Minha participação reforça diversidade no Carnaval, diz 1ª musa trans da Mangueira

Primeira musa trans da escola de samba Mangueira, a carioca Patrícia Souza, de 25 anos, acredita que sua participação no desfile de segunda-feira (4) na Sapucaí trará mais diversidade ao Carnaval, o que por sua vez ajuda a visibilizar e apoiar a luta pelos direitos LGBTI no Brasil. Leia a entrevista concedida ao Centro de Informação das Nações Unidas para o Brasil (UNIC Rio).

Primeira musa trans da escola de samba Mangueira, a carioca Patrícia Souza, de 25 anos, acredita que sua participação no desfile de segunda-feira (4) na Sapucaí no Rio de Janeiro trará mais diversidade ao Carnaval, o que por sua vez ajuda a visibilizar e apoiar a luta pelos direitos LGBTI no Brasil.

Patrícia afirma ser importante que as mulheres trans sejam destaque na avenida, e não fiquem apenas restritas aos bastidores do Carnaval. “Se tivesse um pessoal mais envolvido, mais unido, se o pessoal do meio aceitasse mais a gente no Carnaval, na avenida, não só nos bastidores, acho que seria bem visto. E no Carnaval de rua também, principalmente”.

Vivendo atualmente em Londres, onde trabalha como cabeleireira e para onde se mudou em busca de mais segurança e qualidade de vida, Patrícia declara que a aceitação da população trans é maior na capital britânica. “Espero que o Brasil chegue um dia a ser como Londres. Lá temos algo totalmente diferente — o respeito. A gente vai ao mercado e não tem risadinha”.

Mesmo com a incursão no Sambódromo, Patrícia afirma ainda não se sentir segura para frequentar o Carnaval de rua do Rio de Janeiro. “Eu amo estar aqui, só que a gente fica sempre com muito receio. Das ruas, de sair, de ir a um bloco. É muito perigoso para a gente”.

De acordo com a ONG Transgender Europe, o Brasil é o país com o maior número absoluto de homicídios de pessoas trans. Entre 1º de janeiro de 2008 e 31 de dezembro de 2016, 938 assassinatos foram relatados no país.

Denominado “História pra ninar gente grande”, o samba-enredo da Mangueira deste ano trata das “páginas ausentes” da história do Brasil, destacando personagens que resistiram a dominações e lutaram por direitos, mas foram frequentemente esquecidos nos livros escolares.

“Ao dizer que o Brasil foi descoberto e não dominado e saqueado; ao dar contorno heroico aos feitos que, na realidade, roubaram o protagonismo do povo brasileiro; ao selecionar heróis ‘dignos’ de serem eternizados em forma de estátuas; ao propagar o mito do povo pacífico, ensinando que as conquistas são fruto da concessão de uma ‘princesa’ e não do resultado de muitas lutas, conta-se uma história na qual as páginas escolhidas ninam na infância para que, quando gente grande, você continue em sono profundo”, diz o texto de apresentação do samba-enredo no site da agremiação.

Patrícia afirma gostar especialmente do refrão que menciona a vereadora carioca Marielle Franco, brutalmente assassinada há quase um ano na capital fluminense — “Brasil, chegou a vez de ouvir as Marias, Mahins, Marielles, malês”.

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Além de Marielle, o trecho faz referência a Maria Felipa, que liderou um grupo de mulheres negras e indígenas nas batalhas contra os portugueses na Ilha de Itaparica (BA), por volta de 1822; a Luísa Mahin, mãe do poeta, jornalista e advogado abolicionista Luís Gama e envolvida na articulação de revoltas de escravizados na Bahia no século 19; e à Revolta dos Malês, insurgência de escravizados africanos muçulmanos ocorrida em Salvador em 1835. A expressão “malês” também significa “muçulmano” no idioma iorubá.

“Achei lindo (o samba-enredo). Fala de mulheres guerreiras, mulheres fortes”, diz Patrícia. Para ela, sua presença no desfile também mostra a foça das mulheres trans. “Mostrar que somos todas iguais é importante porque não tem rótulo.”

As “musas” das escolas de samba têm uma posição de destaque no desfile. Vestida de indígena, Patrícia ficará à frente do carro abre-alas, o primeiro carro alegórico a desfilar. “Venho na frente do abre-alas representando a exuberância indígena no Brasil antes de (Pedro Álvares) Cabral chegar às terras brasileiras.”

Patrícia diz estar contente com a receptividade dos demais membros da agremiação. “(Estou recebendo) Um carinho enorme de toda a escola. Cada dia fico muito feliz. É muito gratificante estar em um lugar e ser muito bem recebida”, afirma. “Será uma explosão na avenida”, conclui.


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