Maratona de negócios em SP premia projetos para integração de refugiados

Após quatro meses de debates e oficinas de trabalho, a maratona de negócios Creatathon, apoiada pela Agência da ONU para Refugiados (ACNUR), foi concluída no último sábado (19) em São Paulo com a premiação de projetos destinados a facilitar a integração de refugiados, apátridas e migrantes estrangeiros no Brasil.

Grupo vencedor do Creatathon Demo Day. Foto: ACNUR/M. Pachioni

Grupo vencedor do Creatathon Demo Day. Foto: ACNUR/M. Pachioni

Após quatro meses de debates e oficinas de trabalho, a maratona de negócios Creatathon foi concluída no último sábado (19) com a premiação de projetos destinados a facilitar a integração de refugiados, apátridas e migrantes estrangeiros no Brasil. O evento aconteceu na sede do Google, em São Paulo, empresa que também apoia a iniciativa.

Promovido pela plataforma Migraflix com o apoio da Agência da ONU para Refugiados (ACNUR), o Creatathon Demo Day teve a apresentação de cinco projetos idealizados por 30 pessoas de 14 diferentes nacionalidades — entre elas, refugiados e apátridas atendidos pelo ACNUR no Brasil.

O projeto “Home for Hope” foi eleito vencedor do evento. Trata-se de uma plataforma de moradia emergencial para estrangeiros recém-chegados ao país em situação de vulnerabilidade. A iniciativa receberá aconselhamentos do Google Campus, consultoria em assessoria jurídica e contábil, apoio da empresa UHU para a construção da identidade visual e da agência de publicidade NoBullshit para sua estratégia de divulgação.

Os projetos Xseed e Share and Care (respectivamente segundo e terceiro colocados na disputa) também receberão consultoria da Escola de Negócios do Serviço Brasileiro de Apoio às Micro e Pequenas Empresas (SEBRAE) que, ao longo de sete encontros, promoverá a transformação das ações em negócios economicamente viáveis e com impacto social.

O Xseed é uma plataforma de busca ativa de emprego para refugiados de acordo com suas habilidades e conhecimentos já adquiridos, enquanto o Share and Care é uma plataforma virtual de troca de serviços entre brasileiros e estrangeiros, propiciando ganhos comuns e contatos sociais. Em comum, todos os projetos tiveram a participação direta de refugiados e migrantes no desenvolvimento das propostas que compuseram o Creatathon.

“Foi um longo processo de diálogo, entendimento, maturação de ideias e aprendizados que envolveu o conhecimento dos brasileiros com as experiências multiculturais dos estrangeiros”, disse Alphonse Nyembro, refugiado da República Democrática do Congo que vive no Brasil há quatro anos e foi um dos participantes mais ativos do Creatathon.

Além de estruturar novos empreendimentos sociais, os workshops também permitiram que brasileiros conhecessem de forma mais aprofundada a realidade e os dilemas das pessoas refugiadas e imigrantes. Para o fotógrafo José Roberto Comodo Filho, brasileiro e participante de um dos grupos do Creatathon, “esta foi uma das experiências mais intensas” de sua vida.

Para Isabela Mazão, chefe do escritório do ACNUR em São Paulo, “os brasileiros se inscreveram com a intenção inicial de ajudar os refugiados a pensar estrategicamente mas, ao conversar com eles, perceberam que a troca de ideias e de experiências profissionais não se daria de forma unidirecional”.

“As pessoas refugiadas têm talentos, conhecimentos e formação capacitada como qualquer outro grupo aleatório de pessoas, sendo necessário que o setor privado se atente a este fato e ofereça mais possibilidades de empregar refugiados notadamente qualificados, comprometidos e dedicados”, disse ela.

Exemplo disso é a refugiada síria Dana Al Balkhy, de 28 anos. Ela é professora particular de idiomas, chegou sozinha ao Brasil há três anos e foi ao evento com o objetivo de evitar que outros estrangeiros passem pelas mesmas dificuldades.

“Os encontros que tivemos para discutir as ideias e aperfeiçoar os projetos foram planejados para fazer o bem a quem nem sequer conhecemos, mas sabemos que precisam dessa ajuda tão necessária nesse momento delicado, e que isso faz uma diferença imensa para quem chega ao novo país”, declarou.

Diante do maior fluxo de deslocados forçados no mundo, o ACNUR tem apoiado iniciativas inovadoras que transformam os desafios de integração em oportunidades de desenvolvimento pleno e sustentável, com contribuições dos próprios refugiados.

A diretora da Unidade de Inovação do ACNUR global, Corinne Gray, esteve no Brasil e acompanhou uma das etapas do Creatathon, ressaltando a afinidade desta iniciativa com os trabalhos da Agência da ONU em sua área de inovação.

“Acreditamos que o refugiado, o solicitante de refúgio e o imigrante são os especialistas sobre suas próprias condições de vida e têm de fazer parte da construção das soluções para seus problemas”, afirmou. “As soluções não estão dentro de nossa organização, mas na comunidade que se beneficiará delas”, concluiu.