Moçambique: Guterres promete apoio contínuo da ONU em visita a áreas atingidas por ciclones

Crianças aprendendo em salas de aula sem teto; mulheres cultivando a terra sem ferramentas — esses são alguns exemplos dos desafios enfrentados por moçambicanos que sobreviveram aos ciclones que destruíram seus meios de subsistência. Em seu último dia de visita, na sexta-feira (12), o chefe da ONU, António Guterres, testemunhou em primeira mão a força interior e a resiliência da população vivendo em um país devastado.

Guterres esteve em Moçambique para fazer um balanço dos esforços de recuperação em áreas afetadas pelos devastadores ciclones Idai e Kenneth, ocorridos em março e abril deste ano.

Em Moçambique, o secretário-geral da ONU, António Guterres, ouve relatos de famílias no campo de Mandruzi, a 40 km de Beira, um reassentamento que abriga 375 pessoas. Foto: ONU/Eskinder Debebe

Em Moçambique, o secretário-geral da ONU, António Guterres, ouve relatos de famílias no campo de Mandruzi, a 40 km de Beira, um reassentamento que abriga 375 pessoas. Foto: ONU/Eskinder Debebe

Crianças aprendendo em salas de aula sem teto; mulheres cultivando a terra sem ferramentas — esses são alguns exemplos dos desafios enfrentados por moçambicanos que sobreviveram aos ciclones que destruíram seus meios de subsistência. Em seu último dia de visita, na sexta-feira (12), o chefe da ONU, António Guterres, testemunhou em primeira mão a força interior e a resiliência da população vivendo em um país devastado.

Guterres esteve em Moçambique para fazer um balanço dos esforços de recuperação em áreas afetadas pelos devastadores ciclones Idai e Kenneth, ocorridos em março e abril deste ano.

‘Vocês terão uma linda escola’

Quando Guterres perguntou a uma classe de alunos “quantos de vocês tiveram suas casas destruídas pelo ciclone?”, quase todos levantaram a mão, sob o sol quente, já que grande parte do telhado tinha sido destruída por ventos de até 195 quilômetros por hora.

A Escola 25 de Junho está localizada na segunda maior cidade de Moçambique, Beira, onde 90% de toda a infraestrutura foi destruída pelo ciclone Idai em 14 e 15 e março. Diariamente, enquanto a população local luta para recuperar e reconstruir, a escola recebe aproximadamente 5 mil crianças, divididas em três turnos, em classes de até 90 alunos.

O secretário-geral da ONU realizou uma visita à escola, acompanhado de seu diretor, Frederico Francisco. Na sala em sala, o diretor apresentou Guterres e lembrou as crianças da “visita especial”, acrescentando que o chefe da ONU tinha vindo “de muito longe porque soube o que aconteceu aqui”.

Quando Francisco levou o chefe da ONU para uma aula improvisada no meio de um pátio, Guterres prometeu: “vocês terão uma linda escola”.

Em outra sala, ele pediu que as crianças “continuassem estudando, aprendendo todos os assuntos, para que pudessem se tornar engenheiros e médicos”. O chefe da ONU também explicou os valores das Nações Unidas. “É um lugar onde todos os países se unem para tentar resolver os problemas do mundo. Às vezes, conseguem, às vezes, não”, disse.

Entre os cinco pavilhões da escola, apenas uma estrutura não foi danificada pelo ciclone e permaneceu sólida. Foi inaugurada em fevereiro deste ano, pouco antes do desastre. Foi construída com o apoio do Programa das Nações Unidas para Assentamentos Humanos (ONU-HABITAT) como um exemplo de como os edifícios poderiam resistir a eventos climáticos extremos.

“Esse é um ótimo exemplo de uma cultura de resiliência, de como as coisas podem resistir quando são construídas da maneira certa”, observou Guterres. Em Moçambique, a mesma iniciativa do ONU-HABITAT apoiou a construção de 3 mil salas de aula resilientes.

Guterres pede que ONU apoie pessoas com deficiência

Foi dentro de uma dessas salas de aula patrocinadas pelo ONU-HABITAT que o secretário-geral se reuniu com um grupo de pessoas com deficiência e uma pessoa com albinismo, bem como algumas das pessoas mais vulneráveis ​​afetadas pelo desastre.

Orlando Machambissa, de 44 anos, disse ao chefe da ONU que “pessoas com deficiência sofreram duas vezes mais” do que o restante da população com o desastre. Machambissa tem albinismo e está perdendo a visão.

Ele disse que a noite em que o ciclone atingiu a cidade “foi impossível esquecer”, acrescentando que algumas pessoas “tiveram a coragem de pegar as coisas que estavam sendo levadas pelo vento, mas os deficientes visuais não conseguiam vê-las”.

Guterres também se encontrou com Antónia Piripiri, de 37 anos, coordenadora distrital do Fórum das Associações Moçambicanas de Pessoas com Deficiência (FAMOD). Piripiri tem deficiência auditiva e, por meio de um intérprete, explicou que, em um país onde a maioria das pessoas recebe notícias pelo rádio, pessoas como ela “não tiveram informações suficientes” durante a emergência.

“Aconteceu de repente, sem qualquer aviso, e eles saíram e viram todas as casas caindo”, disse ela.

Guterres disse que “as Nações Unidas têm a obrigação de fazer tudo para ajudar, especialmente as pessoas mais vulneráveis, que mais sofreram com essa tragédia”.

Recuperando moçambicanos “prontos para construir o futuro”

A meia hora de carro de Beira, Guterres visitou o campo Mandruzi, onde 480 famílias foram temporariamente reassentadas. Elas receberam terras do governo, mas ainda vivem em tendas fornecidas por Agência da ONU para Refugiados (ACNUR), Organização Internacional para as Migrações (OIM) e outros parceiros humanitários.

No campo Mandruzi, o secretário-geral foi calorosamente recebido em uma escola apoiada pelo Fundo das Nações Unidas para a Infância (UNICEF) com gritos de “titio Guterres”. O chefe da ONU compartilhou um momento de felicidade com uma turma de alunos da primeira série, quando testou seus conhecimentos em matemática.

Em seguida, Guterres fez um rápido passeio pelo acampamento, reunindo-se com várias famílias. Ele conversou com moradores, incluindo duas mulheres e um menino, sobre a vida no campo. Algumas vezes, perguntou se eles gostavam do novo lugar. “Sim”, ele ouviu todas as vezes, porque disseram se sentir mais seguros.

Em um evento de mídia no final do dia, o secretário-geral falou sobre os desafios do reassentamento em Moçambique. Todas as vagas de abrigo temporário estão esgotadas no país, e as 46 mil pessoas que ainda vivem nos campos não estão voltando para seus antigos bairros e aldeias.

“Tenho certeza de que o investimento será progressivamente realizado, e apoiaremos esse investimento em educação e saúde e outras coisas necessárias para o bem-estar dessas populações”, disse ele a jornalistas.

O secretário-geral da ONU elogiou a capacidade de resistência e determinação do povo moçambicano. “Eu já estava impressionado com o que vi. O que eu vi foi a grande coragem e determinação dessas pessoas. Eu vi pessoas já semeando e plantando. Elas ainda não têm casa, mas já estão semeando, já estão plantando. Já querem construir seu futuro”.

“Precisamos das ferramentas para voltar a ganhar a vida”

Antes de Guterres deixar Beira, um espaço seguro para crianças e mulheres, que tradicionalmente não recebe homens, abriu uma exceção e recebeu o secretário-geral. Do lado de fora da tenda doada pelo Fundo de População das Nações Unidas (UNFPA), ele colocou a cadeira na porta, respeitando o espaço.

Guterres ouviu algumas preocupações das mulheres sobre a distância da escola mais próxima; a falta de materiais para começar a construir casas; e sobre como é difícil criar filhos sendo mãe solteira.

Mas, principalmente, ele ouviu como elas não querem depender de ajuda. “Só precisamos das ferramentas necessárias para voltar a ter uma renda”, disse uma mulher, acrescentando que algumas delas eram costureiras ou agricultoras, e que outras gostariam de aprender a ler e escrever, ou fazer cestos e cerâmica para comercializar.

“Queremos sentir que estamos sobrevivendo com as nossas próprias mãos.”

Depois de deixar o campo, Guterres reuniu-se com lideranças humanitárias em Moçambique, e recebeu uma atualização sobre a emergência. Ele também visitou um armazém do Programa Mundial de Alimentos (PMA) onde mais de 100 trabalhadores estavam envolvidos na resposta humanitária.

O chefe da ONU fez uma menção especial aos trabalhadores moçambicanos, afirmando saber que alguns deles “foram vítimas, mas continuaram trabalhando para ajudar os outros”.

O secretário-geral da ONU também visitou um sistema de canais, represas e bacias de retenção que foram construídos com o apoio de um grupo de parceiros, incluindo o Banco Mundial. O investimento impediu maiores danos durante o ciclone e a infraestrutura está atualmente sendo expandida.