Jovens salvadorenhos fogem da violência das gangues; buscam proteção no México

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Para chegar à escola todos os dias, os irmãos salvadorenhos Anderson, de 17 anos, e Jairo, de 14, tinham que pegar ônibus no território de uma perigosa gangue de rua e chegar a outro de uma gangue rival, correndo o risco de serem assaltados, mortos ou forçados a se juntar a ela.

Para sobreviver, buscaram refúgio no México. Assim como eles, milhares de crianças e adolescentes fogem do norte de El Salvador, de Honduras e da Guatemala, países marcados por níveis crescentes de violência, em busca de proteção. O relato é da Agência da ONU para Refugiados (ACNUR).

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Para chegar à escola todos os dias, os irmãos salvadorenhos Anderson, de 17 anos, e Jairo, de 14, tinham que pegar o ônibus no território de uma perigosa gangue de rua e chegar a outro de uma gangue rival, correndo o risco de serem assaltados, mortos ou forçados a se juntar a ela.

Quando as gangues intensificaram o assédio, frequentemente invadindo a pizzaria da família localizada em uma cidade do sudeste de El Salvador, os dois meninos, seu pai e o irmão mais velho foram forçados a fugir.

“Se voltássemos para lá, acho que nos matariam”, diz Anderson. “Ou nos uníamos a eles, ou seriamos mortos”.

Pediram refúgio no México e, enquanto aguardavam a conclusão do processo, o pai dos meninos e sua namorada desapareceram repentinamente.

Sem um adulto para cuidar deles e sem possibilidades de voltar para casa, Moisés, o irmão mais velho de 20 anos, passou a liderar a família. Atuando como o responsável legal dos irmãos, ele faz de tudo para ajudá-los a recomeçar suas vidas no México.

Histórias semelhantes à dos irmãos Sánchez chamou a atenção do mundo todo em 2014, quando dezenas de milhares de crianças desacompanhadas da América Central começaram a fugir da violência das gangues e se dirigir à fronteira sul dos Estados Unidos.

Ainda que as manchetes sobre o tema tenham diminuído em 2016, milhares de crianças e adolescentes continuam saindo do norte de El Salvador, de Honduras e Guatemala, países marcados por níveis crescentes de violência.

“O fluxo de crianças não acompanhadas ainda é muito alto”, diz Cynthia Pérez, diretora de atenção e coordenação institucional da Comissão Mexicana de Ajuda a Refugiados (COMAR). “Diversas agências estão recebendo treinamentos para garantir que identifiquemos as crianças que sofreram alguma violência para lhes oferecer a chance de solicitar refúgio”, acrescenta.

Os países do norte da América Central estão entre os mais perigosos do mundo, já que a gangue Mara Salvatrucha e sua rival, Barrio 18, lutam para criar seus impérios do crime, transformando as ruas em zonas de guerra e crianças e adolescentes em mercenários.

As gangues realizam atividades criminosas que vão desde assaltos, extorsões e sequestros até o transporte e venda de drogas. Os jovens, sem alternativas, enfrentam assédio, agressões e recrutamento forçado.

“Fugir é a única opção se você não quer se juntar às gangues”, conta Anderson. Promessas de bons salários e proteção rapidamente se transformam em ameaças. A situação dos irmãos Sánchez era mais grave já que moravam em um bairro controlado por uma gangue e tinham que ir à escola no território de outra.

“Eu me inscrevi no ensino médio, mas nunca fui”, diz Anderson. “Eu não queria atravessar o limite entre uma zona e a outra. Era muito perigoso”. Manter o olhar baixo e evitar os criminosos tampouco garante segurança.

“Costumávamos sair para um campo de futebol para jogar”, lembra Anderson. “Mas, uma vez, os bandidos nos observaram e nos seguiram até a casa, então não podíamos mais sair para jogar futebol”.

Agora, eles podem voltar a dormir tranquilos em sua casa temporária em um bairro calmo nos arredores de Tapachula. A cidade no sul do México, perto da fronteira com a Guatemala, é uma plataforma de acolhimento de refugiados da América Central. Foi ali que aprenderam com a COMAR sobre seus direitos de solicitar refúgio.

As solicitações de refúgio no México aumentaram 152% no primeiro semestre de 2016 em relação ao mesmo período do ano anterior. A Agência da ONU para Refugiados (ACNUR) prevê que o país receberá mais de 8 mil solicitações este ano, 95% delas provenientes de El Salvador, Guatemala e Honduras.

A solicitação de refúgio dos irmãos Sanchez tornou-se ainda mais complicada quando seu pai desapareceu.

“A COMAR me disse que, sem um tutor legal, Anderson e Jairo poderiam acabar em um abrigo para menores”, diz Moisés. “Mas eu não podia deixar separarem meus irmãos de mim”.

Enquanto o México melhorou suas condições de recepção e está oferecendo alternativas para os refugiados, muitos menores que solicitaram refúgio ainda acabam em centros de detenção. O ACNUR está pedindo que a prática seja imediatamente interrompida.

Enquanto esta questão não é resolvida, Moisés luta para ficar com seus irmãos. Ele conseguiu reivindicar a tutela legal e mantê-los juntos.

Em agosto, o México concedeu refúgio aos três irmãos Sanchez. Foi um momento de alegria e alívio, mas para três jovens refugiados que vivem por conta própria, ainda há dificuldades adiante.

“Os menores não acompanhados não precisam apenas de acesso a refúgio. Precisamos garantir que tenham acesso a serviços de educação, saúde e psicologia”, diz Mark Manly, representante do ACNUR no México.

Os irmãos Sanchez estão entre os mais de 2,5 mil solicitantes de refúgio no México que receberam apoio financeiro e outros tipos de suporte do ACNUR no primeiro semestre de 2016. No entanto, Moisés também precisa trabalhar, e recebe o equivalente a 37 dólares por semana. Ele espera economizar para que os irmãos possam começar uma nova vida com primos no norte do México.

“Eu quero que eles possam estudar e morar em uma casa segura. Faz muito tempo que não têm isso”, diz Moisés.

Anderson e Jairo não conseguiram frequentar a escola no último ano. Eles passam os dias vagando pelas ruas, aproveitando a possibilidade de andar ao ar livre novamente.

Quando conseguem juntar 15 pesos, o equivalente a 0,80 centavos do dólar, jogam meia hora de Xbox, em um café de videogame. Passam o restante do tempo em seus smartphones, em uma esquina onde encontraram um sinal aberto.

“Não temos cartões de residência, não podemos voltar para a escola ainda”, diz Anderson, apontando para o pátio da escola em frente à rua.

Os irmãos podem encontrar um pouco de paz no México, mas ainda têm um longo caminho pela frente.


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