Mulheres indígenas buscam apoio da ONU Brasil para garantir compromissos do Estado brasileiro

Mulheres indígenas reuniram-se com representantes das Nações Unidas em Brasília (DF) na semana passada (14) para pedir apoio da Organização para a garantia do cumprimento dos compromissos do Estado brasileiro assumidos na Declaração sobre os Direitos dos Povos Indígenas, que completará dez anos em setembro.

Fome, miséria, violência, feminicídio, homicídios, desaparecimento e perseguição foram destacados como problemas crônicos que violam os direitos dos povos indígenas, comprometendo o ordenamento jurídico brasileiro e as normativas internacionais.

Delegação de mulheres Guarani-Kaiowás reuniu-se com dirigentes e corpo técnico da ONU Brasil Foto: ONU Mulheres/Isabel Clavelin

Delegação de mulheres Guarani-Kaiowás reuniu-se com dirigentes e corpo técnico da ONU Brasil
Foto: ONU Mulheres/Isabel Clavelin

Mulheres indígenas reuniram-se com representantes das Nações Unidas em Brasília (DF) na semana passada (14) para pedir apoio da Organização para a garantia do cumprimento dos compromissos do Estado brasileiro assumidos na Declaração sobre os Direitos dos Povos Indígenas, que completará dez anos em setembro.

Rezadeira do povo Guarani-Ñandeva, a indígena Leila Lopes relatou na reunião o esgotamento das negociações com o poder público. “A gente não tem mais onde reclamar nem para quem denunciar. Nosso socorro precisa vir de vocês. Precisamos ser vistos como seres humanos. Somos os povos originários do Brasil. Nossa raiz é a terra. Sem a raiz, o galho e a folha também vão cair. É por isso que estamos aqui pedindo socorro”, frisou.

Fome, miséria, violência, feminicídio, homicídios, desaparecimento de corpos e perseguição foram destacados como problemas crônicos que violam os direitos dos povos indígenas, comprometendo o ordenamento jurídico brasileiro e as normativas internacionais. “Eu tenho força nas pernas e na voz para transmitir a dor dos nossos povos. Nós somos ameaçadas e criminalizadas. Queremos que vocês conheçam a nossa tekoha (terra) e conheçam a nossa realidade”, completou Leila.

“Qual o significado da Declaração Universal de Direitos Humanos para vocês?”, indagou Clara Almeida, indígena do povo Guarani-Kaiowá, aos representantes da ONU Brasil. Com uma fala emocionada diante das violências e das perseguições contra os povos indígenas, Clara descreveu o drama dos conflitos territoriais e da discriminação. O grupo esteve na capital federal como parte da mobilização de povos indígenas e quilombolas sobre julgamento referente à demarcação de terras tradicionais pelo Supremo Tribunal Federal (STF).

“Toda a vez que a gente derrama uma lágrima, é de dor. A gente está aqui de novo, a gente está aqui se humilhando e fazendo rolar a lágrima que ainda existe. Quando a gente sai em luta em defesa das nossas terras, a gente leva bala e gás de pimenta. Coloquem-se no nosso lugar. Se vocês não fizerem nada por nós, seremos peças de museu. É isso o que vai acontecer”, frisou Clara em alusão à extinção dos povos indígenas.

Aty Cuña

Flávia Nunes e Clara Almeida são articuladoras dos direitos dos povos Guaranis-Kaiowás Foto: ONU Mulheres/Isabel Clavelin

Flávia Nunes e Clara Almeida são articuladoras dos direitos dos povos Guaranis-Kaiowás Foto: ONU Mulheres/Isabel Clavelin

A delegação indígena também apresentou para a ONU o calendário de mobilização das mulheres, para fortalecer a sua articulação política. “Hoje, viemos aqui para solicitar o apoio para a assembleia de mulheres Guarani-Kaiowás. As mulheres estão bebendo água envenenada. Para cada mãe ou pai ameaçados, um filho também sofre ameaça. Na grande assembleia de mulheres, é onde a gente discute as nossas questões”, disse Flávia Nunes. O encontro é chamado em Guarani como Aty Cuña (grande encontro de mulheres) e acontecerá de 18 a 22 de setembro, na aldeia Kuruçu Amambá, município de Coronel Sapucaia, em Mato Grosso do Sul, na divisa do Brasil com o Paraguai.

Voz das Mulheres Indígenas

Integrante do Grupo Assessor da Sociedade Civil da ONU Mulheres Brasil, Jaqueline Porto solicitou a continuidade do projeto Voz das Mulheres Indígenas, desenvolvido pela entidade entre 2015 e 2017, para seguimento do apoio à articulação e incidência política. “Queremos que o programa seja trazido de volta e aplicado em áreas de retomada, a exemplo de Mato Grosso do Sul. Pelo menos, alguém vai estar nos ouvindo e apoiando a capacitação de lideranças e no enfrentamento à violência contra as mulheres indígenas”, demandou Jaqueline.

A ativista lembrou que as mulheres indígenas estão sendo expulsas das suas terras em meio às sucessivas ameaças. “Nós não conseguimos voltar para as nossas casas, porque estamos sendo perseguidas”, afirmou, ao mencionar que ela mesma vive essa situação.

Representando a ONU Brasil, a representante do Alto Comissariado da ONU para Refugiados (ACNUR), Isabel Marques, declarou o apoio das Nações Unidas no Brasil aos povos indígenas. “Fiquem com a mensagem de que estamos juntas. Nosso trabalho é dar apoio a vocês dentro e fora do Brasil”, disse.

A representante da ONU Mulheres Brasil e coordenadora do Grupo Temático de Gênero, Raça e Etnia da ONU Brasil, Nadine Gasman, confirmou o apoio da ONU Mulheres ao Aty Cuña, a disposição de aprofundar o trabalho com as mulheres indígenas e o interesse de elaborar um plano de emergência frente ao agravamento da situação relatada pelas lideranças indígenas. “Vocês são guerreiras. Um povo que tem mulheres como vocês é um povo imbatível. Que vocês passem para a história como as pessoas que fizeram acontecer”, afirmou Nadine.