Líbia: 6 crianças estão entre os mortos por ataque aéreo contra prisão para refugiados e migrantes

Agências da ONU confirmaram nesta sexta-feira (5) que seis crianças estão entre os 53 refugiados e migrantes mortos num ataque aéreo contra um centro de detenção para estrangeiros no subúrbio de Trípoli, capital da Líbia. Mais de 130 indivíduos ficaram feridos e muitos outros sobreviventes foram descritos pelas Nações Unidas como “severamente traumatizados”.

Crianças migrantes num centro de detenção em Trípoli, na Líbia. Imagem de arquivo. Foto: UNICEF/Romenzi

Crianças migrantes num centro de detenção em Trípoli, na Líbia. Imagem de arquivo. Foto: UNICEF/Romenzi

Agências da ONU confirmaram nesta sexta-feira (5) que seis crianças estão entre os 53 refugiados e migrantes mortos num ataque aéreo contra um centro de detenção para estrangeiros no subúrbio de Trípoli, capital da Líbia. Mais de 130 indivíduos ficaram feridos e muitos outros sobreviventes foram descritos pelas Nações Unidas como “severamente traumatizados”.

Joel Millman, porta-voz da Organização Internacional para as Migrações (OIM), afirmou que seis crianças estavam entre as vítimas fatais no centro de Tajoura, onde estavam presos mais de 600 detentos de pelo menos 17 países africanos. Na terça-feira (2), um ataque a míssil atingiu uma cela com mais de 120 pessoas, segundo relatos.

Cerca de 350 migrantes — entre eles, 20 mulheres e quatro crianças — ainda estão detidos no local, segundo o representante da agência da ONU.

Millman afirmou que era incapaz de confirmar relatos de que guardas abriram fogo contra migrantes que tentavam fugir em meio ao ataque.

Na sequência da devastação registrada na terça-feira, o chefe da Missão de Apoio da ONU na Líbia e representante especial do secretário-geral para o país, Ghassan Salamé, liderou apelos por uma investigação internacional sobre o ocorrido. O dirigente afirmou que os ataques aéreos poderiam “claramente constituir um crime de guerra”.

Nesta sexta, o representante da Agência da ONU para Refugiados (ACNUR), Charlie Yaxley, disse que ambas as partes envolvidas no confronto por Trípoli sabiam onde civis estavam se abrigando. Os embates pela capital põem de lados opostos o governo reconhecido pela ONU e as forças leais ao autoproclamado comandante do Exército Nacional Líbio, Khalifa Haftar.

ONU: ataque contra centro que abrigava refugiados na Líbia pode constituir crime de guerra

“Reiteramos mais uma vez que as coordenadas desses centros de detenção em Trípoli são bem conhecidas de ambos os lados do conflito, e essa foi uma tragédia prevenível que nunca deveria ter acontecido”, afirmou Yaxley, que acrescentou que refugiados ficaram “severamente traumatizados” após verem outros detentos morrerem.

“Eles conversaram (conosco) num estado de choque, eles conversaram conosco sobre terem visto as partes do corpo desmembrado de seus companheiros detentos (espalhadas) pelo centro”, disse o representante do ACNUR.

De acordo com as duas agências da ONU, 3,3 mil refugiados e migrantes permanecem detidos arbitrariamente dentro e nos arredores de Trípoli.

O porta-voz da OIM disse ainda que aproximadamente 180 dos mais de 600 detidos em Tajoura já haviam concordado em serem evacuados pelo programa de repatriação voluntária da OIM. Dois deles morreram nos ataques aéreos.

“Não somos capazes de verificar quem é responsável pelo ataque, é por isso que precisa haver uma investigação independente”, afirmou o representante do ACNUR.

“O que podemos dizer, a essa altura, é que realmente precisava haver esforços bem maiores da comunidade internacional, em particular entre os Estados que têm influência sobre as partes conflitantes, para pôr um fim à violência.”

Segundo Yaxley, existe a preocupação de que alguns dos centros de detenção estejam sendo utilizados para armazenar armas e equipamento militar. De acordo com o profissional da agência da ONU, esse tipo de uso de uma infraestrutura civil poderia constituir uma violação do direito humanitário internacional.

Náufrago no Mediterrâneo deixa migrantes desaparecidos

A OIM também noticiou nesta semana que mais de 80 migrantes teriam se afogado no Mediterrâneo após sua embarcação virar durante o trajeto com destino à Europa. O barco havia deixou o porto líbio de Zwara.

“Os sobreviventes contaram a funcionários da OIM que o bote inflável, que carregava 86 pessoas, incluindo quatro mulheres e duas crianças, deixou Zwara por volta de 6h no 1º de julho”, explicou Millman.

“Algumas horas depois, o bote começou a perder ar e virou durante a confusão e a agitação das dezenas de pessoas a bordo.”

A OIM lembrou que essa não é a primeira tragédia do gênero em 2019. Em maio, foram realizados dois resgates de embarcações sobrecarregadas. Em um dos casos, 59 pessoas desapareceram, mas 16 foram salvas. No outro, 69 refugiados e migrantes foram resgatados. Ambos os botes também saíram do porto de Zwara.

Até o momento, a agência da ONU já notificou 426 mortes por afogamento associadas a tentativas de atravessar a rota central do Mediterrâneo rumo ao continente europeu.

Em torno de 3.750 pessoas voltaram para situações de detenção arbitrária e sistemática, após não conseguirem cruzar o mar. Essa população permanece em risco, conforme os confrontos na capital da Líbia continuam.