Milhares de deslocados retornam à Gâmbia após fim de impasse político

Milhares de pessoas que haviam deixado a Gâmbia em meio à crise começaram a retornar ao país após fim do impasse político. Na sexta-feira (20), o ex-presidente Yahya Jammeh, que se recusava a deixar o poder após 22 anos, aceitou ir para o exílio. A Gâmbia é agora presidida pelo líder da oposição, Adama Barrrow, que venceu as eleições presidenciais de dezembro.

Uma equipe da Agência da ONU para Refugiados (ACNUR) em Banjul afirmou que a normalidade está voltando aos poucos à cidade, na medida em que algumas escolas e lojas começaram a reabrir.

Na fronteira senegalesa de Selety, crianças gambianas esperam por carro que as levará de volta para casa. Foto: ACNUR/Hélène Caux

Na fronteira senegalesa de Selety, crianças gambianas esperam por carro que as levará de volta para casa. Foto: ACNUR/Hélène Caux

John* não conseguiu esconder o alívio enquanto esperava com sua esposa e filhos por um ônibus na fronteira de Selety, no Senegal, para levá-los de volta à sua casa na Gâmbia depois de duas semanas de incertezas.

“Acabou, vamos voltar para casa”, disse, sorrindo. John está entre as mais de 8 mil pessoas que retornaram à Gâmbia desde que a crise política terminou quando o ex-presidente Yahya Jammeh deixou o poder após 22 anos na sexta-feira (20) e foi para o exílio.

John decidiu deixar sua casa em Kunkujang-Mariam, na região de Serrekunda, há quinze dias, quando Jammeh se recusou a aceitar os resultados da eleição presidencial de 1º de dezembro que elegeu o líder da oposição, Adama Barrow.

A resistência do presidente que estava havia 22 anos no poder provocou uma crise regional e levou mais de 76 mil pessoas a procurar abrigo no Senegal, de acordo com as autoridades senegalesas.

“Nós simplesmente não sabíamos como as coisas ficariam. Graças a Deus, um banho de sangue foi evitado”, disse John, de 42 anos, ecoando o pensamento dos que temiam que a situação no país gerasse violência. Como muitos deslocados, ele elogiou as famílias que os receberam no Senegal.

“As pessoas abriram suas casas para nós, ficamos com uma família que nem sequer conhecíamos. Eles foram muito gentis”, disse.

Autoridades da Gâmbia estão enviando ônibus para pontos na fronteira com o objetivo de ajudar os deslocados a voltar para casa. John e sua família prepararam-se para embarcar a West Field Junction, na região de Serrekunda. De lá, planejam alugar um carro ou pegar um táxi.

No sábado (21), 530 pessoas cruzaram a fronteira de Selety vindas da região de Ziguinchor, no Senegal. No domingo (22), o número cresceu para mais de 3,7 mil, e se repetiu na segunda-feira (23). Algumas pessoas retornam de carro, motocicleta ou ônibus. Outras fazem travessias informais nas fronteiras Norte e Sul.

Alguns deslocados retornaram de barco para Banjul, capital da Gâmbia, e estão chegando a bordo de ferry boats superlotados, velhos e inseguros. Durante a crise, muitos fugiram ou se esconderam em suas casas, transformando Banjul em uma cidade fantasma.

Uma equipe da Agência da ONU para Refugiados (ACNUR) em Banjul afirmou que a normalidade está voltando aos poucos à cidade, na medida em que algumas escolas e lojas começaram a reabrir.

Durante o impasse político, milhares de pessoas deslocadas da Gâmbia foram hospedadas por famílias no Senegal. Muitos desses anfitriões, como Mariana* — que hospeda mais de 15 pessoas em sua casa, incluindo um primo e seu bebê — têm tido dificuldades para alimentá-los.

“Eu costumava cozinhar 1 quilo de arroz por dia para minha família”, disse Mariana. “Agora, com as novas pessoas que estou hospedando, cozinho de 3 a 4 quilos por dia. Para alimentar todo mundo, tive que reforçar nossos recursos alimentares. Está tudo bem, precisamos ajudá-los, mas agora, para ter dinheiro extra e comprar arroz, vendo café-da-manhã para os vizinhos”, declarou.

Para atender às necessidades dos deslocados e seus anfitriões, o governo senegalês tem agido rapidamente. As autoridades entregaram e distribuíram várias toneladas de alimentos para as famílias, incluindo arroz, óleo e açúcar.

Quarenta toneladas de arroz chegaram à região de Ziguinchor na semana passada, e a distribuição começou em várias aldeias que hospedavam pessoas deslocadas. Além de ajuda alimentar, o governo também está fornecendo colchões, lençóis, cobertores e sabão para os necessitados.

O ACNUR, outras agências humanitárias e ONGs continuam dispostos a auxiliar as autoridades senegalesas. Juntas, equipes da ONU continuam a monitorar a fronteira.

Cerca de 3,5 mil pessoas também procuraram segurança na Guiné-Bissau nos últimos dez dias. A embaixada da Gâmbia solicitou ajuda do ACNUR para auxiliar as pessoas a voltar para casa.

*Nomes alterados por razões de proteção.