Líder voluntário incentiva brincadeiras de rua e cria fontes de renda em comunidade do DF

A iniciativa Curumim Cultural começou quando Bruno Lopes, morador de Samambaia, no Distrito Federal, percebeu que as crianças de seu bairro não tinham o costume de brincar ao ar livre. Na quadra em que vive, há muitos jovens que raramente eram vistos na rua, por diversos motivos, desde o fácil acesso aos equipamentos eletrônicos à sensação de insegurança que existe no ambiente externo.

O líder voluntário decidiu então criar um projeto que estimulasse a ocupação dos espaços públicos e a educação dos jovens por meio de atividades lúdicas. A iniciativa foi uma das vencedoras do prêmio Viva Voluntário em 2018, uma parceria entre a Casa Civil da Presidência da República e o Programa das Nações Unidas para o Desenvolvimento (PNUD).

Projeto em Samambaia, no Distrito Federal, estimula brincadeiras ao ar livre e ocupação dos espaços públicos pela comunidade. Foto: Curumim Cultural

Projeto em Samambaia, no Distrito Federal, estimula brincadeiras ao ar livre e ocupação dos espaços públicos pela comunidade. Foto: Curumim Cultural

A iniciativa Curumim Cultural começou quando Bruno Lopes, morador de Samambaia, no Distrito Federal, percebeu que as crianças de seu bairro não tinham o costume de brincar ao ar livre. Na quadra em que vive, há muitos jovens que raramente eram vistos na rua, por diversos motivos, desde o fácil acesso aos equipamentos eletrônicos à sensação de insegurança que existe no ambiente externo.

A nova geração da vizinhança estava habituada a ficar em casa e, portanto, era mais propensa ao sedentarismo, à dificuldade de fazer amizades e de conhecer sua comunidade. Levado por um sentimento de nostalgia ao lembrar de seu próprio tempo de menino – em que brincava de queimada, biloca (bolinha de gude), pião e carrinho de rolimã com seus amigos e irmãos –, Bruno teve a ideia de desenvolver um trabalho com os pequenos da região.

O projeto Curumim Cultural foi um dos vencedores do prêmio Viva Voluntário em 2018, na categoria líder voluntário. A premiação é uma parceria entre a Casa Civil da Presidência da República e o Programa das Nações Unidas para o Desenvolvimento (PNUD). A iniciativa visa fortalecer o voluntariado e as organizações da sociedade civil no Brasil.

Além do reconhecimento, o programa criado por Bruno recebeu financiamento de 50 mil reais da Fundação Banco do Brasil para ampliar a sua atuação. Com o prêmio, o idealizador do Curumim Cultural pôde investir em um veículo para levar as atividades para toda a região de Samambaia. Em janeiro e fevereiro de 2019, foi realizada a primeira caravana do projeto.

A primeira ação do Curumim Cultural ocorreu em 12 de outubro de 2015, não por acaso, no Dia das Crianças. Foi uma atividade simples, em que Bruno e amigos voluntários incentivaram as brincadeiras de rua. Eles desenharam amarelinha no chão, organizaram corrida de saco e fabricaram brinquedos de lata, como carrinhos e pé-de-lata. O evento, batizado de Dia dos Curumins, fez sucesso com a criançada. Os jogos antigos, para os meninos e meninas acostumadas com videogame e celular, viraram novidade.

O grupo passou a realizar pequenas atividades mensais com os pequenos das redondezas e, aos poucos, conseguiram incluir novos itens no arsenal de diversões, como bolinhas de gude, ioiô, bete e carrinho de rolimã.

Como o objetivo do projeto era resgatar as raízes do brincar, os integrantes buscaram trazer essa mensagem também para o nome e o símbolo da iniciativa. Assim, escolheram o curumim, que significa criança em Tupi Guarani, para representá-los.

Hoje o público que frequenta as ações do Curumim Cultural vai além dos primeiros participantes e compreende todas as classes econômicas e faixas etárias. A programação é gratuita e aberta. Embora o direcionamento seja para o público infanto-juvenil, crianças e adolescentes vêm acompanhados de seus pais e responsáveis, que também se envolvem nas atividades. A metodologia do brincar criada pelo Curumim Cultural, que começou em Samambaia Norte, está sendo replicada em outras regiões administrativas do Distrito Federal, como Samambaia Sul e Ceilândia.

Participação de todos

Apesar de ter conquistado as crianças, o projeto Curumim Cultural enfrentou dificuldades no início. Muitos moradores da região passaram a reclamar do barulho gerado pela correria e agitação dos meninos e meninas. Alguns pais também se incomodaram com a suposta falta de segurança para que seus filhos ficassem do lado de fora. O grupo passou então a trabalhar não apenas com o estímulo à brincadeira ao ar livre, mas também com a sensibilização dos moradores sobre a importância da utilização dos ambientes comunitários.

A equipe do Curumim acredita que utilizar o espaço público torna esses lugares mais seguros. Para permitir que seus filhos frequentem a rua, os responsáveis também saem de suas casas acompanhando as crianças, o que acaba promovendo encontros, conversas e o resgate da vida em comunidade. Dessa maneira, estimula-se a criação de vínculos entre vizinhos, gerando um ciclo de confiança.

Bruno explica que “muitas vezes uma mãe pede para outra que dê uma olhada em seu filho enquanto ela cuida de suas tarefas, o que promove uma rede de proteção mútua”.

O grupo incentiva a participação de todos nas atividades e no cuidado com o espaço público. Na quadra em que o Curumim Cultural iniciou suas atividades, existem 12 conjuntos de edifícios e todos são convidados a participar das ações. A partir do momento em que a comunidade se apropria de um local compartilhado, os moradores passam a mantê-lo.

Para estimular ainda mais o envolvimento e a colaboração da comunidade, o projeto solicita doação de materiais para a fabricação de brinquedos. Bruno conta que, com o crescimento do projeto, o Curumim virou assunto na mídia, o que ajudou a criar uma relação mais forte dos moradores com o lugar onde vivem.

“Quando a mídia vai ao local, tira fotos, o pessoal olha e fica lisonjeado (com o fato de) que aquilo acontece na sua comunidade, assim passa a se orgulhar de onde mora e das pessoas com quem convive”, explica o idealizador. Esse sentimento de pertencimento fortalece a rede social da vizinhança, num movimento que vem de dentro da comunidade.

Edital e expansão

Em 2016, o Curumim Cultural conseguiu acesso a uma verba pública do Fundo de Apoio à Cultura da Secretaria de Cultura do Governo do Distrito Federal. Esse auxílio viabilizou a divulgação e expansão do programa, bem como a aquisição de novos equipamentos, como jogos de tabuleiros, bolas, tacos, raquetes, cordas, entre outros materiais que dão suporte às brincadeiras tradicionais.

Como parte do edital, o projeto realizou atividades mensalmente entre setembro e novembro daquele ano, sempre no último fim de semana do mês. Além disso, conseguiram convidar em torno de 12 grupos para realizar atividades ligadas à cultura, como teatro de bonecos.

Bruno prometeu à comunidade que não deixaria a ação acabar ao fim do patrocínio. Desde então, todo último fim de semana do mês, o Curumim Cultural sai às ruas de Samambaia para realizar suas atividades. A profissão de Bruno, de coordenador de projetos sociais, o ajudou a montar o programa de maneira sustentável, de modo que não são necessários investimentos altos para manter seu funcionamento. O grupo promove atividades também em feiras, festas e festivais.

Os benefícios da diversão

Bruno acredita que o entretenimento é essencial para a formação da criança. Seu interesse profissional é na área da educação e seu sonho é desenvolver um método que promova o aprendizado a partir da diversão. “Analisando a base curricular nacional e a do Distrito Federal, percebemos que cerca de 80% dos conteúdos e objetivos que a escola visa atingir podem ser feitos utilizando brinquedos e brincadeiras variadas”, explica o idealizador. Ele conta que incluíram noções de geografia no jogo do Pique Bandeira, por exemplo, ensinando os jovens a identificar as bandeiras de estados brasileiros e abordando a divisão geográfica do país.

Bruno explica que o trabalho com brincadeiras é muito completo e, além de muito positivo para a educação e formação infantil, é benéfico também para a saúde, considerando o conceito da Organização Mundial da Saúde (OMS) — que inclui saúde física, mental e social. As atividades desenvolvidas pelo Curumim Cultural buscam desenvolver o lado emocional, a psicomotricidade, as relações sociais e a saúde física dos meninos e meninas.

“Os jogos trabalham a euforia de ganhar, a empatia de torcer por um colega, o apoio aos companheiros que perdem e as relações em geral. As crianças não se conheciam antes das atividades começarem, agora eles se conhecem, saem para brincar juntos”, conta Bruno.

As atividades do Curumim consideram também o empoderamento infantil e da comunidade para que meninos, meninas e seus pais se tornem multiplicadores do projeto. O grupo tem como objetivo conscientizar sobre a ideia do “brincar livremente”, sem o acompanhamento de um regente, a fim de permitir que as atividades sejam disseminadas e não dependam da ação direta deles.

Resultados

Bruno conta que há diferenças nítidas na comunidade após a intervenção do Curumim Cultural. Em primeiro lugar, o relacionamento entre vizinhos, que antes nem sequer se conheciam e agora aproveitam juntos o seu tempo livre. Além disso, a comunidade passou a se mobilizar e construiu o Parque da Biloca e a Roda da Cultura em regime de mutirão.

O grupo incentivou também o plantio de árvores na região. Inicialmente, montaram o Pomar do Cerrado, com 12 espécies nativas desse bioma. Cada um dos 12 blocos da quadra 604 é encarregado de uma árvore, o que encoraja a participação contínua dos moradores no cuidado da vizinhança. Desde o começo dessa divisão de tarefas, foram plantadas mais 26 árvores. Também foi registrada uma redução significativa no descarte de lixo e de entulho nas proximidades de onde são realizadas as atividades do Curumim.

O projeto trouxe ainda consequências para a economia local. Devido a um aumento na demanda por brinquedos clássicos, como piões, bilocas e pipas, pessoas da comunidade começaram a comercializá-los. Os voluntários do Curumim Cultural passaram a atuar como oficineiros, brinquedistas, monitores e animadores em festas e festivais, criando mais fontes de geração de renda.


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