Metade da população mundial não tem acesso a serviços de saúde essenciais, diz relatório

Trabalhadores de saúde vacinam crianças na primeira campanha de vacinação oral contra o cólera em Mogadíscio, Somália. Foto: GAVI/Karel Prinsloo

Metade da população mundial não tem acesso a serviços de saúde essenciais, de acordo com novo relatório publicado nesta quarta-feira (13) pelo Banco Mundial e pela Organização Mundial da Saúde (OMS).

Atualmente, 800 milhões de pessoas gastam ao menos 10% de seu orçamento doméstico com serviços de saúde para si mesmas, uma criança doente ou outro familiar. Para quase 100 milhões de pessoas, esses gastos são altos o suficiente para empurrá-las para a pobreza extrema, forçando-as a sobreviver com até 1,90 dólar por dia.

As conclusões são do relatório “Rastreando a cobertura de saúde universal: relatório de monitoramento global 2017”, publicado simultaneamente na revista Lancet Global Health.

“É completamente inaceitável que metade do mundo ainda não tenha cobertura para os serviços de saúde mais essenciais”, disse Tedros Adhanom Ghebreyesus, diretor-geral da OMS. “A solução existe, a cobertura de saúde universal permitiria a todos obter serviços de saúde necessários, quando e onde precisassem, sem enfrentar dificuldades financeiras”.

“O relatório deixa claro que se estivermos sérios — não apenas em relação a ter uma melhor saúde, mas em acabar com a pobreza — precisamos urgentemente aumentar nossos esforços para uma cobertura universal de saúde”, disse o presidente do Banco Mundial, Jim Yong Kim.

“Investimentos em saúde, e mais amplamente, investimentos em pessoas, são críticos para construir capital humano e permitir um crescimento sustentável e inclusivo. Mas o sistema está quebrado: precisamos de uma mudança fundamental na forma como mobilizamos recursos para a saúde e capital humano, especialmente no nível nacional. Estamos trabalhando em muitas frentes para ajudar países a gastar mais e mais efetivamente em pessoas, e aumentar seu progresso rumo à cobertura universal de saúde”.

O relatório mostra ainda que o século 21 viu um aumento do número de pessoas capazes de obter certos serviços-chave de saúde, como imunização e planejamento familiar, assim como tratamento antirretroviral para HIV e redes inseticidas para prevenir malária. Além disso, menos pessoas estão sendo empurradas para a pobreza extrema do que na virada do século.

Progresso desigual

Há amplas desigualdades na disponibilidade dos serviços na África Subsaariana e na Ásia Meridional. Em outras regiões, serviços básicos de saúde como planejamento familiar e vacinação de crianças estão se tornando mais disponíveis, mas a falta de renda significa crescentes estresses financeiros para famílias que pagam por esses serviços do próprio bolso.

Trata-se de um desafio também para Ásia Meridional, América Latina e Europa, onde um crescente número de pessoas estão gastando ao menos 10% de seu orçamento doméstico com serviços de saúde.

As desigualdades nesses serviços são vistas não apenas entre, mas dentro dos países: as médias nacionais podem mascarar baixos níveis de cobertura em grupos populacionais vulneráveis. Por exemplo, apenas 17% das mães e crianças no quintil mais pobre de lares em países de baixa e média renda receberam ao menos seis de sete intervenções de saúde básicas, comparados a 74% no quintil mais rico.

O relatório é base para a discussão do Fórum sobre Cobertura Universal de Saúde 2017, que ocorre em Tóquio, no Japão. Realizado pelo governo japonês, o evento é patrocinado por Agência de Cooperação Internacional do Japão (JICA), movimento global UHC2030, Fundo das Nações Unidas para a Infância (UNICEF), Banco Mundial e OMS.

Além do presidente do Banco Mundial e do diretor-geral da OMS, participam do evento o primeiro-ministro japonês, Shinzo Abe; o secretário-geral da ONU, António Guterres; o diretor-executivo do UNICEF, Anthony Lake; além de chefes de Estado e ministros de mais de 30 países.

“As experiências nos ensinaram que desenhar um mecanismo de financiamento robusto para a saúde que proteja cada indivíduo vulnerável de dificuldades financeiras, assim como desenvolver unidades e trabalhadores da saúde, incluindo médicos, que ofereçam serviços de saúde necessários não importa onde seja, são essenciais para atingir a saúde para todos”, disse Katsunobu Kato, ministro da Saúde, do Trabalho e do Bem-Estar do Japão.

“Acredito que esses investimentos precoces na cobertura universal de saúde pelo governo (japonês) foram fator importante para o rápido desenvolvimento econômico do país mais tarde”, completou.

O fórum é a conclusão de eventos em mais de 100 países, iniciados em 12 de dezembro — Dia da Cobertura Universal de Saúde — para impulsionar o tema. O evento busca um compromisso político de alto nível dos Estados nos níveis global e nacional, enfatizando a experiência em países que têm sido pioneiros no assunto.

As principais sessões de alto nível do fórum acontecem na quinta-feira (14). Um compromisso para a ação, denominado Declaração de Tóquio para a Cobertura Universal de Saúde, será lançado durante a cerimônia de encerramento do encontro.

Clique aqui para acessar o relatório completo (em inglês).