geralmente masculinas. No entanto, a maioria dos e das profissionais de saúde da linha de frente são mulheres. E muitas das indústrias diretamente afetadas pelo afastamento social e bloqueios – como viagens, turismo e produção de alimentos – têm maior concentração de mulheres.

A carga de cuidados para as mulheres, que costuma ser três vezes maior do que a dos homens, aumentou exponencialmente. Conheça a história de mulheres que estão na linha de frente da pandemia.

A ONU Mulheres traz a história de cinco mulheres trabalhadoras essenciais, prestadoras de cuidados e serviços, que estão se expondo todos os dias para servir suas comunidades.

Entela Kolovani, médica, Tirana, Albânia

Entela Kolovani é médica em Tirana, Albânia, e atualmente trabalha com pacientes diagnosticados com COVID-19. Foto: cedida por Entela KolovaniFoto: cedida por Entela Kolovani

A médica Entela Kolovani considera as enfermeiras como “verdadeiras heroínas”. Entela atende pacientes com COVID-19 no hospital de doenças infecciosas de Tirana, Albânia. “As enfermeiras realizam as tarefas mais difíceis e a maior parte da carga de trabalho. Elas são nosso maior suporte, trabalhando em turnos sem fim com equipamentos de proteção especiais. O trabalho delas nunca termina, desde a montagem dos leitos dos e das pacientes até a realização de terapias, a realização de exames e o preenchimento de documentos. Sou muito grata a elas”, conta Entela.

Entela e suas colegas estão na linha de frente da resposta à COVID-19 desde 9 de março, quando os primeiros casos foram identificados na Albânia. Desde então, o número de pessoas infectadas aumentou para mais de 361.

Como prestadoras de cuidados e trabalhadores essenciais, as mulheres correm um risco maior de serem infectadas. Até agora, quase 12% dos casos relatados de coronavírus na Albânia eram profissionais de saúde. “Um dos nossos maiores desafios é ver colegas com quem trabalhamos todos os dias adoecendo com a COVID-19. Outro desafio é encontrar meios de conseguir que mais pacientes se recuperem rapidamente, a fim de não sobrecarregarmos nossos serviços de saúde”, explica.

Toda a equipe médica do hospital trabalha mais horas, incluindo o marido da Entela, que também é médico. A pandemia do coronavírus colocou pressão sem precedentes nas famílias, especialmente quando os parceiros trabalham na área da saúde ou em outros serviços essenciais. A Entela e seu marido não veem seus filhos desde que a pandemia atingiu o país. “Como trabalhamos no mesmo hospital e fazemos o mesmo trabalho, o risco de infectarmos nossos filhos e outros membros da família é muito alto. Mas é melhor assim, manter a distância para evitar de infectar sua família”.

Natawan Pintho, oficial de Imigração no Aeroporto Suvarnabhumi, Bangcoc, Tailândia

 Foto: Plutão Phutpheng/ONU Mulheres

Tudo mudou para Natawan Pintho, 29 anos, oficial de imigração no aeroporto internacional de Bangkok, Tailândia. Desde a sua rotina diária no trabalho ou em casa, ao risco que ela sente todos os dias. Ela conta que o movimento no aeroporto diminuiu, mas que precisou aprender como higienizar o espaço de trabalho e as mãos. “Temos que ter mais cuidado com as pessoas,  usar máscaras e manter a distância social”, conta Natawan.

Antes do surto da COVID-19, Natawan lidava com pelo menos mil passageiros e passageiras todos os dias. Agora, são no máximo 100, o que reduz sua exposição às pessoas, mas a execução de algumas das tarefas simples ainda é arriscada, como verificar as páginas de um passaporte. “Preciso ter certeza de que o passaporte é verdadeiro e, para fazer isso, preciso tocar o papel com os dedos”, explica.

Negar a entrada de pessoas na Tailândia, seguindo as novas regras de imigração, tem sido uma provação desafiadora para Natawan. “Tive o caso de uma família de quatro pessoas da França. Elas eram descendentes de chineses. Três delas tinham passaporte francês, mas a mulher tinha passaporte chinês. Ela não pôde entrar no país e tivemos que deportá-la”.

Natawan se pergunta diariamente se já está infectada. “Sou alérgica a poeira e espirro com frequência. Antes, ninguém prestava atenção. Hoje em dia tenho assustado todo mundo”.

A família de Natawan vive em Ubon Ratchathani, a 600km de Bangcoc. Mas ela não pode visitá-los agora. “Se eu voltar para minha cidade natal, terei que ficar em quarentena por 14 dias”.

Natawan sente falta de ir ao salão de beleza e a manicure, mas também tem preocupações de ordem financeira. Em março, o salário de Natawan foi reduzido em 40%. “Preciso economizar, porque o pagamento de horas extras diminuiu e isso significa que receberei menos dinheiro”.

Parinya Sirirattanapanya, entregadora de alimentos, Bangcoc, Tailândia

 Foto: Plutão Phutpheng/ONU Mulheres

A entrega de alimentos está entre os poucos serviços essenciais ainda abertos na maioria dos países durante os bloqueios por coronavírus. Parinya Sirirattanapanya, 44 anos, está entre as cerca de 150 mil pessoas que trabalham como motorista de entrega de comida, a maioria homens, na cidade de Bangcoc. É o serviço obrigatório para a maioria das pessoas na cidade, incluindo a oficial de imigração Natawan Pintho.

Antes do surto da COVID-19, Parinya tinha uma loja de roupas pop-up. Mas ninguém está mais nas ruas fazendo compras, e sua pequena empresa está fechada. Ela diz que há muitas trabalhadoras e trabalhadores que entregam comida agora. “O número de pessoas trabalhando com entrega de alimentos está aumentando rapidamente, também porque o horário de funcionamento do shopping foi reduzido”, conta Parinya.

Ela entende o risco ao qual está exposta todos os dias e toma todas as precauções que pode para não levar o vírus para a sua família. Quando sai, ela usa uma jaqueta, duas máscaras (uma de tecido e outra descartável), luvas, desinfetantes para as mãos e sprays antibactericidas. “Eu sempre mantenho as minhas mãos limpas e longe do meu rosto. Toda vez que eu devolvo o troco para os clientes (se precisar tirar minhas luvas), lavo minhas mãos ou as limpo com álcool gel”, explica Parinya.

Parinya entende os riscos, mas não tem escolha. Ela precisa trabalhar para sustentar sua família.

“Gostaria que a COVID-19 pudesse ser controlada o mais rápido possível. Eu sei que várias medidas são implementadas para reduzir a disseminação do vírus, mas muitas pessoas na sociedade as tomam como garantidas. Assumir a responsabilidade social é essencial nessa situação”, conclui Parinya.

Zevonia Vieira, jornalista, Timor-Leste

Foto: ONU Mulheres

Zevonia Vieira é a presidenta da Associação de Jornalistas do Timor-Leste e está na linha de frente das notícias sobre o surto da COVID-19. “Como jornalista, tenho a obrigação de compartilhar informações com o público a qualquer momento. As pessoas querem informações confiáveis”.

Enquanto países em todo o mundo lutam para limitar a propagação da doença, jornalistas como Zevonia estão se colocando em risco todos os dias para obter informações confiáveis e informar o público sobre as medidas de prevenção.

O Timor-Leste anunciou o estado de emergência no final de março, e o governo emitiu ordens de distanciamento social, garantindo que todas as pessoas que estão trabalhando na linha de frente tenham acesso a equipamentos de proteção. Jornalistas no Timor-Leste pediram que o governo forneça um centro de mídia, com espaço suficiente e infraestrutura adequada para permitir que jornalistas mantenham o distanciamento social enquanto trabalham.

Zevonia é mãe solteira e responsável pela renda de sua família. Durante essa crise, equilibrar seus papéis profissionais e de cuidado tem sido um desafio, como a maioria das mães e pais que trabalham. “Depois de um dia inteiro no trabalho, quando chego em casa, tenho que cuidar com carinho das necessidades da minha família e passar um tempo com meu filho até ele ir para a cama. Então, tarde da noite, continuarei escrevendo”, explica Zevonia.

Zevonia está comprometida com seu trabalho, mas sente-se exausta. Para superar essa crise, Zevonia considera fundamental a colaboração com os governos.

Tassana Boontong, presidenta do Conselho de Enfermagem e Obstetrícia, Tailândia

Foto: Pathumporn Thongking/ONU Mulheres

A Tailândia tem uma longa tradição de combinar enfermagem e obstetrícia. A função combinada foi criada para atender a escassez de profissionais de saúde em atenção primária. Há mais de um século, as enfermeiras obstetras respondem às necessidades de cuidados de saúde de pessoas de todas as idades.

De acordo com Tassana, as enfermeiras obstetras são necessárias agora mais do que nunca: pelo aumento do número de pacientes idosos e com doenças crônicas, pela quantidade de pessoas com doenças não transmissíveis, pelos problemas de saúde mental e deficiências.

Atualmente, entre 10 e 12 mil estudantes se formam todos os anos para se tornarem enfermeiras obstetras na Tailândia, que tem uma população de 69 milhões de pessoas. No entanto, ainda existe uma escassez de enfermeiras obstetras, especialmente em áreas remotas, para atender às necessidades de cuidados de saúde primária.

Tassana se preocupa com os profissionais de saúde que estão na linha de frente da pandemia da COVID-19. “Elas e eles não estão apenas enfrentando a doença letal, mas também o estresse mental, a exaustão e a preocupação com suas famílias. Enfermeiras e enfermeiros escolhem ir ao trabalho, cumprir seu dever, mas não podem ver a família”.

Para Tassana, a política da Tailândia de Cobertura Universal de Saúde é um fator crítico para promover a equidade no acesso a cuidados de saúde de qualidade. “Os enfermeiros e as enfermeiras desempenharam um papel fundamental na implementação da política de assistência universal à saúde”, conta.

“Os enfermeiros e enfermeiras defendem que pacientes obtenham um serviço de qualidade. Desejo ver um sistema de assistência médica reformado que valorize os serviços de enfermagem, invista mais em recursos de enfermagem e reconheça suas contribuições, inclusive por meio de remuneração e salários justos e melhores políticas de assistência social”.