‘Maratona do sofrimento’ na Síria está longe de acabar, alerta negociador da ONU

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Os conflitos na Síria “não acabaram”, assim como a “maratona de sofrimento” para milhões de pessoas no país devastado pela guerra, afirmou um oficial humanitário sênior da ONU.

“Não acabou. Este é meu receio, que as pessoas pensem que o conflito chegou ao fim”, afirmou Jan Egeland, em meio a informações de que “milhares de pessoas” da área rural de Damasco estavam se preparando para ser evacuadas com destino a Idlib, no noroeste do país.

Escombros na cidade de Maarat al-Numaan, na província de Idlib. Foto: UNICEF/Giovanni Diffidenti

Escombros na cidade de Maarat al-Numaan, na província de Idlib. Foto: UNICEF/Giovanni Diffidenti

Os conflitos na Síria “não acabaram”, assim como a “maratona de sofrimento” para milhões de pessoas no país devastado pela guerra, afirmou um oficial humanitário sênior da ONU no início de maio (3).

Jan Egeland, assessor especial do enviado especial da ONU na Síria, fez as declarações a jornalistas após uma conferência do grupo humanitário, em Genebra.

“Não acabou. Este é meu receio, que as pessoas pensem que o conflito chegou ao fim”, afirmou, em meio a informações de que “milhares de pessoas” da área rural de Damasco estavam se preparando para ser evacuadas com destino a Idlib, no noroeste do país.

“Apenas 23% dos programas humanitários possuem financiamento, e já estamos em maio”, disse Egeland, avisando que “não há dinheiro disponível para a ação humanitária”.

O assessor também enfatizou que “pessoas exaustas chegam todos os dias em Idlib, informando que não há recursos financeiros para as operações.

Egeland pediu que os países não diminuam seu apoio “antes do fim dessa maratona de sofrimento”.

Os comentários de Egeland foram realizados em meio a desafios no acesso do apoio humanitário em muitas áreas na Síria. Essa dificuldade é um reflexo do deslocamento em massa de habitantes e da crescente carência por auxílio causada pelos mais de sete anos de guerra.

Há um ano, mais de 4 milhões de sírios viviam em locais considerados de difícil alcance, onde o acesso à assistência humanitária é extremamente arriscado. Nesse cenário, milhares de sírios foram sitiados por forças combatentes.

Hoje, 2 milhões de pessoas continuam a viver em áreas de difícil alcance no país, e cerca de 11 mil ainda residem em locais sitiados. Mas o aparente progresso em termos numéricos pode ser ilusório, diz o assessor especial da ONU.

“É algo positivo que pessoas não estejam mais vivendo em massa em locais sitiados, e que um número bem menor de habitantes esteja vivendo em áreas de difícil acesso. Mas esses números vieram a custo de batalhas terríveis em áreas densamente povoadas. Quando se trata de acordos realizados por um pequeno grupo de militares e políticos, muitas vezes preocupações humanitárias e questões envolvendo a proteção da população civil não são levadas em consideração.”

De acordo com o Escritório das Nações Unidas de Coordenação de Assuntos Humanitários (OCHA), os índices de deslocamento em algumas partes da Síria são tão altos quanto no início da crise no país.

Os registros do OCHA indicam que, para cada pessoa que retorna para casa de maneira voluntária, outras três são novamente deslocadas.

Áreas que, em particular, representam maior fonte de receio incluem Afrin, no norte, o antigo reduto do Estado Islâmico em Raqqa, assim como Ghouta Oriental e Yarmouk, ao sul da capital Damasco – onde as Nações Unidas mantêm um acesso altamente restrito.

Porém, Egeland afirma que a “preocupação número um” seria Idlib, uma cidade que se tornou lar para mais de 2 milhões de pessoas.

“Pessoas estão vivendo a céu aberto, em campos congestionados… ou abarrotadas em centros coletivos”, declarou. “[Mais pessoas] chegam às duas horas da madrugada, praticamente todas as noites, apenas para descobrir que mal podem ter acesso a uma cama oferecida por trabalhadores humanitários sobrecarregados. Não podemos ter uma guerra em Idlib”, completou.

Em meio a informações de que grupos armados continuam a atacar o que Egeland afirmou serem “acordos humanitários ruins”, o conselheiro declarou que o mais importante é garantir que os habitantes possam se deslocar para o local que desejam.

Egeland também expressou preocupação com as 40 mil pessoas que vivem em campos nos arredores de Ghouta Oriental, cidade que anteriormente foi lar para cerca de 390 mil habitantes. Há relatos de ausência de liberdade de ir e vir para os civis, sobretudo para homens.

O veterano em trabalhos humanitários ainda defendeu os valores de ações de “sistemas de desconflitualização” coordenadas pela ONU, de maneira a oferecer proteção para áreas de ação humanitária cuja localização tenha sido informada a agentes em guerra.

Mais de 660 locais solicitaram à ONU para transmitir suas coordenadas às forças militares de Estados-membros que estejam operando dentro da Síria, disse Egeland. Mais de 500 pedidos foram realizados apenas nesse ano.


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