Marinha italiana resgata refugiados em Lampedusa

“As pessoas que salvamos estão absolutamente desesperadas”, diz o capitão do navio San Giusto ao ACNUR. “Você vê o medo e o estresse em seus rostos, especialmente nos rostos das crianças.”

Navio da Marinha italiana leva 186 pessoas que foram resgatadas no mar. Ele irá transferi-las para um maior, que os levará à terra. Foto: ACNUR/A.D'Amato

Navio da Marinha italiana leva 186 pessoas que foram resgatadas no mar. Ele irá transferi-las para um maior, que os levará à terra. Foto: ACNUR/A.D’Amato

Da Agência da ONU para Refugiados (ACNUR)

Os ventos e as ondas decidem o destino de pessoas que fogem do outro lado do Mediterrâneo. Quando as rajadas empurram de norte a sul e as ondas ao largo da costa da Líbia não ajudam, os requerentes de asilo permanecem escondidos em pequenas casas junto a seus contrabandistas. Mas quando o tempo melhora e as correntes de ar se agitam do sul ao norte, eles embarcam em balsas de borracha cinza e barcos de madeira coloridos e fazem seu caminho em direção ao horizonte.

Eles vêm da Síria, Mali, Sudão, Gâmbia, Somália – até o sul da República Centro-Africana. Amontoam-se no navio. Pagaram 1.500 dólares, cada, para embarcar em praias perto de Trípoli, na Líbia, em uma viagem só de ida para a ilha italiana de Lampedusa – a primeira terra firme na Europa.

No melhor dos dias, os navios equipados com motores de 40 cavalos de potência podem fazer quatro nós por hora. Se tiverem sorte, um dos navios tem luz. Se eles têm ainda mais sorte, alguém vai ter um telefone via satélite para chamar autoridades italianas após a passagem de 12 milhas das águas territoriais da Líbia.

Enquanto as águas costeiras são, invariavelmente, calmas, o alto mar é muitas vezes cruel. Ao longo dos anos, milhares de requerentes de asilo morreram no trecho de 190 km entre Trípoli e Lampedusa.

Mas foi necessário uma enorme tragédia para que fosse feito algo. Isso aconteceu na noite de 3 de outubro de 2013, quando 368 eritreus morreram após o barco ter virado, já em Lampedusa, seguido logo depois pelo afogamento de 232 sírios que tentavam chegar à Europa. Suas mortes provocaram um clamor público e levaram o governo italiano a lançar uma missão de resgate.

A frota de cinco navios da Marinha, liderada pelo “San Giusto” e tripulada com mais de 850 marinheiros, foi formada e, desde então, salvou mais de 10 mil pessoas, incluindo mais de 600 mulheres e mil crianças. Ainda esta semana, os italianos resgataram pelo menos 2 mil pessoas a bordo de mais de uma dúzia de barcos superlotados, com mais a caminho em meio a condições meteorológicas calmas.

É preciso um dia para o San Giusto, de 8.200 toneladas, ir de Lampedusa à costa da Líbia. O navio é projetado para acomodar até 500 pessoas. Mas já resgatou até 820 refugiados. Os recursos chegam ao limite, mas não há outra escolha. “Levamos tantas pessoas quanto é possível”, diz Mario Mattesi, o capitão. “Ninguém fica para trás.”

Mattesi começou como um aviador naval, de helicópteros, em 1993, trabalhando para a força de paz da ONU na ex-Iugoslávia. Em 1994, atuou na Somália. Sua notável carreira inclui também o comando de uma fragata, mas o capitão de 50 anos vê a proteção de refugiados como uma das tarefas mais importantes que ele já teve.

“As pessoas que salvamos estão absolutamente desesperadas”, diz Mattesi . “Você vê o medo e o estresse em seus rostos, especialmente nos rostos das crianças. Eles estão prontos para arriscar suas vidas apenas para ter uma pequena chance de viver os seus dias com dignidade e passar suas noites em paz.”


(Por Greg Beals a bordo do San Giusto, no mar Mediterrâneo)