Mais de 4 milhões de crianças sírias só conhecem a guerra, diz UNICEF

Crianças se abrigam em casa em meio ao fogo cruzado em cidade síria afetada pelo conflito. Foto: UNICEF/Romenzi

Metade das crianças da Síria, em torno de 4 milhões, cresceu conhecendo apenas uma vida de violência, conforme o país entra em seu oitavo ano de conflito, informou em dezembro (13) o Fundo das Nações Unidas para a Infância (UNICEF).

“Toda criança de oito anos na Síria está crescendo em meio a perigo, destruição e morte”, explicou a diretora-executiva da agência, Henrietta Fore, após uma visita de cinco dias ao país.

“Estas crianças precisam voltar à escola, receber suas vacinas e se sentir seguras e protegidas. Nós precisamos ser capazes de ajudá-las”, destacou. Quatro milhões de crianças nasceram na Síria desde que o começo do conflito, que atingiu todas as partes do país.

Em Douma, na região de Ghouta Oriental, o cerco chegou a um fim em abril após cinco anos de bombardeios. Famílias deslocadas estão voltando à região, onde a ameaça de aparatos não detonados ainda é ampla. Desde maio de 2018, 26 crianças foram mortas ou feridas por restos explosivos da guerra somente nessa região do país, segundo relatos.

Em março, a ONU declarou o ano de 2017 como o mais mortal para crianças sírias: 910 morreram em conflitos, segundo relatos. A verificação de números adicionais continua, e estes dados podem ser “somente a ponta do iceberg”, afirmou o Mecanismo de Monitoramento e Relatos para a Síria.

Fore afirmou que em Douma pessoas estão criando suas famílias “em meio a destroços, lutando por água, comida e calor no clima de inverno”. Escolas estão lotadas e sem suprimentos, acrescentou, e a situação está criando uma mentalidade defensiva e de desconfiança entre crianças.

“Desde que o conflito começou, crianças e jovens têm se tornado cada vez mais violentos”, disse uma jovem de 15 anos, que frequenta um centro onde meninos e meninas aprendem como se defender da violência com base em gênero.

“Bullying, assédios, agressões, casamentos precoces – todas estas formas de violência aumentaram. Crianças e jovens veem violência ao redor deles em todos os lugares e veem isto como normal.”

A cerca de 100 quilômetros ao sul de Ghouta, na cidade de Dera’a, níveis de deslocamento são particularmente altos e acesso limitado está bloqueando reabastecimento de recursos limitados.

As duas principais estações de água da cidade eram áreas anteriormente contestadas, causando frequentes interrupções e uma dependência de caminhões-pipa. Para remediar a situação, o UNICEF ajudou a construir um duto de 16 quilômetros para facilitar transporte seguro de água para cerca de 200 mil pessoas.

Primeira série aos 17 anos

Danos por conta da guerra deixaram ao menos 500 das escolas da região em necessidade de reparos, e crianças estão perdendo educação. O UNICEF afirmou que alunos da primeira série têm idade variando entre 6 e 17 anos, e perto de um terço dos estudantes está abandonando as escolas no país.

Fore afirmou que consolidar educação de qualidade para motivar crianças a irem à escola é necessário, à medida que na escola “as sementes da coesão social são plantadas primeiro”.

O UNICEF destacou que alcançar crianças, independentemente de onde estejam, e auxiliá-las em suas necessidades imediatas e futuras, permanece uma prioridade.

Com melhoria em acesso, o UNICEF está intensificando seus serviços de apoio em saúde, nutrição e proteção infantil. Isto inclui auxílios a escolas, implementação de programas de aprendizagem para alunos que perderam anos de educação, treinamento de professores e reparos de sistemas de água e esgoto.

A agência da ONU para a infância pede proteção de crianças sírias em todos os momentos e renovou seu pedido para acesso incondicional a áreas difíceis de serem alcançadas.

“Quase oito anos desde que o conflito começou as necessidades ainda são grandes”, disse Fore. “Mas as milhões de crianças nascidas durante esta guerra e crescendo em meio à violência estão prontas: elas querem aprender. Elas querem brincar. Elas querem se curar”.