Jornada de Saúde atende em Boa Vista brasileiros e venezuelanos em situação vulnerabilidade

Os olhos da gestante Lucylde, de 17 anos, permaneciam fixos no monitor da ultrassonografia enquanto via pela primeira vez a imagem de seu bebê na 39ª semana de gestação. “É uma menina!”, exclamou emocionada a jovem. “Me senti muito feliz por ver minha filha. É muito difícil ter acesso a médicos da cidade, mas agora pude conhecer a minha neném”, conta a mãe, ao sair de uma consulta pré-natal promovida pelo Serviço Jesuíta para Refugiados e Migrantes (SJRM), em Boa Vista (RR). Venezuelana de Anzoátegui, ela vive no Brasil há seis meses.

Lucylde está entre refugiados e migrantes venezuelanos atendidos no SJMR por meio do projeto Jornada da Saúde, que aconteceu entre os dias 8 e 16 de julho em diferentes pontos da cidade de Boa Vista. O projeto também atendeu brasileiros em situação de vulnerabilidade. O relato é do Fundo de População das Nações Unidas (UNFPA).

Este slideshow necessita de JavaScript.

Os olhos da gestante Lucylde*, de 17 anos, permaneciam fixos no monitor da ultrassonografia enquanto via pela primeira vez a imagem de seu bebê na 39ª semana de gestação. “É uma menina!”, exclamou emocionada a jovem. “Me senti muito feliz por ver minha filha. É muito difícil ter acesso a médicos da cidade, mas agora pude conhecer a minha neném”, conta a mãe, ao sair de uma consulta pré-natal promovida pelo Serviço Jesuíta para Refugiados e Migrantes (SJRM), em Boa Vista (RR). Venezuelana de Anzoátegui, ela vive no Brasil há seis meses.

Em outra sala do SJRM, o também venezuelano Mitchell*, há sete meses no Brasil, passava por uma consulta médica e recebia o diagnóstico de sinusite – além de medicamentos para tratar o problema. “Estava me sentindo muito mal, nariz congestionado, febre e dores musculares. Aqui me diagnosticaram e forneceram os remédios. Por mais simples que o remédio pareça, não tinha acesso a medicamentos como esses, e por isso sou muito grato”, afirma Mitchell, 49 anos, pai de três filhos e morador do abrigo Santa Tereza.

Lucylde e Mitchell estão entre refugiados e migrantes venezuelanos atendidos no SJMR por meio do projeto Jornada da Saúde, que aconteceu entre os dias 8 e 16 de julho em diferentes pontos da cidade de Boa Vista, capital de Roraima. O projeto também atendeu brasileiros em situação de vulnerabilidade.

O projeto chegou a Boa Vista pelas mãos do grupo Fraternidade São Francisco de Assis na Providência, que mobilizou uma equipe de 20 profissionais (entre médicos, enfermeiras, dentistas, acadêmicos e pessoal de apoio) para prestar serviços de saúde como consulta médica, ultrassonografia, pré-natal, atendimento odontológico e tratamento farmacológico. A SJMR, uma das organizações parcerias do ACNUR em Roraima, aderiu à iniciativa.

“O acesso aos serviços de saúde é um dos principais desafios para a comunidade venezuelana que chega à cidade”, explica Giulia Campore, coordenadora de projeto do SJMR.

Por meio da parceria com o ACNUR, o SJMR recebeu apoio financeiro da União Europeia para atuar no projeto, fortalecendo a resposta aos venezuelanos e brasileiros em situação de vulnerabilidade e promovendo a convivência pacífica e a integração dessas pessoas na região Norte do Brasil.

“A ação teve como objetivo atender o máximo de pessoas com o intuito de reduzir a demanda que vem crescendo sobre o serviço de saúde pública local. Outro ponto que consideramos fortemente é que o projeto apoiasse não somente os venezuelanos em estado de rua e vulnerabilidade, mas também brasileiros na mesma situação”, complementa a coordenadora do SJMR.

“Para o ACNUR, os projetos que procuram atender tanto a comunidade refugiada e migrante quanto a população local são essenciais para promover a convivência pacífica entre ambas. Por isso que o ACNUR apoiou e continuará a apoiar projetos que tenham este objetivo, assim como a Jornada de Saúde”, afirma Esther Benizri, chefe do escritório do ACNUR em Roraima.

Durante dez dias, a Jornada de Saúde contabilizou cerca de 4,6 mil serviços prestados, entre eles 1.842 atendimentos médicos, 280 ultrassonografias, 160 pré-natais, 201 atendimentos odontológicos e 2.166 tratamentos farmacológicos.

Frei Leonardo Gonzales, médico clínico e coordenador do projeto Amor que Cura, lembra que essa não é uma ação definitiva, e que as pessoas continuarão precisando receber atendimentos médicos. “Pelos menos as pessoas atendidas pelo o projeto não estão aumentando a pressão sobre sistema de saúde da cidade”, afirma frei Leonardo.

Outro ponto destacado pelo coordenador é o alto número de mulheres grávidas que nunca tinham feito um pré-natal. “Cerca de 70% dos ultrassons que realizamos foram o primeiro exame feito por essas mães. Muitas delas descobriram o sexo da criança durante o exame feito aqui no projeto. E, infelizmente, há muitas grávidas sem nenhum tipo de acompanhamento médico durante a gestação”, diz frei Leonardo.

O SJRM atua principalmente com os venezuelanos que chegam ao estado e não conseguem ser acolhidos em um dos 13 abrigos que o ACNUR administra nas cidades de Boa Vista e Pacaraima, em parceria com as Forças Armadas e instituições da sociedade civil, no marco da Operação Acolhida.

“Entendemos que essa é uma ação que não resolverá todo o problema de acesso à saúde pública, mas foca em fornecer ajuda médica que vai desde um remédio para um resfriado, até a identificação de casos de HIV/AIDS”, diz a coordenadora da SJMR, Giulia Campore. Ela ressalta a importância do projeto ser voltado para venezuelanos abrigados, não abrigados e também brasileiros em situação de vulnerabilidade.

O projeto também promoveu a arrecadação de alimentos, fraudas, roupas e materiais de higiene pessoal – que serão distribuídos em outros atendimentos feitos pelas entidades que participaram da Jornada da Saúde.

(*) Nomes trocados por motivo de proteção