Menos de 10% dos venezuelanos no Brasil conseguem emprego formal, estima agência da ONU

Em pesquisa divulgada nesta quarta-feira (27), a Organização Internacional para as Migrações (OIM) aponta que apenas 9% dos venezuelanos que entram no Brasil por Roraima conseguem um emprego formal nas primeiras semanas após chegarem, antes de seguirem para outros destinos.

Em levantamento feito com mais de 4,1 mil pessoas em 13 municípios do estado, a agência da ONU revela que 59% desses refugiados e migrantes estão sem trabalho. Um em cada três tem dificuldade em ter o que comer.

Famílias de venezuelanos participam do programa de interiorização do Governo Federal. Iniciativa tem o apoio de diferentes agências da ONU, como a Organização Internacional para as Migrações (OIM). Foto: OIM

Famílias de venezuelanos participam do programa de interiorização do Governo Federal. Iniciativa tem o apoio de diferentes agências da ONU, como a Organização Internacional para as Migrações (OIM). Foto: OIM

Em pesquisa divulgada nesta quarta-feira (27), a Organização Internacional para as Migrações (OIM) aponta que apenas 9% dos venezuelanos que entram no Brasil por Roraima conseguem um emprego formal nas primeiras semanas após chegarem, antes de seguirem para outros destinos. Em levantamento feito com mais de 4,1 mil pessoas em 13 municípios do estado, a agência da ONU revela que 59% desses refugiados e migrantes estão sem trabalho. Um em cada três tem dificuldade em ter o que comer.

De acordo com o organismo das Nações Unidas, 32% dos venezuelanos entrevistados tinham emprego em seu país de origem. “A Venezuela vive uma situação social muito difícil, onde vários bens necessários no dia a dia estão faltando, (como) alimentos, energia, itens de saúde. Mesmo as pessoas que estão empregadas hoje têm dificuldade de manter o seu padrão de vida lá”, explica o coordenador de projeto da OIM, Marcelo Torelly.

A publicação da agência da ONU ressalta que 29% dos venezuelanos possuíam alguma formação especializada (ensino médio técnico, tecnólogo ou faculdade) completa ou incompleta, com quase 15% tendo frequentado uma universidade, ainda que não tivessem acabado o curso. Segundo o relatório, 61% dos entrevistados tinham concluído ou pelo menos iniciado o ensino médio.

A OIM aponta ainda que os venezuelanos que estão chegando a terras brasileiras querem e almejam um emprego — 51% dos entrevistados disseram que sua primeira área de interesse era informação e suporte para a geração de renda e trabalho.

“As pessoas que estão vindo para o Brasil têm capacidade de trabalhar”, enfatiza Torelly, que participou nesta quarta-feira de uma oficina com representantes do setor privado no Rio de Janeiro (RJ). O encontro esclareceu mitos sobre a inclusão de migrantes no mercado brasileiro, com orientações sobre contratação e promoção da diversidade no ambiente corporativo.

“O desafio que nós temos hoje é identificar como eles (os venezuelanos) podem agregar valor aos recursos humanos das empresas, seja porque têm nível médio, mas têm um diferencial de experiência de vida, cultural e domínio de outra língua, seja porque têm nível superior e trazem consigo uma bagagem profissional”, acrescenta o especialista da OIM.

A agência da ONU aponta ainda que 74% dos venezuelanos disseram ter dependentes econômicos, dos quais a maioria continua vivendo na Venezuela. Quase metade de todos os entrevistados (49%) contaram que enviam recursos, principalmente dinheiro, para o seu país de origem.

As novas estatísticas da OIM foram calculadas a partir de 4.124 entrevistas realizadas em outubro de 2018.

ONU: 1 em cada 4 venezuelanos já sofreu discriminação no Brasil

O levantamento realizado em Roraima revela ainda que um em cada quatro venezuelanos (26%) afirmou ter sofrido discriminação. Em 93% dos casos, o motivo foi a nacionalidade. Outras causas, como situação econômica e identidade de gênero, também foram relatadas, mas em proporção inferior. Apesar do índice preocupante, 81% dos entrevistados disseram se sentir seguros no Brasil.

Maioria dos venezuelanos que chegam ao Brasil quer ficar no país

A OIM também aponta que 92% dos entrevistados expressaram a intenção de ficar em terras brasileiras — o que marca uma inversão em padrões identificados anteriormente pela agência da ONU. Em levantamento divulgado em abril de 2018, com base em mais de 3,5 mil entrevistas conduzidas entre janeiro e março do mesmo ano, o organismo apontava que 52% dos venezuelanos que chegavam ao Brasil queriam deixar o país, com destino sobretudo para outras nações latino-americanas.

Na avaliação de Torelly, a preferência crescente pelo Brasil “mostra a importância de se pensar em melhorar a estratégia de interiorização que vem sendo desenvolvida pelo governo federal desde o ano passado e ampliada neste ano”.

“Não existe nenhum país que esteja preparado para enfrentar uma crise migratória. O Brasil tem sido um exemplo na região, no sentido de produzir respostas adequadas, como no abrigamento inicial e recepção dessas pessoas quando chegam a Roraima, quanto na sua interiorização”, completa o especialista.

Na pesquisa lançada esta semana, apenas 2% dos venezuelanos disseram ter planos de ir para o Peru e 2%, para a Argentina. O Chile respondia por 1% dos destinos escolhidos por venezuelanos que pensavam em realizar mais um deslocamento. Outros países latino-americanos, como Uruguai, Colômbia, Guiana, Paraguai, Equador e Bolívia, representam, juntos, 3% desses novos pontos de chegada.

Acesse o novo relatório da OIM na íntegra clicando aqui.