Mais de 60% da população do Zimbábue enfrenta situação de insegurança alimentar

Por conta da hiperinflação, mais de 60% da população do Zimbábue está enfrentando insegurança alimentar, em um país que antes era considerado o celeiro da África.

“Em áreas rurais, o espantoso número é de 5,5 milhões de pessoas passando atualmente por insegurança alimentar, à medida que chuvas fracas e padrões climáticos irregulares estão afetando as colheitas e os meios de subsistência”, afirmou Hilal Elver, relatora especial sobre o direito à alimentação.

Mulheres e crianças estão suportando o maior peso da crise alimentar no Zimbábue, disse a relatora especial. Foto: WFP

A fome causada pelo homem está “lentamente chegando ao Zimbábue” e a maior parte das famílias no país não consegue obter comida suficiente para atender suas necessidades básicas, declarou Hilal Elver, relatora especial sobre o direito à alimentação, na última quinta-feira (28).

A especialista independente da ONU apresentou sua análise sobre a atual situação em que o Zimbábue se encontra, demonstrando preocupação em todos os aspectos relacionados à alimentação. Ela realizou uma visita ao país de onze dias para avaliar as condições alimentares na nação africana.

Por conta da hiperinflação, mais de 60% da população do Zimbábue está enfrentando insegurança alimentar, em um país que antes era considerado o celeiro da África.

“Em áreas rurais, o espantoso número é de 5,5 milhões de pessoas passando atualmente por insegurança alimentar, à medida que chuvas fracas e padrões climáticos irregulares estão afetando as colheitas e os meios de subsistência”, afirmou.

“Nas áreas urbanas, estima-se que 2,2 milhões de pessoas enfrentam a mesma situação, além de estarem com falta de acesso a serviços públicos, incluindo de saúde e de água potável”.

Elver descreveu os números como “chocantes”, e alertou que, em razão de fatores como pobreza e altos níveis de desemprego, ampla corrupção, severa instabilidade de preços e sanções econômicas unilaterais, a crise está ficando cada vez pior.

Peso sobre mulheres e crianças

Mulheres e crianças estão carregando o maior peso da crise, disse a relatora especial, apontando que a maior parte das crianças com quem ela teve contato em sua viagem se apresentou abaixo do peso e com desenvolvimento atrofiado.

Elver também relatou que as taxas de mortalidade infantil decorrente de severa má nutrição estão aumentando nos últimos meses.

Estima-se que 90% das crianças entre 6 meses e 2 anos não se alimentam com uma dieta minimamente aceitável. “Eu testemunhei os efeitos desastrosos da má nutrição em crianças não amamentadas porque as mães estão sem acesso a comida adequada”, disse a relatora.

A situação das meninas, descrita por Elver, é igualmente dura. Elas passam cada vez mais por situações de abandono escolar, sendo forçadas a se casar precocemente e vivendo situações de violência doméstica, prostituição e exploração sexual.

Reforma urgente é necessária

Reformas imediatas no sistema de agricultura e distribuição de comida foram recomendadas pela especialista. Ela também apontou ser necessária a redução da dependência de alimentos importados.

Segundo ela, o governo precisa criar condições para a produção de sementes tradicionais, para garantir a autossuficiência e a preparação do país para choques climáticos.

Os efeitos da crise econômica são notáveis, tanto em regiões rurais quanto em cidades como Harare, afirmou Elver.

Ela contou que viu pessoas esperando por horas em longas filas em frente a estações de gás, bancos e dispensários de água, recebendo informações que hospitais públicos estavam buscando organizações humanitárias, após seus próprios estoques de remédios e alimentos terem esgotado.

A relatora apelou para o governo do Zimbábue, partidos políticos e à comunidade internacional para lutarem juntos para “colocar um fim a essa crise espiralar, antes que ela se transforme em um conflito alarmante”.