Lancet: Relatório do UNAIDS é ‘ponto de referência vital’ para monitorar progressos na resposta ao HIV

Em artigo editorial publicado no dia 22 de julho, a renomada revista científica The Lancet classifica o relatório mais recente do Programa Conjunto das Nações Unidas sobre HIV/AIDS (UNAIDS) como “um ponto de referência vital para identificar o progresso, os êxitos, as insuficiências e as lacunas no combate à epidemia mundial de HIV.” Além disso, o periódico destaca que “o uso das metas 90-90-90 fornece um quadro útil que pode ajudar os países a priorizar seus caminhos e ações para um mundo livre da AIDS”.

Laço vermelho, símbolo da luta contra a Aids. Foto: CC/Sham Hardy

Laço vermelho, símbolo da luta contra a AIDS. Foto: Sham Hardy (CC)

Em artigo editorial publicado no dia 22 de julho, a renomada revista científica The Lancet classifica o relatório mais recente do Programa Conjunto das Nações Unidas sobre HIV/AIDS (UNAIDS), Acabando com a AIDS: progresso rumo às metas 90–90–90, como “um ponto de referência vital para identificar o progresso, os êxitos, as insuficiências e as lacunas no combate à epidemia mundial de HIV”. Além disso, a revista destaca que “o uso das metas 90-90-90 fornece um quadro útil que pode ajudar os países a priorizar seus caminhos e ações para um mundo livre da AIDS”.

Confira abaixo a tradução completa do artigo:

“No dia 20 de julho, o UNAIDS divulgou seu relatório anual sobre o estado da epidemia global de HIV/AIDS, que também inclui uma análise abrangente do progresso para acabar com a AIDS como ameaça à saúde pública. As últimas estimativas epidemiológicas e dados programáticos de 168 países em todas as regiões do mundo foram revisados. Em todo o mundo, as mortes relacionadas à AIDS caíram de um pico de 1,9 milhão em 2005 para cerca de 1 milhão em 2016, em grande parte, devido ao aumento do tratamento — pela primeira vez, é estimado que mais de metade das pessoas com HIV estejam em tratamento. Desde 2010, o número anual de novas infecções em todas as faixas etárias diminuiu 16% para cerca de 1,8 milhão em 2016. No entanto, o progresso é variável e, apesar de uma tendência global de queda na epidemia, várias regiões estão experimentando aumentos acentuados nas novas infecções e dificuldades para expandir o tratamento.

Em 2014, para acelerar o progresso no sentido de acabar com a AIDS como ameaça à saúde pública até 2030, o UNAIDS lançou as metas 90-90-90. Os objetivos são de que, até 2020, 90% de todas as pessoas vivendo com HIV conheçam seu estado sorológico positivo para o vírus, 90% de todas essas pessoas diagnosticadas com HIV tenham acesso ao tratamento antirretroviral, e que 90% de todas as pessoas em tratamento tenham carga viral indetectável. O relatório afirma que foram realizados progressos consideráveis em relação aos objetivos 90-90-90, mas há lacunas ao longo da cascata de cuidado contínuo do HIV, que variam de acordo com as regiões. Em termos globais, mais de dois terços das pessoas vivendo com HIV conheciam seu estado sorológico positivo em 2016. Cerca de 77% delas estavam em tratamento e 82% das pessoas em tratamento tiveram a carga viral suprimida. Em 2016, cerca de 19,5 milhões de pessoas com HIV (53%) estavam em tratamento, o que superou os 17,1 milhões de 2015.

Se alcançadas, as metas 90-90-90 se traduzem em 73% de todas as pessoas que vivem com HIV com a carga viral suprimida. Botsuana, Camboja, Dinamarca, Islândia, Cingapura, Suécia e Reino Unido já atingem ou excedem esse objetivo, e outros 11 países estão se aproximando. No entanto, o relatório observa que, globalmente, quando as lacunas ao longo da cascata são combinadas, apenas 43% de todas as pessoas vivendo com HIV tiveram a carga viral suprimida em 2016, o que é muito abaixo do alvo final, demonstrando que muitas regiões estão fora do curso certo para alcançar a meta até 2020.

O progresso nas áreas mais afetadas do mundo, o Leste e o Sul da África, tem sido impressionante. Com a aceleração rápida do tratamento em combinação com as intervenções de prevenção existentes, as mortes relacionadas à AIDS diminuíram quase pela metade nos últimos seis anos. Novas infecções diminuíram em cerca de 1,1 milhão para cerca de 790 mil, uma redução de 29%. O progresso da região nos três ‘90’ é comparável com o da América Latina e, se o progresso for sustentado, ambas alcançarão provavelmente os objetivos junto à Europa Ocidental e Central e América do Norte, que já atingiram o objetivo de 2020.

O progresso é menos positivo em outros lugares. No Oriente Médio e Norte da África, as tendências variam e, embora os números de novas infecções pareçam estáveis desde 2010, mortes relacionadas à AIDS aumentaram na última década. No mesmo período, na Europa Oriental e Ásia Central, o número de novas infecções aumentou para 190 mil em 2016, um aumento de 60%. A epidemia de HIV da região envolve principalmente dois países: Rússia e Ucrânia. Pessoas que usam drogas injetáveis representaram 42% das novas infecções por HIV na região em 2015. Em ambos os países, existem grandes lacunas na cascata de cuidado contínuo dos 90-90-90. O alcance da testagem e tratamento do HIV é baixa. Populações-chave nessas regiões são incapazes de acessar os serviços e a vinculação dos cuidados é fraca. É improvável que as regiões atinjam a meta 90-90-90.

O relatório aponta desafios em todas as regiões. O diagnóstico tardio em populações-chave neutraliza os efeitos potenciais do tratamento como prevenção na população em geral. As lacunas no ciclo de tratamento 90-90-90 são maiores para homens, jovens e populações-chave. As mulheres continuam a ser desproporcionalmente afetadas pela epidemia. Criminalização, estigma e discriminação atuam como barreiras para as principais populações que entram em programas de cuidados. O financiamento também é uma preocupação com os recursos que estão abaixo dos compromissos globais.

O relatório enfatiza que não há espaço para comodismo. De fato, ter 53% de todas as pessoas que vivem com HIV em terapia antirretroviral (TARV) significa que outros 17 milhões de pessoas com HIV não estão em tratamento. De fato, em uma carta publicada na Lancet desta semana, Brian Williams e Reuben Granich pedem uma revisão urgente dos pressupostos utilizados para calcular o efeito da TARV [sic] sobre as taxas de novas infecções e mortalidade relacionada à AIDS. As abordagens atuais precisam ser mais eficientes, e as inovações em torno do diagnóstico, tratamento, prestação de serviços e vigilância e monitoramento precisam ser levadas em consideração.

O relatório anual do UNAIDS é um ponto de referência vital para identificar o progresso, os êxitos, as insuficiências e as lacunas no combate à epidemia mundial de HIV. O uso das metas 90-90-90 fornece um quadro útil que pode ajudar os países a priorizar seus caminhos e ações para um mundo livre de AIDS. Mas quais ações seguirão?”

Artigo editorial publicado na The Lancet do dia 22/7/2017 e com tradução livre para o português feita pela equipe do UNAIDS no Brasil. Acesse o original clicando aqui.

Clique aqui para ter acesso ao relatório completo do UNAIDS.