Juliana: ‘Quero estudar Direito para defender a população. É o que mais sinto falta nas comunidades’

A estudante Juliana aceitou o convite de uma amiga e entrou para o Movimento de Cultura Popular do Subúrbio (MCPS), no bairro do Subúrbio Ferroviário de Salvador, região com altos índices de violência, particularmente contra jovens negros e negras. Hoje, aos 19, trabalha na organização dando aulas de teatro para crianças e adolescentes.

A estudante Juliana aceitou o convite de uma amiga e entrou para o Movimento de Cultura Popular do Subúrbio (MCPS), no bairro do Subúrbio Ferroviário de Salvador, região com altos índices de violência, particularmente contra jovens negros e negras. Hoje, aos 19, trabalha na organização dando aulas de teatro para crianças e adolescentes.

Juliana é estudante e cursa o 2º ano do Ensino Médio. Há três anos, a jovem aceitou o convite de uma amiga e entrou para o Movimento de Cultura Popular do Subúrbio (MCPS), entidade que atua no bairro do Subúrbio Ferroviário de Salvador, região com altos índices de violência, particularmente contra jovens negros e negras.

Hoje, aos 19, trabalha na organização dando aulas de teatro para crianças e adolescentes, com idades entre 10 e 13 anos, que integram o grupo “Resistência Viva”. E, apesar de ter habilidade para as artes, o seu sonho mesmo é ser advogada. “Quero ajudar as pessoas”, afirma a garota de 1,63m e sorriso largo, que só perde a leveza no semblante quando o assunto é violência.

Foto: UNFPA

Juli, como é conhecida pelos amigos e familiares, disse que após perder um amigo na escola, morto por engano pela polícia, passou a ter muito mais vontade de enfrentar todos os tipos de discriminação, por acreditar que essas situações se dão em especial por conta do racismo.

Mais da metade dos homicídios no Brasil (53%), segundo dados apresentados pelo Ministério da Saúde em 2010, dizem respeito à morte de jovens, sendo que, desse total, 76,6% eram negros e 91,3%, homens. “Infelizmente é assim nosso cotidiano. Quero estudar Direito para defender a população. É o que mais sinto falta nas comunidades”, revela a estudante, que quer ser a segunda pessoa na família a ter um diploma.

Foto: UNFPA

Já na Península Itapagipana, no bairro do Uruguai, em Salvador, outro jovem é movido por um sonho. O de viver da dança e da música.

Marcus Vinícius, 26 anos, o MC Negrito, reside atualmente na Casa da Juventude, espaço criado pela Associação de Moradores do Uruguai e o Conjunto Santa Luzia para apoiar jovens sem moradia. Ele faz parte da Rede de Protagonistas em Ação de Itapagipe (Reprotai) e trabalha com sonorização no Espaço Cultural Alagados.

Com o seu melhor amigo, Carlos Alberto Cerqueira, MC Xandão, montaram a dupla de Rap Evolução NX, que traz nas composições elementos sobre problemas sociais, como o uso de drogas.

A prova de que investir em juventude e garantir direitos fundamentais é o caminho para que adolescentes e jovens possam construir habilidades e definir projetos de vida, de modo a alcançar seu pleno potencial, pode ser vista nos posicionamentos de Marcus, que descobriu a dança através de um curso de informática.

Foto: UNFPA

“Fui convidado por um colega, em 2006, para participar de um grupo. No mesmo ano, comecei a dar aulas e fazer oficinas em escolas públicas”, comenta. Três anos depois, conheceu Carlos e “o rap veio do nada”.

“Eu sabia fazer a letra, mas achava que não tinha voz e que ninguém ia gostar, por isso nunca me dediquei muito”, disse. Com a ajuda da Reprotai, o jovem, que é pai de uma menina de três anos, se formou em cursos de cenotécnica e iluminação, entre outros, e hoje é reconhecido por suas ideias musicadas e pelo seu trabalho.

Letra da canção Palavras e Conselhos (Evolução NX):

“Eu vou mandar uma letra para os pais irresponsáveis, que cuidem dos seus filhos, que não sejam miseráveis. A droga está batendo em nossas portas. Classes sociais para ela não importa. Vulnerabilidade é uma palavra conhecida.

Mas a dificuldade é manter-se nessa briga. Pessoas de renome se colocam a lutar. Na verdade a resistência na comunidade está! Palavras e conselhos. Palavras e conselhos. Falo para todos, não preciso de dinheiro.

Se vocês me permitem enfatizar: dizer não as drogas, isso só não mudar. Tem que ter atitude e disposição! Não usando droga, pois existe uma razão. Razão essa que assim é muito fácil de aprender. Se quiser que aconteça, tente me compreender.

As drogas nesses tempos todos conhecem, sem dúvida, entre becos e vielas, até mesmo em ruas públicas. É comercializada no mercado informal. Está em bairros nobres, não há tempo, nem local. Palavras e conselhos”.

Juliana e Marcus têm muito em comum – são jovens negros, baianos e que, mesmo com muitas dificuldades, lutam por seus direitos, conseguem driblar as estatísticas, a violência e o racismo na busca de seus projetos de vida.

Ambos fazem parte do projeto “OJÚ OMO – Olhar da Juventude”, realizado em Salvador pelo Fundo de População das Nações Unidas (UNFPA), em parceria com a Coordenadoria Ecumênica de Serviços (Cese) e a Organização Intereclesiástica para a Cooperação e Desenvolvimento (ICCO), da Holanda.

O OJÚ OMO é realizado em Salvador com cerca de 30 lideranças jovens das comunidades do Subúrbio Ferroviário, Ilha de Maré, Península de Itapagipe e do Quilombo Rio dos Macacos. O projeto tem como objetivo reforçar o protagonismo juvenil, através da capacitação de jovens em temas voltados para saúde reprodutiva e direitos, com enfoque em gênero e relações raciais, conectado com o enfrentamento ao racismo.

O trabalho com lideranças jovens é estratégico – o grupo consegue dialogar com centenas de jovens por meio de suas redes e organizações. A iniciativa faz parte do processo de expansão do projeto “Promovendo Direitos de Jovens: Cultura e Saúde Sexual e Reprodutiva em Salvador”, criado pelo UNFPA e lançado em 2009.

O trabalho do UNFPA é baseado em sua estratégia global de juventude “Realizando plenamente o potencial de Adolescentes e Jovens”, que visa ao empoderamento e à remoção de obstáculos ao desenvolvimento e ampliação das capacidades dessa população, que no Brasil vai dos 15 aos 29 anos.

A estratégia aborda temas como saúde sexual e reprodutiva, igualdade de gênero, liderança e participação juvenis, entre outros. Saiba mais sobre a estratégia do UNFPA para a juventude em http://bit.ly/Vj9is8

Dia Internacional da Juventude

O dia 12 de agosto foi declarado como Dia Internacional da Juventude pela Assembleia Geral da ONU em 17 de dezembro de 1999, com o objetivo de sensibilizar e promover o debate sobre temas relacionados à agenda da juventude.

No Brasil, a data é celebrada este ano por um conjunto de atividades desenvolvidas na Casa da ONU em Brasília, lideradas pelo Grupo de Trabalho da ONU sobre Juventude. A ação tem como tema “Juventude Negra contra o Racismo e pela Paz”, e inclui um debate sobre o tema com jovens lideranças. Carlos Luz, da Reprotai, e Neusinea Miranda, do MCPS, participam do encontro pelo Projeto OJÚ OMO.

Confira abaixo o especial da ONU Brasil para o Dia Internacional da Juventude:

Jovens Negros contra o Racismo e pela Paz #DiadaJuventude #ONUeJovens