Jovens refugiados recebem aulas de fotografia e registram suas vidas em São Paulo

Com o projeto #MeuOlhar, desenvolvido pela Agência da ONU para Refugiados (ACNUR) e parceiros, seis crianças e adolescentes refugiados que moram na capital paulista ganharam câmeras portáteis e aprenderam a fotografar para representar os desafios que vivem na metrópole.

Com o projeto #MeuOlhar, estas seis crianças refugiadas de diferentes nacionalidades usaram a fotografia para mostrar como é viver em São Paulo, a maior metrópole brasileira. Foto: Studio Pier 88 / Rodrigo Bueno

Com o projeto #MeuOlhar, estas seis crianças refugiadas de diferentes nacionalidades usaram a fotografia para mostrar como é viver em São Paulo, a maior metrópole brasileira. Foto: Studio Pier 88 / Rodrigo Bueno

Seis jovens refugiados moradores de São Paulo aprenderam a fotografar e a expressar suas formas particulares de ver o mundo em uma série de workshops promovidos por uma parceria entre a Agência da ONU para Refugiados (ACNUR), a organização não governamental “I Know My Rights” (IKMR) e o Studio Pier 88.

Em workshops divididos em três módulos, o projeto #MeuOlhar permitiu ao grupo de crianças e adolescentes estrangeiros – a angolana Gabriela, de 12 anos, os congoleses Benedita, de 13, e Beside, de 11, os sírios Mohamed, de apenas oito anos, e Riad, de 14, e a sudanesa Verônia – refletir sobre sua própria condição de refugiado através da fotografia.

Para o ACNUR, o projeto foi uma oportunidade única para mapear os desafios enfrentados pelos jovens em uma metrópole como São Paulo. Ao longo das aulas, participantes puderam contar suas opiniões sobre questões de proteção e de integração e falar também sobre decisões das quais não participam, mas que afetam diretamente suas vidas.

“O exercício nos workshops esteve muito centrado no empoderamento das crianças: por meio da fotografia, elas puderam contar suas próprias histórias e trazer à tona o que mais lhes chamou a atenção”, afirmou o assistente de proteção do ACNUR em São Paulo e coordenador da iniciativa, Vinícius Feitosa.

“Cada criança foi estimulada a identificar as fotos que considerou mais interessantes e explicar por que as escolheu. A ideia é dar voz à sua própria visão de mundo”, completou.

Os seis pequenos refugiados foram selecionados entre os integrantes de um coral infanto-juvenil organizado pela IKMR desde maio de 2015. No coral, os jovens cantam músicas brasileiras com letras que tratam do esforço de superação. As crianças e adolescentes já se apresentaram em São Paulo, no Guarujá e no Rio de Janeiro, onde várias delas entraram pela primeira vez no mar.

No primeiro módulo do #MeuOlhar, as crianças receberam de presente uma câmera portátil e tiveram suas primeiras aulas de fotografia. As atividades começaram em março no Museu da Imigração, no bairro da Mooca, onde o coral tem seus ensaios.

Nesse prédio, ficaram hospedados milhões de imigrantes que chegaram a São Paulo entre o final do século 19 e as primeiras décadas do século 20 – antes, portanto, de o conceito de refúgio ser definido pela Convenção das Nações Unidas sobre Refugiado, de 1951. Hoje, o edifício exibe um acervo sobre a história dessas chegadas.

O segundo módulo foi realizado no Studio Pier 88 e girou em torno de um duplo exercício para as crianças: fotografar e serem fotografadas. Com um fundo branco iluminado, elas posaram para as lentes do fotógrafo Rodrigo Bueno saltando, brincando e rindo. P

Para o terceiro módulo, foi escolhido um local aberto – porém tranquilo – para as atividades do grupo: o Parque Villa Lobos. Nessa última aula, as crianças comentaram as fotos tiradas ao longo das duas semanas anteriores.

As crianças refugiadas que participaram do projeto #MeuOlhar fotografaram e foram fotografadas para revelar uma visão particular da vida em São Paulo. Foto: Studio Pier 88 / Rodrigo Bueno

As crianças refugiadas que participaram do projeto #MeuOlhar fotografaram e foram fotografadas para revelar uma visão particular da vida em São Paulo. Foto: Studio Pier 88 / Rodrigo Bueno

Mohamed escolheu a foto que tirou de seu irmão mais novo, Ahmed, como a mais bonita entre as que produziu em casa. “Achei mais legal porque meu irmão estava sorrindo”, explicou aos instrutores. Gabriela, que fotografara flores durante a semana e se alegrava por estar em um parque, queixou-se das poucas áreas verdes nos bairros por que transita em São Paulo.

Riad impressionou pelas fotos bem enquadradas de recantos com traçados harmônicos da escola onde estuda. Benedita exibiu com orgulho os “selfies” que fez: nenhum somente de si própria, mas sempre junto de muitos membros de sua família.

Em maio, os jovens, Bueno e a equipe do ACNUR em São Paulo deverão se encontrar novamente para um exercício final: a escolha das suas melhores imagens para a conclusão do projeto que busca identificar seus desafios de integração à metrópole.

Segundo Feitosa, as crianças assumirão nesse momento a função de curadoras de seus próprios trabalhos para uma possível exposição das fotos. “Como o fio condutor desse projeto é dar voz à criança, essa tarefa final deve desencadear novas ações para que suas observações sejam efetivamente escutadas”, afirma o representante do ACNUR.

Por Denise Chrispim, de São Paulo.