Jolie pede fim às injustiças que levaram 1 milhão de rohingyas ao exílio em Bangladesh

A atriz norte-americana Angelina Jolie, enviada especial da Agência da ONU para Refugiados (ACNUR), ouviu na semana passada depoimentos de refugiados rohingya que suportaram anos de perseguição e discriminação em Mianmar e sobreviveram a uma jornada desesperada através da fronteira.

Dirigindo-se aos refugiados rohingya no acampamento, a Jolie declarou: “quero dizer que me sinto honrada e orgulhosa de estar com vocês hoje. Vocês têm todo o direito de viver em segurança, de serem livres para praticar sua religião e de coexistir com pessoas de outras religiões e etnias. Vocês têm todo o direito de não serem apátridas, e o modo como vocês foram tratados envergonha a todos nós”.

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A atriz norte-americana Angelina Jolie, enviada especial da Agência da ONU para Refugiados (ACNUR), ouviu na semana passada depoimentos de refugiados rohingya que suportaram anos de perseguição e discriminação em Mianmar e sobreviveram a uma jornada desesperada através da fronteira.

“Estou grata que aqui em Bangladesh refugiados rohingyas têm a sua existência reconhecida, e estão sendo apoiados pelo governo e pelo ACNUR com documentação e prova de sua identidade – em alguns casos pela primeira vez em suas vidas”, disse Jolie ao falar no campo de refugiados de Kutupalong na terça-feira (5).

A visita marcou a 64ª missão da atriz norte-americana com o ACNUR desde 2001, e sua primeira missão em Bangladesh. Ela se encontrou com rohingyas deslocados em Mianmar em 2015 e na Índia em 2006. Décadas de injustiça levaram quase 1 milhão a fugir de suas casas em Mianmar e buscar refúgio em Bangladesh – a maioria deles nos últimos 18 meses.

Em um centro de trânsito perto da fronteira, Jolie se encontrou com Jorina, uma jovem que chegou com amigos, uma delas grávida, algumas semanas antes. Com apenas 18 anos, Jorina falou de uma impressionante série de infortúnios. Como rohingya, ela nasceu apátrida. Duas tragédias subsequentes – a morte de sua mãe muitos anos atrás e o assassinato de seu pai em dezembro – fizeram dela uma órfã. Agora, ela é refugiada.

“Perdi meus pais. O que mais eu poderia fazer?”, disse ela. “Eu não conseguia dormir com segurança uma única noite. Finalmente, decidi fugir.”

Jorina também tinha boas notícias para compartilhar. Menos de 24 horas antes, ela encontrou sua irmã mais velha, que havia chegado a Bangladesh há alguns meses. Além disso, ela ajudou sua amiga Nurkayda a dar à luz uma menina saudável em um hospital próximo.

“Nós nunca teríamos acesso a esses tipos de serviço e atendimento em Mianmar”, disse Jorina. “O que sofremos, não podemos permitir que nossos filhos passem pela mesma situação”.

Mais tarde no mesmo dia, Jolie se encontrou com crianças rohingyas em um centro de aprendizado feito de bambu. A casa, de dois andares, fica entre as densamente povoadas colinas do campo de refugiados de Kutupalong.

Desde o último fluxo, que começou em agosto de 2017, sua população aumentou para mais de 620 mil pessoas, mais do que qualquer outro campo de refugiados do mundo. A maioria das crianças presentes nunca tinha posto os pés em uma sala de aula antes de chegar a Bangladesh. A educação está fora de alcance para a maioria do rohingya, frequentemente proibida ou desencorajada com ameaças físicas.

Até mesmo o centro informal de ensino não oferece o tipo de educação de que eles precisam: um currículo estruturado que leve a qualificações reconhecidas e que permita que as crianças moldem seus próprios futuros e, quando as condições permitirem, reconstruam suas comunidades em Mianmar. O ACNUR está trabalhando para expandir o acesso à educação e melhorar a qualidade dos materiais de ensino e aprendizagem dentro do campo.

Jolie começou sua visita na segunda-feira (4), passando a tarde em Chakmarkul, um campo consideravelmente menor que abriga cerca de 12 mil refugiados. Em um centro comunitário, ela passou um tempo com um grupo de mulheres refugiadas que sobreviveram à violência sexual e outras violências de gênero, inclusive estupros coletivos.

“Quando estamos juntas, conversamos sobre nossa dor”, disse uma das mulheres. “Compartilhamos nossos pensamentos e tentamos consolar, cuidar umas das outras. Mas à noite a dor volta, e ficamos apavoradas. É uma grande dor que sempre nos assombra”.

O apoio psicossocial pode ajudar as sobreviventes, mas a violência que essas mulheres sofreram não é sua única fonte de sofrimento. A falta de cidadania também é uma fonte de trauma.

Questionada sobre retornar a Mianmar, uma mulher disse a Jolie: “você teria que atirar em mim onde eu estiver antes de eu voltar sem meus direitos”.

Subindo uma das muitas colinas íngremes de Chakmarkul, Jolie também se sentou com Hosne, uma jovem viúva com dois meninos pequenos. Hosne começou a frequentar a escola em Mianmar aos 7 anos, mas ela saiu depois de um mês devido a repetidas ameaças de estupro em seu caminho para o colégio.

“Quando eu estava no ventre da minha mãe – essa foi a última vez que fiquei em paz”, disse Hosne, agora aos 23 anos. “Não sei o que fizemos de errado para merecer isso”.

“Não tive nenhuma experiência em que senti que sou uma cidadã ou tenha liberdade. Todo o tempo, nós apenas sofremos discriminação; eles nos tratam como gado. Se eu tivesse uma galinha, teria que pagar impostos. Se quiséssemos educação, você teria que pagar impostos. Não podemos nos mudar de um lugar para o outro.”

Jolie também parou para conhecer oito jovens irmãos, de 3 a 22 anos, que estão de luto pela morte de seu pai, que sofrera um derrame fatal apenas três dias antes. Sua mãe, disseram eles, havia sido presa em Mianmar havia mais de um ano e desde então eles não tiveram mais notícias dela.

“Sem pais é muito difícil sustentar meus irmãos, porque eu também sou jovem”, disse o mais velho, Mujibur, que agora é o homem da casa. Ele e sua esposa já estavam sobrecarregados criando a pequena filha no exílio, mas agora estão cuidando de uma família de dez pessoas.

Mesmo assim, acrescentou ele, por enquanto, eles estão melhor do que em casa, onde as condições têm sido difíceis. “Não podíamos nos mover livremente. Não podíamos orar juntos. Não podíamos nos encontrar em grupos de mais de três ou quatro pessoas. Não tínhamos permissão para ter acesso à educação. Se fizéssemos alguma dessas coisas, éramos presos. Mesmo no tempos de nossos avós, a perseguição já estava acontecendo”.

Em Kutupalong, Jolie visitou um centro de registro em conjunto do governo de Bangladesh e do ACNUR, onde refugiados rohingya recebem registros biométricos de identidade. Para pessoas apátridas, esse é o reconhecimento mais forte de sua identidade: um documento que os chama pelo nome, explicita seu direito de permanecer em segurança em Bangladesh, aumenta sua proteção e assistência e afirma seu direito de retornar voluntariamente para casa quando as condições se derem.

Dirigindo-se aos refugiados rohingya no acampamento, a Jolie declarou: “quero dizer que me sinto honrada e orgulhosa de estar com vocês hoje. Vocês têm todo o direito de viver em segurança, de serem livres para praticar sua religião e de coexistir com pessoas de outras religiões e etnias. Vocês têm todo o direito de não serem apátridas, e o modo como vocês foram tratados envergonha a todos nós”.