Mossul, Iraque: ONU alcança 25 mil pessoas deslocadas com ajuda de emergência em dois dias

Conselheiro especial da ONU para a Prevenção do Genocídio, Adama Dieng, condenou o “desprezo absoluto e contínuo” dos direitos humanos na região, alertando para relatos recentes que indicam o sequestro e a execução por parte da ISIL de um grande número de civis; uso de civis como escudos humanos; o uso de armas químicas; e a punição coletiva de membros das Forças de Segurança do Iraque e seus familiares. ACNUR lança campanha de doações para emergência no Iraque.

Poços de petróleo queimados pelo ISIL são visíveis na recém-retomada cidade iraquiana de al-Hud, perto de Mossul, onde a Organização Internacional para as Migrações (OIM) distribuiu 350 kits de itens não alimentares para famílias recentemente deslocadas. Foto: OIM/Jennifer Sparks

Poços de petróleo queimados pelo ISIL são visíveis na recém-retomada cidade iraquiana de al-Hud, perto de Mossul, onde a Organização Internacional para as Migrações (OIM) distribuiu 350 kits de itens não alimentares para famílias recentemente deslocadas. Foto: OIM/Jennifer Sparks

Quase 18 mil pessoas estão deslocadas e necessitam de ajuda humanitária imediata em Mossul, no Iraque, alertou nessa terça (1) o Escritório de Coordenação de Assuntos Humanitários da ONU (OCHA). Parceiros e agências das Nações Unidas estão fornecendo assistência de emergência em campos e comunidades de acolhimento.

A alimentação é a necessidade prioritária em áreas recém-retomadas, informou a agência, onde as pessoas teriam sobrevivido com uma dieta de pão e água.

A contaminação pesada de minas improvisadas e restos explosivos está resultando em vítimas civis em áreas recém-retomadas, disse o OCHA.

Mais de 25 mil pessoas deslocadas foram alcançadas com ajuda de emergência em 48 horas, muitas das quais em áreas recém-retomadas perto da linha de frente do conflito.

Na terça (1), o conselheiro especial do secretário-geral da ONU para a Prevenção do Genocídio, Adama Dieng, condenou o “desprezo absoluto e contínuo” dos direitos humanos internacionais e do direito internacional humanitário por parte do Estado Islâmico do Iraque e do Levante (ISIL), no contexto das recentes ações militares em curso em Mossul e arredores.

Relatos recentes citam o sequestro e a execução por parte da ISIL de um grande número de civis, o uso de civis como escudos humanos e a incitação à violência pelos líderes do grupo terrorista. “Também houve relatos de uso de armas químicas e punição coletiva de membros das Forças de Segurança do Iraque e seus familiares”, destacou Dieng.

Locais de pessoas deslocadas em Mossul, no Iraque. Gráfico: UNOCHA, 31 de outubro de 2016

Locais de pessoas deslocadas em Mossul, no Iraque. Gráfico: UNOCHA, 31 de outubro de 2016

No dia 31 de outubro, de acordo com relatos locais, o ISIL tentou transferir à força até 25 mil pessoas da cidade de Hamam al-Alil para o distrito de Talafar, o distrito de Mossul e a cidade de Abusaif, localização de uma base militar onde o grupo teria realizado assassinatos de civis em massa.

O conselheiro especial expressou grande preocupação com a segurança destes civis e das dezenas de milhares de outros que foram realocados à força para serem usados como escudos humanos. “É provável que o ISIL amplie essas táticas conforme a operação militar progrida”, completou o comunicado.

Dieng destacou a importância da responsabilização do ISIL por seus crimes cometidos, observando que as alegações existentes são suficientemente fortes para que a ação possa ser tomada imediatamente. “Ele reitera seu apelo para que todas as evidências de atividade criminosa sejam devidamente documentadas e asseguradas para futura consideração por um tribunal de justiça”, disse.

O conselheiro especial da ONU disse ainda que o governo do Iraque deve conduzir suas operações militares com pleno respeito ao direito internacional e que todas as denúncias de retaliação por parte das forças de segurança ou por milícias armadas associadas a elas devem ser responsabilizadas de forma eficaz e sem demora. “De acordo com a lei internacional, a responsabilidade de comando significa que os que estão na autoridade serão responsabilizados pelas ações das forças sob seu controle”, disse.

Dieng também expressou preocupação com o risco crescente de que grupos armados atuando em nome de comunidades étnicas e religiosas possam promover retaliação contra membros da comunidade sunita.

“Qualquer tipo de violência de retaliação contra indivíduos com base na sua pertença a um grupo específico é inaceitável e minará os legítimos pedidos destas comunidades para a sua própria proteção e para a resolução de suas reivindicações de longa data.”

Agência da ONU para refugiados lança campanha de doações para emergência no Iraque

Para garantir o fornecimento adequado de abrigo, água, alimentos e locais seguros para a população civil afetada pelos recentes conflitos em Mossul, no Iraque, a Agência da ONU para Refugiados (ACNUR) lançou uma página de doações na Internet.

Por meio da página https://doar.acnur.org/acnur/iraque.html, as pessoas interessadas em apoiar os refugiados podem fazer doações únicas ou mensais, de diferentes valores.

Dois irmãos iraquianos se refugiam em um abrigo da ONU após fugirem da violência no Iraque. Foto: ACNUR/ S. Baldwin

Dois irmãos iraquianos se refugiam em um abrigo da ONU após fugirem da violência no Iraque. Foto: ACNUR/ S. Baldwin

Com estes recursos, o ACNUR fornecerá à população civil tendas para moradia, alimentos, água e suprimentos de ajuda emergencial. Os recursos são necessários para garantir a segurança e bem-estar da população afetada, que estará sob proteção do ACNUR e de outras agências humanitárias por um longo período.

A operação humanitária do ACNUR para atender as vítimas do conflito em Mossul está estimada em US$ 196,2 milhões. Atualmente, menos da metade (48%) dos fundos necessários para responder a situação de emergência está à disposição do ACNUR.

O ACNUR prevê que centenas de milhares de famílias em Mossul, no Iraque, terão que abandonar suas casas e se deslocar para salvar suas vidas diante da ofensiva das tropas do governo para a retomada da segunda maior cidade do país.

De acordo com o alto-comissário da ONU para Refugiados, Filippo Grandi, “a proteção de cidadãos é o elemento mais importante desta operação. As pessoas que optam por deixar Mossul devem ser tratadas com dignidade, e no pleno respeito de seus direitos”.

Prevendo o deslocamento massivo da população civil, o ACNUR já instalou cinco acampamentos com capacidade para abrigar 45 mil pessoas em áreas seguras. Um total de 11 campos está previsto para estar em funcionamento nas próximas semanas, com a capacidade de abrigar 120 mil pessoas.

Além dos itens básicos de saúde, como água e alimentos, o ACNUR já está propiciando à população kits de abrigos de emergência e itens como lonas plásticas e materiais de instalação.

O chefe do ACNUR ressaltou que financiamentos são necessários não apenas para as ações iniciais, mas também para deslocamentos que podem se seguir durante o inverno, agravando ainda mais a situação.

“É provável que estas pessoas deslocadas permaneçam por um longo período nesta condição, ao longo de muitas semanas ou meses. Por isso se faz necessário fornecer assistência apropriada”, disse Grandi ao pontuar a extrema urgência de financiamento.

O ACNUR é uma agência humanitária financiada por contribuições voluntárias de governos, mas também de corporações, fundações e indivíduos. Com um clique pode-se ajudar a milhares de famílias deslocadas e refugiadas em Mossul e pelo mundo.

Acesse: https://doar.acnur.org/acnur/iraque.html