Jovens de hoje estão mais abertos à diversidade sexual, diz ativista trans

Em entrevista ao Fundo de População das Nações Unidas (UNFPA), a mulher trans e ativista de direitos humanos Jacqueline Rocha Côrtes diz ver avanços nos direitos garantidos legalmente para os jovens, na comparação com a sua própria geração.

No entanto, a militante alerta que, devido à violência e à intolerância, nem sempre esses direitos podem ser exercidos plenamente. “Em termos de sexualidade, os jovens estão mais abertos para lidarem com a diversidade”, aponta Jacqueline.

Em Belo Horizonte, jovens realizam uma partida de 'queimado' temática, para discutir questões de gênero e orgulho LGBTI. Imagem de 2016. Foto: Mídia Ninja (CC)

Em Belo Horizonte, jovens realizam uma partida de ‘queimado’ temática, para discutir questões de gênero e orgulho LGBTI. Imagem de 2016. Foto: Mídia Ninja (CC)

Jacqueline Rocha Côrtes é mulher trans e ativista dos direitos humanos. Foi consultora do Departamento de Infecções Sexualmente Transmissíveis (ISTs), AIDS e Hepatites Virais do Ministério da Saúde. Trabalhou para o Programa Conjunto das Nações Unidas sobre HIV/AIDS (UNAIDS). Inspirou a realização do documentário Meu nome é Jacque, no qual conta sua experiência como transexual e soropositiva.

Integrante do Conselho Consultivo do Fundo de População das Nações Unidas (UNFPA), a militante foi convidada a refletir sobre os desafios que o mundo enfrenta nas áreas de planejamento reprodutivo, direitos humanos, saúde e igualdade de gênero.

Em entrevista ao organismo internacional, Jacqueline diz ver avanços nos direitos garantidos legalmente para os jovens, na comparação com a sua própria geração. No entanto, a ativista alerta que, devido à violência e à intolerância, nem sempre esses direitos podem ser exercidos plenamente.

“Em termos de sexualidade, os jovens estão mais abertos para lidarem com a diversidade”, aponta Jacqueline.

Jacqueline Rocha Côrtes é ativista dos direitos humanos. Foto: Acervo pessoal

Jacqueline Rocha Côrtes é ativista dos direitos humanos. Foto: Acervo pessoal

O diálogo com o UNFPA — que você confere na íntegra abaixo — faz parte da ação Mais que minha mãe, menos que minha filha, iniciativa da agência da ONU para discutir avanços e problemas na agenda sobre planejamento reprodutivo desde a Conferência Internacional sobre População e Desenvolvimento (CIPD), realizada há 25 anos no Cairo, capital do Egito.

Na ocasião, mais de 170 países adotaram um plano para orientar as políticas públicas a partir do prisma dos direitos humanos, das escolhas individuais e do empoderamento feminino.

UNFPA: Em seu contexto, quais as oportunidades de trabalho, educação, renda você percebe que sua mãe não teve e você tem? Por quê?

Minha mãe nasceu em 1936. Naquela época, o mundo era bem diferente. A relação homem-mulher era totalmente machista, com padrão dominante do gênero masculino. Logo, a maioria das mulheres só podia trabalhar com permissão de seus maridos. Estudavam se os pais investissem nos estudos e considerassem (isso) importante para a vida da mulher. Em resumo, nesse sentido, minha mãe estudou somente até a 5ª série. Não qualificada para o mercado de trabalho e sem autorização de seu marido para a vida laboral, as oportunidades de renda foram domésticas. Minha mãe aprendeu a costurar para gerar renda e ajudar na subsistência da família, uma vez que minha família sempre foi de classe média baixa — ou pobre, em alguns momentos da vida. Mas todo esse contexto não impediu minha mãe de ser uma mulher super inteligente, à frente de seu tempo, (ela) exercia um ativismo doméstico, pessoal, sem consciência do que fazia. Discutia política, enfrentava homens e o autoritarismo machista. Me ensinou muito a ter autoconfiança e a lutar pelos direitos.

UNFPA: Você percebe que seus filhos e filhas podem ter oportunidades ainda melhores que as suas?

Não estou tão certa. Antes, eu diria que sim, há uma ou duas décadas. Mas, hoje, tenho dúvidas. As exigências do mundo capitalista estão cada vez maiores. Os diplomas não têm sido suficientes para garantias de colocação no mercado de trabalho devido a questões econômicas do país e do mundo. Devido ao cenário político atual e ao que a sociedade brasileira tem mostrado em termos de comportamentos e ideologias. Estamos em transição, logo fica difícil (fazer) qualquer previsão sobre oportunidades futuras de trabalho. Vivemos numa incerteza. Mas eu acredito nos meus filhos, acho e vibro para que elxs encontrem um lugar ao sol.

UNFPA: O que você deseja para os seus filhos e filhas?

Que tenham ética e caráter. Consciência do viver em coletividade e de suas responsabilidades como cidadãos, para contribuírem com a evolução do planeta, do meio ambiente e de um viver mais sustentável. E que possam ter paz, alegrias e que encontrem boas pessoas em seus caminhos. Que possam ter realizações em suas buscas e projetos. E que possam absorver os valores edificantes que tento passar.

UNFPA: Com relação a casamento, a ter filhos e filhas e a planejamento familiar como um todo, você acha que teve mais escolhas que sua mãe?

Sim. Vivi a revolução sexual no final dos anos 60. A ditadura militar até finais dos anos 80. Logo, me criei mais audaciosa, corajosa e guerreira. Sou uma mulher transexual e tive que viver uma vida repleta de preconceitos, discriminações e violências, mas, ao mesmo tempo, desde cedo, decidi dizer ao mundo que eu viveria como sou e que sou dona de minha vida, meu corpo e minha alma. Pude escolher viver com quem eu queria. E hoje sou casada legalmente há 15 anos, numa relação estável há 18 anos, com dois filhos. Muita luta, muita fé e muita verdade. Não tive medo de viver a vida e enfrentar as feras.

UNFPA: Acha que seus filhos, filhas, sobrinhos e sobrinhas têm mais liberdades e direitos?

Relativamente. Têm mais direitos constituídos legalmente e menos liberdades de ir e vir dadas a violência e intolerância que vivemos. Logo, muitos direitos não são exercidos. Mas acho que, em termos de sexualidade, os jovens estão mais abertos para lidarem com a diversidade.

UNFPA: Sobre prevenção e métodos contraceptivos, você costuma utilizar algum? Isso já faz parte da sua cultura?

Sim. Toda a informação disponível faz parte dos diálogos em casa. Sou uma ativista na luta contra a AIDS há 25 anos. Portanto, o tema faz parte de minha rotina, dentro e fora de casa. Possuo relevante conhecimento técnico também.

UNFPA: Acha que a geração da sua mãe era diferente da sua no acesso aos métodos de contracepção? Quais os principais motivos para isso?

Sem dúvida. A pílula anticoncepcional revolucionou o mundo feminino e sua autonomia. Quando minha mãe era moça, não existia. Chegou após suas gestações. Não havia qualquer discussão ou educação sexual. Tudo era escondido e proibido. Logo, não havia política pública voltada para essas questões. A mulher era “parideira”.

UNFPA: O que significa planejamento reprodutivo para você?

Com certeza, não é o que se oferece hoje. Pré-natal e mais nada. E, em geral, para examinar o bebê na barriga. Essa é a realidade geral. Planejamento familiar, primeiramente, deve ser inclusivo. Logo, o conceito de família precisa ser ampliado e a diversidade, incorporada. Falo em pessoas com identidades de gênero trans (binárias ou não binárias), casais formados com base nessa diversidade, famílias “atípicas” (duas mulheres, dois homens ou três pessoas envolvidas, como pessoas trans com pessoa trans, pessoas trans com pessoa cis, cis com cis, enfim, uma infinidade de modelos de família). O serviço público de saúde precisa estar instrumentalizado para atender todas as populações e famílias. Os serviços precisam informar ao público sobre sexualidade humana, conhecimento de seus corpos, possibilidades de escolhas.