‘Longa caminhada para liberdade’ das mulheres e meninas não acabou, diz vice da ONU na África do Sul

Amina J. Mohammed, vice-secretária-geral da ONU, junto a Tokyo Sexwale, um dos membros da Fundação Nelson Mandela, no local onde Mandela e seus companheiros estiveram encarcerados durante quase duas décadas. Foto: cortesia de Obed Zilwa/Fundação Nelson Mandela

A vice-secretária-geral da ONU participou no final de novembro da 15ª Palestra Anual Nelson Mandela na Cidade do Cabo, na África do Sul. Neste ano, o lema do evento foi “Foco no gênero: reduzir a desigualdade através da inclusão”.

O pronunciamento de Amina Mohammed coincidiu com o Dia Internacional para a Eliminação da Violência a Mulheres – 25 de novembro.

Pouco após a sua chegada em Joanesburgo, Mohammed disse a jornalistas que abordar a violência baseada de gênero “começa em casa e nas comunidades” e que “apesar dos progressos feitos, é preciso muito mais”.

Após destacar suas experiências com os próprios filhos, a vice-chefe da ONU afirmou que é importante educar jovens e homens sobre o respeito às mulheres.

‘Longa caminhada para a liberdade’

Na palestra, que relembrou o legado de Nelson Mandela, Amina Mohammed pediu à comunidade internacional mais investimentos em mulheres e meninas, e disse que a desigualdade de gênero é a disparidade mais generalizada no mundo.

“Infelizmente, a longa caminhada para a liberdade de mulheres e meninas no mundo inteiro continua inacabada”, disse Mohammed durante o encontro anual.

A vice-secretária-geral da organização fez um vigoroso pedido para “investir na outra metade da população mundial, no potencial das nossas mulheres para desencadear seu poder para o bem”.

“Assim como o mundo se uniu para apoiar o fim da subjugação com base na raça neste grande país, hoje precisamos nos unir para criar um movimento que lute pela verdadeira igualdade, em todos os lugares”, disse Mohammed.

A representante da ONU classificou a violência contra as mulheres tanto dentro de casa quanto em zonas de guerra como uma “pandemia global”. Além disso, no mundo, menos de um terço das posições de liderança ou gerência no setor privado estão ocupadas por mulheres, enquanto na política o número se reduz a um quarto.

Segundo Mohammed, a nova narrativa precisa abordar o atual contexto mundial no qual jovens estão sendo deixadas para trás.

“Não há nada mais importante do que dar a todas as meninas uma voz autêntica, uma plataforma para que possam alcançar o mundo e não ser deixadas para trás”, disse ela ao relembrar seu encontro com duas vítimas do ISIL/Daesh e do Boko Haram.

“Nelson Mandela enfrentou uma longa caminhada para a liberdade, uma jornada que muitos de nós não conseguimos nem imaginar. Ao final, ele ‘descobriu que o segredo após chegar ao topo de uma enorme montanha era descobrir que existem muitas mais montanhas a serem escaladas’”, citou Mohammed.

“A liderança das mulheres em todos os níveis é fundamental”, disse ela.

A vice-chefe da ONU também homenageou outras líderes sul-africanas, incluindo a diretora-executiva da ONU Mulheres, Phumzile Mlambo-Ngucka, e Navi Pillay, ex-alta-comissária da ONU para os Direitos Humanos.

Amina Mohammed – que, como vice-secretária-geral, é a mulher com cargo mais alto nas Nações Unidas – disse que o enorme legado de Mandela é a fonte de inspiração necessária para lutar pela igualdade de gênero, que está colocando as pessoas no centro das discussões para diminuir as desigualdades por meio da inclusão e da sustentabilidade.

O discurso da representante da ONU incluiu algumas histórias pessoais, relatando, por exemplo, sua experiência como nigeriana, na infância e adolescência, numa família birracial nos tempos do apartheid sul-africano. Ela observou que, como muitas outras gerações influenciadas pela vida e jornada de Mandela, nunca o conheceu pessoalmente, mas que mesmo assim seu legado foi fonte de inspiração para todas e todos.

Mohammed deu ao público o recado importante de que, para combater à violência de gênero, “precisamos começar nas nossas próprias casas, nas nossas comunidades”.

“Temos feito progressos importantes, porém precisamos fazer muito mais”, finalizou a vice-secretária-geral.

Zimbábue

Em resposta a uma questão sobre a situação no Zimbábue, Mohammed disse que os cidadãos do país “devem se felicitar pela transição pacífica”.

O novo presidente do Zimbábue, Emmerson Mnangagwa, tomou posse após a renúncia de Robert Mugabe – que ocupou o cargo por 37 anos.

Para a vice-chefe da ONU, as pessoas no país “vivem um novo amanhecer, e uma nova era”, na qual “podem ser corrigidos erros, sendo muito importante que os cidadãos reflitam e não tenham pressa”.

Mohammed defende que o atual “momento sensível” no Zimbábue carece de apoio de todos os cidadãos do país, de África e da comunidade internacional.

A abertura da conferência da cidade do Cabo coincidiu com o início da comemoração anual da campanha de 16 dias de ativismo contra a violência de gênero. O tema deste ano é “Não deixar ninguém para trás: acabar com a violência contra mulheres e meninas”.