Monitor do UNICEF relata atendimento a crianças venezuelanas que chegam a Roraima

Era manhã quando um menino venezuelano de 7 anos chegou sozinho à Rodoviária Internacional de Boa Vista (RR). Ele havia pegado carona da Venezuela até o Brasil e desembarcado na capital roraimense com sintomas de malária.

Ao chegar à rodoviária – um dos principais pontos de informação para refugiados e migrantes em Boa Vista –, encontrou ajuda no Espaço Amigo da Criança, montado pelo Fundo das Nações Unidas para a Infância (UNICEF) e pela organização Visão Mundial.

“Graças a Deus não aconteceu nada, porque, se esse menino chega aqui e não entra no espaço, ele estaria nas ruas correndo muitos riscos”, contou o venezuelano Maikel José Yepez, de 23 anos, monitor do espaço responsável pelo atendimento das crianças. Leia o relato completo.

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Era manhã quando um menino venezuelano de 7 anos chegou sozinho à Rodoviária Internacional de Boa Vista (RR). Ele havia pegado carona da Venezuela até o Brasil e desembarcado na capital roraimense com sintomas de malária.

Ao chegar à rodoviária – um dos principais pontos de informação para refugiados e migrantes em Boa Vista –, encontrou ajuda no Espaço Amigo da Criança, montado pelo Fundo das Nações Unidas para a Infância (UNICEF) e pela organização Visão Mundial.

“Graças a Deus não aconteceu nada, porque, se esse menino chega aqui e não entra no espaço, ele estaria nas ruas correndo muitos riscos”, contou Maikel José Yepez, 23 anos, monitor do espaço responsável pelo atendimento das crianças.

A história do menino é uma das que mais marcou Maikel nos seis meses de atuação no local. “Acredito que o trabalho que estou fazendo muda a vida de crianças. Estando aqui, elas não estão na rua, estamos ensinando valores e habilidades. É isso que queremos, que elas se sintam em um local seguro, em que podem brincar, aprender, descansar”. Desde o início de funcionamento dos espaços, mais de 15,5 mil crianças migrantes já receberam apoio psicossocial em Roraima.

Maikel cresceu pelas ruas do bairro Capitólio, na capital da Venezuela, em Caracas. De família pobre, o menino começou a atuar como voluntário aos 14 anos no sistema de proteção social da Venezuela, e recebia uma bolsa para ajudar nas contas de casa. Sua função era atuar na recreação de crianças com deficiência. Aos 16 anos, terminou a escola e começou estudar engenharia marítima. O sonho de navegar pelo mundo foi interrompido quando ele e a companheira, Dania Valentina, de 21, se mudaram para o Brasil.

Com a mulher grávida, a família não encontrava em Caracas a alimentação e a assistência médica necessárias para garantir a saúde de Dania e da primeira filha do casal. “Eu sabia que, aqui no Brasil, havia oportunidades. Minha sogra já estava aqui e ela dizia que teríamos ajuda”.

A família chegou ao Brasil em junho de 2018 e passou por momentos difíceis. Sem trabalho, Maikel lembra que buscava alternativas informais para conseguir dinheiro. “Eu procurava qualquer trabalho que pagasse uma diária, mas há muito venezuelano aqui em Boa Vista e era muito difícil. Minha esposa estava grávida e precisava de coisas que não tínhamos no abrigo e não tínhamos dinheiro. Me sentia muito triste”.

De volta à alegria

Maikel se define como um jovem hiperativo e alegre. É dos que não conseguem ficar parados e estão sempre arranjando o que fazer. “Por isso, gosto muito de trabalhar com crianças”. Foi em janeiro de 2019, quando ele se engajou como monitor com o UNICEF e a Visão Mundial, que a família Yepez voltou a viver dias mais seguros.

“Desde que comecei, me sinto excelente. Primeiro porque gosto de trabalhar com crianças, segundo porque recebi a oportunidade de atuar aqui no Brasil. Para mim, isso é uma conquista. Não vejo isso como um trabalho, mas como algo que eu gosto muito de fazer”, explicou.

Ver Maikel trabalhando com as crianças no espaço é contagiante. A alegria e o sorriso dedicados às crianças espalham risadas e segurança para meninas e meninos que vivem em situação de rua em Boa Vista. No caminho da rodoviária até a casa onde ele vive, o monitor e o restante da equipe passam cumprimentando as crianças atendidas pelo espaço que passam a noite na área coberta da rodoviária.

O jovem que tem tanta felicidade para compartilhar guarda no fundo a saudade da terra natal e da família que foi toda separada. Os pais ficaram na Venezuela e ele tem irmãos na Colômbia e no Peru. Nos planos para o futuro está dar uma vida estável para a pequena Dana Yepez, de 5 meses, terminar o curso de engenheiro e voltar – um dia – para casa.