Mendicância e prostituição afetam crianças migrantes em situação de rua no Djibuti

Meninos etíopes em praia do Djibuti. Foto: OIM/Muse Mohammed

Mendigar, lavar carros ou se prostituir fazem parte da realidade de muitas crianças em situação de rua no Djibuti, aponta uma pesquisa divulgada na terça-feira (15) pela Organização Internacional para as Migrações (OIM). A publicação faz parte de um esforço da agência da ONU para mapear e entender os movimentos irregulares de migrantes na região do Mar Vermelho, que banha parte da costa nordeste da África e também o Oriente Médio.

Elaborado a partir de análises de caso de 1.137 crianças e adolescentes de até 17 anos, o levantamento do organismo explica que o Djibuti é um país de trânsito para muitos migrantes de outras nações africanas, que desejam atravessar o oceano e chegar ao Iêmen e à Península Árabe. Em 2018, a agência da ONU registrou a chegada de 150 mil migrantes ao território iemenita. Desse contingente, 20% eram menores de idade que, durante a travessia, ficaram expostos a desidratação, doenças e abusos de direitos humanos, incluindo tráfico.

Os jovens entrevistados pela OIM para a pesquisa vivem nas ruas da Cidade do Djibuti, capital do país homônimo. Um menino de 12 anos contou que caminhou um mês e dois dias da Etiópia até o Djibuti. Quatro anos depois, o garoto conversou com a organização internacional. “Eu sobrevivi com a comida que me era dada por estranhos”, lembra.

“Eu achei que haveria mais trabalho no Djibuti. Eu estou disposto a fazer qualquer coisa aqui. Lavar carros, limpar janelas. Mas eu raramente encontro qualquer emprego.”

Muitos jovens que chegam ao Djibuti se veem “presos”, incapazes de chegar à costa passando por um dos lugares mais quentes e secos na Terra. Dos entrevistados para a pesquisa, 663 crianças tinham menos de nove anos — dessas, 195 eram meninas. Outros 504 jovens tinham de dez a 17 anos (64 eram meninas).

“Eu vim para cá com a minha mãe, mas quando ela se mudou para trabalhar na Arábia Saudita, eu fiquei aqui”, conta uma menina de 17 anos.

“Eu não a vejo em oito anos”, acrescenta a jovem. “Ela queria me levar com ela, mas eu tive medo demais para ir. Eu lavo carros para ter dinheiro, mas eu sonho em ser pilota um dia e encontrar a minha mãe na Etiópia. Eu não me lembro da Etiópia, mas eu gostaria de voltar um dia.”

A ministra das Mulheres e Assuntos Familiares do Djibuti, Moumina Houmed Hassan, reafirmou o compromisso do governo em enfrentar os problemas vividos pelos menores migrantes. A dirigente elencou algumas soluções para o drama de meninos e meninas, como a criação de uma plataforma de coordenação, o fortalecimento e o desenvolvimento de instalações de recepção, o estabelecimento de um sistema de identificação, a definição de serviços básicos mínimos para as crianças e a elaboração de uma estratégia nacional de proteção.

O estudo da OIM foi financiado pela União Europeia por meio de uma iniciativa conjunta do bloco continental e da agência da ONU para a proteção e reintegração de migrantes na região conhecida como Chifre da África.