Mostra fotográfica em Londres aborda desafios de quem não tem nacionalidade

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Em todo o mundo, existem cerca de 10 milhões de apátridas. Essas pessoas não têm nacionalidade, o que as torna vulneráveis a instabilidade jurídica e violações. Para essa população, a vida cotidiana pode ser cheia de medo e discriminação. A fim de debater os desafios de quem vive em situação de apatridia, a Agência da ONU para Refugiados (ACNUR) e o fotógrafo Greg Constantine apresentam em Londres uma mostra fotográfica sobre o tema, em cartaz até 30 de dezembro.

Peter foi forçado a deixar o Zimbábue por causa da instabilidade política, mas não teve sua solicitação de refúgio aceita no Reino Unido e deixou de ser reconhecido como cidadão por seu próprio país de origem. Foto: ACNUR/Greg Constantine

Peter foi forçado a deixar o Zimbábue por causa da instabilidade política, mas não teve sua solicitação de refúgio aceita no Reino Unido e deixou de ser reconhecido como cidadão por seu próprio país de origem. Foto: ACNUR/Greg Constantine

Em todo o mundo, existem cerca de 10 milhões de apátridas. Essas pessoas não têm nacionalidade, o que as torna vulneráveis a instabilidade jurídica e violações. Para essa população, a vida cotidiana pode ser cheia de medo e discriminação. A fim de debater os desafios de quem vive em situação de apatridia, a Agência da ONU para Refugiados (ACNUR) e o fotógrafo Greg Constantine apresentam em Londres uma mostra fotográfica sobre o tema.

Em cartaz até 30 de dezembro, a exposição leva para a Saatchi Gallery histórias de indivíduos que, por circunstâncias fora de seu controle, foram privadas do direito humano universal a uma nacionalidade. Constantine acompanhou algumas dessas pessoas que foram morar no Reino Unido, onde apenas 64 apátridas já são formalmente reconhecidos pelo governo. A concessão desse estatuto específico só foi possível por meio de um procedimento legal criado em 2013.

Na avaliação do ACNUR, o número de apátridas no país é baixo e aponta para a necessidade de aprimorar programas de identificação e proteção dessa população. O organismo internacional explica ainda que muitos desses indivíduos conseguem se regularizar por meio do processo de refúgio.

O Reino Unido é signatário de duas importantes convenções sobre apatridia e é uma das poucas nações a implementar normativas para o reconhecimento de apátridas. Entretanto, como tão poucas pessoas são identificadas nessa condição, suas vidas continuam nas sombras e marcadas por restrições. Elas não podem trabalhar ou ter acesso à educação e vivem com medo de serem detidos ou deportados.

Constantine vem dedicando a maior parte de sua carreira à representação de pessoas apátridas pelo mundo, dos rohingya em Mianmar até os Bidoon no Kuwait. Em Londres, a mostra Nowhere People of UK (Pessoas de lugar nenhum no Reino Unido, em tradução livre para o português) traz para o público local imagens raras, que exploram a rotina reclusa dessas pessoas.

Maya, de origem curda e nascida na Síria, não foi registrada pelas autoridades do país. No Reino Unido, conseguiu a nacionalidade britânica após mobilizações por sua permanência na nação europeia. Foto: ACNUR/Greg Constantine

Maya, de origem curda e nascida na Síria, não foi registrada pelas autoridades do país. No Reino Unido, conseguiu a nacionalidade britânica após mobilizações por sua permanência na nação europeia. Foto: ACNUR/Greg Constantine

Um dos fotografados é Peter, que foi forçado a fugir do Zimbábue há dez anos devido à instabilidade política. Ao chegar ao Reino Unido, sua solicitação de refúgio foi rejeitada. Ele passou cerca de 20 meses em um centro de detenção para migrantes porque a embaixada do Zimbábue se recusou a reconhecê-lo como cidadão.

“Aqueles que não têm cidadania vivem em um limbo, pois ninguém acredita neles”, conta o expatriado. “As autoridades não querem acreditar neles porque dizem ‘como você pode afirmar que é alguém que não tem provas de onde vem?’. Você simplesmente não tem a quem recorrer.”

Mais de 75% dos apátridas do mundo pertencem a grupos minoritários, como os rohingya, os ciganos na Europa e os pemba no Quênia. Na avaliação do ACNUR, as ações para resolver as prolongadas situações de apatridia têm sido insuficientes, e o aumento do deslocamento forçado tem trazido novos riscos de apatridia.

Desde agosto deste ano, por exemplo, os rohingya foram forçados a fugir de atos de violência e perseguição em Mianmar: Mais de 600 mil pessoas estão atualmente vivendo em Bangladesh.

Outra pessoa fotografada por Constantine para a exibição é Maya, de 27 anos, uma das milhares de crianças curdas na Síria que não teve seu nascimento registrado pelas autoridades. Sua família foi detida no Reino Unido depois que sua solicitação de refúgio foi recusada, mas Maya conseguiu nacionalidade britânica.

“Ser apátrida não é uma escolha”, diz Maya. “Você nasce assim. É algo de que alguém maior, um governo, uma autoridade te priva. Eu definitivamente me sentia invisível.”

O representante do ACNUR no Reino Unido, Gonzalo Vargas, elogiou o pioneirismo do Reino Unido, “um dos primeiros países a estabelecer um procedimento para identificar pessoas apátridas”. “Entretanto, é evidente que mais precisa ser feito no Reino Unido e outros lugares para garantir que pessoas apátridas recebam a proteção de que tanto necessitam”, defendeu.

A agência da ONU desenvolve a campanha #IBelong, que visa erradicar a apatridia até 2024. Iniciativa encoraja governantes a resolver os atuais problemas de apatridia e a garantir que nenhuma criança nasça apátrida. Saiba mais clicando aqui.


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