Jovens lideram resposta ao vírus zika nas favelas de Salvador

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Rede de jovens REPROTAI, apoiada pelo Fundo de População das Nações Unidas (UNFPA), visita moradores de favelas de Salvador para informá-los sobre formas de prevenção ao vírus zika. O surto da doença tem atingido mais intensamente as comunidades pobres, diante da falta de saneamento básico adequado.

Jovem membro da rede REPROTAI, parceira do UNFPA, visita bairro de Lobato, em Salvador, para alertar moradores sobre o vírus zika. Foto: UNFPA/Tatiana Almeida

Jovem membro da rede REPROTAI, parceira do UNFPA, visita bairro de Lobato, em Salvador, para alertar moradores sobre o vírus zika. Foto: UNFPA/Tatiana Almeida

Os jovens estão liderando o combate ao vírus zika nas favelas brasileiras, nas quais o saneamento precário levou à proliferação de doenças transmitidas por mosquitos, entre elas dengue, chikungunya e zika.

“Os jovens foram os primeiros a mostrar o surto de zika em nossa comunidade”, disse Mariselma Bonfim, membro da REPROTAI, organização de juventude que trabalha com o Fundo de População das Nações Unidas (UNFPA) para disseminar informações sobre saúde nos subúrbios de Salvador, um dos estados mais afetados pelo surto de zika.

Em uma tarde recente, um grupo de integrantes da REPROTAI foi de porta a porta em uma favela da cidade para conversar com os moradores sobre saneamento básico, parte dos esforços para reduzir os focos de mosquitos e evitar a disseminação da doença.

Eles encontraram diversos adolescentes se banhando no esgoto a céu aberto para aliviar o calor e ficaram consternados. Essas são as condições — falta de água potável e proximidade com o esgoto — que permitiram a proliferação da doença.

Antes do surto de zika, o UNFPA trabalhou com a REPROTAI para auxiliar jovens a desenvolver habilidades para a vida. Membros do grupo passaram a alertar a comunidade sobre como evitar doenças sexualmente transmissíveis, combater a violência baseada em gênero, acessar serviços de saúde reprodutiva, entre outros direitos.

Fernanda Ricardo mostra ultrassom de sua filha, Amanda Vitória, que teve microcefalia relacionada ao zika e morreu duas horas depois de nascer. Foto: UNFPA/Tatiana Almeida

Fernanda Ricardo mostra ultrassom de sua filha, Amanda Vitória, que teve microcefalia relacionada ao zika e morreu duas horas depois de nascer. Foto: UNFPA/Tatiana Almeida

Quando o zika atingiu a comunidade, ficou claro que o fornecimento irregular de água estava impulsionando o problema. Mesmo soluções improvisadas como armazenamento de água limpa se transformaram em formas de disseminação da doença.

A REPROTAI imediatamente resolveu agir. “Eles ficaram preocupados após descobrir que o zika não estava apenas conectado ao mosquito, mas ao ambiente como um todo”, disse Mariselma.

O vírus zika também pode ser transmitido sexualmente. Após a infecção, é necessário usar camisinha para evitar uma maior disseminação. Silas Santos, 18 anos e integrante da REPROTAI, explicou que a equipe está promovendo mensagens de rádio e abordando moradores para falar sobre prevenção.

“Damos informações sobre o vírus zika, saneamento básico, ações de prevenção e sobre como parar o surto em nossa comunidade”, disse.

O zika tem afetado desproporcionalmente comunidades brasileiras marginalizadas. “Noventa por cento dos moradores de Lobato foram infectados por chikungunya ou zika”, disse Lea Mendes, referindo-se ao bairro de Salvador onde os serviços de água e saneamento são problemáticos. “Minha família toda foi infectada. Eu também tive zika”.

Moradores direcionaram voluntários da REPROTAI à casa de Fernanda Ricardo, cuja filha foi o primeiro bebê da comunidade a nascer com microcefalia, uma complicação do zika em grávidas.

Durante a gravidez, Fernanda, de 35 anos, fez tudo o que deveria: tomou os cuidados necessários durante a gestação e frequentou consultas regulares de pré-natal. Um dia, no entanto, sentiu que alguma coisa não ia bem.

“Do quinto mês em diante, só senti dor”, disse ela ao UNFPA e à REPROTAI. “Meu bebê parou de se mexer, minha barriga ficou cada vez maior, e passei a enfrentar muitas dificuldades. Perdi o apetite, tive dor constante nas costas e na cabeça, mal conseguia sair de casa”, completou.

Fernanda compartilhou suas preocupações com o médico, que descobriu que o crânio do bebê não estava se desenvolvendo como esperado. “Quando vi meu bebê, o médico disse que ela tinha microcefalia e outras malformações”, declarou, em lágrimas. “Não consegui entender o que tinha acontecido. A cabeça dela era menor e parecia ter diversas deficiências, e seu batimento cardíaco era muito rápido”.

Enfermeira Jacksonara Cunha, em uma unidade de saúde de Salvador, diz que as mulheres só estão recebendo informações muito vagas sobre o zika pela mídia. Foto: UNFPA/Tatiana Almeida

Enfermeira Jacksonara Cunha, em uma unidade de saúde de Salvador, diz que as mulheres só estão recebendo informações muito vagas sobre o zika pela mídia. Foto: UNFPA/Tatiana Almeida

A filha de Fernanda, Amanda Vitória, morreu duas horas depois de nascer. “Ela não chorou, tinha uma deformação no rosto. Coloquei ela no peito e comecei a chorar como qualquer mãe choraria no meu lugar. Depois eu a limpei, me acalmei e comecei a afagar e abraçar minha filha”.

A tragédia levantou temores na comunidade, servindo de alerta a outras mulheres grávidas sobre os riscos criados pelas más condições de saneamento. Hoje, Fernanda está grávida novamente, e espera um menino. Mulheres a procuram para obter informações sobre zika e gravidez.

“Eu ajudo muitas grávidas que vêm até mim para perguntar sobre os sintomas. Elas ficaram com medo depois do que aconteceu comigo”, disse.


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