Mianmar: ONU alerta para crise humanitária em meio a conflitos entre budistas e muçulmanos

Vários confrontos entre os budistas e muçulmanos – o primeira ocorrendo em junho de 2012 – deslocaram famílias na região ocidental do país, deixando até agora cerca de 200 pessoas mortas.

Uma mulher vai de bicicleta para o trabalho na segunda maior cidade de Mianmar, Mandalay. Foto: IRIN/Jason Gutierrez

Uma mulher vai de bicicleta para o trabalho na segunda maior cidade de Mianmar, Mandalay. Foto: IRIN/Jason Gutierrez

À frente da temporada de monções prevista para maio em Mianmar, um funcionário humanitário das Nações Unidas apelou esta semana por ajuda urgente para mais de 125 mil pessoas deslocadas por combates interconfessionais no estado de Rakhine.

Falando a jornalistas em Nova York, o Diretor de Operações do Escritório das Nações Unidas de Coordenação de Assuntos Humanitários (OCHA), John Ging, disse que dezenas de milhares de pessoas deslocadas que vivem em arrozais será completamente submersas com a chegada das chuvas, daqui a dois meses.

“A solução precisa ser encontrada para realocar essas pessoas e também para obter o retorno e a liberdade de circulação de todas as pessoas deslocadas internamente, de modo que elas possam começar a recuperar suas vidas e meios de subsistência”, afirmou Ging.

Ging, que voltou de uma missão de quatro dias a Mianmar e Filipinas, disse que também estava preocupado com a “grave intimidação” de trabalhadores humanitários, e particularmente com as ameaças dirigidas a funcionários nacionais. Ele pediu às autoridades do governo com quem se encontrou que “corrija percepções equivocadas” sobre a prestação de ajuda em Rakhine.

Vários confrontos entre os budistas Rakhine e os muçulmanos Rohingya – o primeira ocorrendo em junho de 2012 – deslocaram famílias na região ocidental do país e deixaram cerca de 200 pessoas mortas.

“Estamos lhes pedindo para fazer mais”, disse Ging, observando que os oficiais não estão bloqueando o acesso, mas precisam fazer mais para facilitá-lo, tanto em termos de segurança quanto de logística.

Ele apelou ao Governo para retomar a coordenação com a Organização de Cooperação Islâmica (OCI), que se ofereceu para ajudar os afetados pela violência.

Diretor de Operações da OCHA, John Ging. Foto: ONU/Evan Schneider

Diretor de Operações da OCHA, John Ging. Foto: ONU/Evan Schneider

“A oferta da OCI para prestar assistência a ambas as comunidades, sem distinção, a posiciona para ser uma parte importante da solução”, disse Ging em um comunicado, lembrando os compromissos que recebeu da liderança do OIC durante uma recente visita a Jeddah, na Arábia Saudita.

O Diretor de Operações também manifestou preocupação com a falta de progressos na redução das tensões sectárias desde sua última visita, em agosto de 2012.

“No ano passado, enfatizei que as tensões interconfessionais em Rakhine tinham o potencial de minar a impressionante democratização de Mianmar, a construção da paz e as reformas econômicas do país, além de aumentar o sofrimento humanitário”, disse Ging, acrescentando que a força corrosiva dessas tensões era evidente na semana passada, quando uma nova onda de violência irrompeu no município central de Meikhtila, na região de Mandalay, deslocando cerca de 12 mil pessoas.

Autoridades de Mianmar devem fazer mais para deter a propagação da violência, diz especialista independente da ONU

Um especialista independente em direitos humanos das Nações Unidas pediu também na quinta-feira (28) ao Governo de Mianmar que tome medidas urgentes para combater a crescente violência baseada no preconceito e na discriminação que tem afetado comunidades muçulmanas e budistas.

“O Governo deve tomar medidas imediatas para impedir que a violência se espalhe para outras partes do país e mine o processo de reforma”, disse o Relator Especial da ONU sobre a situação dos direitos humanos em Mianmar, Tomás Ojea Quintana.

Ele acrescentou que os responsáveis por atos de violência e destruição contra as minorias religiosas e étnicas devem ser responsabilizados.

“Combater a discriminação é fundamental para estabelecer o Estado de Direito. A impunidade dos atos de violência e discriminação não deve mais ser tolerada”, disse Quintana.

Ele lembrou que um toque de recolher e um estado de emergência foram impostos em quatro municípios da região de Mandalay, como resultado dos confrontos. Há relatos de que a violência se espalhou para Bago e Yangon.

Observando que os sinais de alerta já existiam desde junho de 2012, Quintana disse que “o governo simplesmente não tem feito o suficiente para combater a propagação da discriminação e do preconceito contra as comunidades muçulmanas em todo o país”, ou para enfrentar mobilizações organizadas que estão “incitando o ódio e violentamente atacando comunidades muçulmanas”.

O Relator Especial tomou conhecimento do discurso televisionado do Presidente à nação na quinta-feira cedo pedindo tolerância, compaixão, compreensão e empatia entre as pessoas de todas as religiões em Mianmar.

Ele pediu que outras instituições – como o Parlamento, a Corte Suprema e a Comissão Nacional de Direitos Humanos – desempenhem o seu papel na proteção dos direitos constitucionalmente garantidos, incluindo a liberdade de religião, bem como a necessidade de incluir a sociedade civil e os partidos políticos no combate ao preconceito e à discriminação.

Resposta ao tufão nas Filipinas

Nas Filipinas, o Diretor de Operações do OCHA, John Ging, visitou o Vale de Compostela, na ilha de Mindanao, onde se reuniu com as famílias que perderam parentes, plantações e casas após a passagem do tufão Bopha, em dezembro de 2012. Um dos maiores eventos ambientais já observados em todo o mundo, o tufão matou mais de mil pessoas e afetou outras 6,2 milhões aproximadamente.

Ging elogiou o esforço de resposta mobilizado pelo governo local e apoiado pela comunidade internacional, classificando-o como um modelo “realmente excelente”.

Ele alertou, no entanto, que as necessidades das comunidades locais não devem sair do radar da comunidade internacional. O plano de resposta de 76 mil dólares ao Bopha foi financiado em apenas 42% até 15 de março, segundo a ONU.