Milhares de civis fogem na Líbia após novo agravamento de confrontos

Crianças são as vítimas mais vulneráveis de conflitos. A ONU e o governo internacionalmente reconhecido da Líbia lançaram um plano de resposta humanitária para o país que pretende arrecadar 202 milhões de dólares. Foto: UNOCHA/Giles Clarke

Mais de 3.400 pessoas fugiram de confrontos perto da capital da Líbia, Trípoli, nos últimos dias, alertaram as Nações Unidas nesta segunda-feira (8), pedindo para partes conflitantes cessarem atividades militares para que serviços de emergência possam resgatar civis.

De acordo com relatos, ao menos 32 pessoas foram mortas e 50 ficaram feridas desde os confrontos na quinta-feira (4) entre forças do governo reconhecido internacionalmente e forças do comandante Khalifa Haftar no leste do país.

O secretário-geral das Nações Unidas, António Guterres, em comunicado à imprensa emitido por seu porta-voz, Stéphane Dujarric, afirmou que acompanha de perto a situação na Líbia com “grave preocupação”. Durante visita ao país na semana passada, Guterres pediu o fim de movimentações de tropas.

Guterres disse que a Missão da ONU no país (UNSMIL) irá continuar seus trabalhos em sua sede da capital em respeito a todos os líbios. Dujarric afirmou que Ghassan Salamé, chefe da UNSMIL e representante especial da ONU, havia se encontrado com o líder do governo reconhecido internacionalmente da Líbia, Faiez Serraj, mais cedo nesta segunda-feira. Eles discutiram “maneiras com as quais a ONU pode auxiliar nesta conjuntura crítica e difícil”.

“Como o secretário-geral disse antes de deixar Benghazi na sexta-feira (5), as Nações Unidas permanecem disponíveis para facilitar qualquer solução política capaz de unificar instituições líbias”, afirmou Dujarric.

“Confrontos com armas pesadas estão afetando áreas residenciais e um número desconhecido de civis não foi capaz de fugir destes locais”, disse o porta-voz. “Estamos pedindo uma trégua humanitária temporária para permitir o fornecimento de serviços de emergência e a passagem voluntária de civis, incluindo os feridos nas áreas de conflito”.

Em comunicado divulgado mais cedo nesta segunda-feira, a coordenadora humanitária da ONU para a Líbia, Maria Ribeiro, relembrou as partes conflitantes de suas obrigações de proteger não combatentes, em linha com leis internacionais humanitárias e de direitos humanos.

Os comentários de Ribeiro ecoaram um pedido do Conselho de Segurança por um cessar-fogo, após o embaixador alemão, Christoph Heusgen, presidente do Conselho durante este mês, dizer a repórteres na sexta-feira que o órgão de 15 membros está “profundamente preocupado” com o risco de “instabilidade” na Líbia.

No domingo (7), também foi relatado que as forças do comandante Haftar realizaram um ataque aéreo nos arredores de Trípoli, que foi seguido de ataques retaliatórios contra bases aéreas no leste da Líbia por parte de forças leais ao governo reconhecido internacionalmente.

Destacando o crescente risco para migrantes e refugiados que estão em meio à ofensiva em Trípoli, Ribeiro também alertou que o conflito está intensificando a miséria para todos os que estão “detidos arbitrariamente em centos de detenção”.

O diretor da Organização Internacional pra as Migrações (OIM), António Vitorino, também alertou que a Líbia “não é um lugar seguro para retorno de migrantes que tentaram e não conseguiram chegar à Europa”. Até agora neste ano, 1.073 migrantes, incluindo 77 crianças, voltaram à Líbia após interceptação e resgate no mar, e foram colocados em detenção arbitrária.

Os comentários de Ribeiro sobre a deterioração da situação humanitária também ecoaram as condenações da Organização Mundial da Saúde (OMS) às mortes de dois médicos no fim de semana.

“É inaceitável que agentes da saúde sejam alvo durante conflitos armados”, disse Ahmed Al Mandhari, diretor regional da OMS para o Mediterrâneo Oriental. “Estes médicos arriscaram suas vidas para retirar pacientes feridos de áreas de conflito, e mirá-los e mirar centros de saúde piora a situação para civis presos no conflito”.