Itatiaia, no Rio, recebe 4 médicos cubanos e diminui demanda na rede hospitalar

Vinculados ao Programa Mais Médicos, que tem apoio da OPAS, profissionais ajudaram a acabar com dificuldade histórica de implementação da Estratégia de Saúde da Família.

Vinculados ao Programa Mais Médicos, que tem apoio da OPAS, profissionais ajudaram a acabar com dificuldade histórica de implementação da Estratégia de Saúde da Família.

De origem tupi, o nome Itatiaia significa “pedra cheia de pontas”. Em plena Serra da Mantiqueira, a 180 km da capital do Rio de Janeiro, na divisa com os estados de São Paulo e Minas Gerais, o município de Itatiaia é famoso pela reserva natural que leva seu nome. Com imensas formações rochosas, inúmeras cachoeiras e fauna e flora preservadas, o Parque Nacional de Itatiaia abrange ainda o Pico das Agulhas Negras, a sexta montanha mais alta do Brasil.

Foi nesse cenário que, em março deste ano, chegaram 4 médicos cubanos do Programa Mais Médicos, que tem apoio da Organização Pan-Americana da Saúde (OPAS/OMS). Apesar de contar com Índice de Desenvolvimento Humano considerado alto – está na 17ª posição entre os 92 municípios do Estado do Rio de Janeiro –, Itatiaia sofria com o problema da fixação de médicos. “A rotatividade de profissionais era grande. Pela unidade de saúde de Maromba chegaram a passar cinco médicos diferentes na mesma equipe em um ano”, conta o secretário municipal de Saúde, João Ferreira de Lima.

A região tinha um histórico de dificuldades de implementação da Estratégia de Saúde da Família (ESF). Depois de 16 anos do início do projeto, Itatiaia era um dos últimos cinco municípios do estado que não tinha a estratégia implementada, o que começou a acontecer em 2010.

“Quando conseguimos iniciar a estratégia foi difícil avançar porque a ideia é formar um vínculo entre o usuário, os membros daquela família e o profissional que os atende. E é impossível formar um vínculo com uma mudança de profissional a cada dois, três meses”, afirma o secretário.

Com um mercado com grande oferta de vagas e oportunidades, alguns médicos partem com frequência em busca de melhores condições. Essas mudanças acabaram fazendo com que algumas unidades ficassem sem médicos durante meses, pois os profissionais pediam exoneração e não havia substitutos.

“Antes do Programa Mais Médicos, a população não estava acostumada a ter um médico de referência a semana inteira. O médico vinha uma vez por semana e a população ficava esperando o retorno. E o médico não ficava o dia inteiro: ele atendia a sua lista e ia embora. Hoje não: o médico fica todos os dias da semana, o dia todo. Então a pessoa sabe que se, se ela não for ao posto hoje, pode ir amanhã ou na semana que vem.”

Agda Maria Vasconcelos, 52 anos, vai à Unidade de Saúde da Família Campo Alegre II todos os dias, para fazer um curativo na perna. Ele segue o tratamento passado pela médica cubana Izandra Hidalgo Peneda, do Programa Mais Médicos.

“Eu tinha uma úlcera varicosa há vinte anos. Fui em tudo quanto foi médico, particular, público, esses médicos de São Paulo. Ninguém dava jeito. Minha pressão era altíssima, chegava até a 28. Fui em um posto e me encaminharam para fazer um tratamento aqui. Aí eu conheci a médica cubana. E ela é muito boa. Ela controlou a minha pressão, que caiu para 12, olhou a minha perna. Hoje a minha perna está uma beleza”, conta a paciente.

Úlcera varicosa é uma lesão crônica que decorre de um transtorno na circulação de retorno das pernas – toda a circulação sanguínea de retorno ao coração é feita pelas veias. Agda está impressionada com o resultado do tratamento, depois de duas décadas buscando uma solução, sem sucesso.

“Eu entendo tudo o que a médica fala, não tive nenhum problema. Ela passou um remédio para a minha pressão, eu tomei o remédio que ela mandou. Ela foi a única que conseguiu controlar a minha pressão. Eu acho que não tem nem dois meses que eu estou em tratamento com ela, e minha ferida fechou. Na minha opinião, os médicos cubanos são uma maravilha”, elogia.

Assim como Agda, a maioria dos usuários do Sistema Único de Saúde (SUS) está satisfeita com o atendimento realizado pelos médicos que participam do Programa Mais Médicos. O índice de aprovação é de 83%, segundo uma pesquisa realizada pela Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG) e pelo Instituto de Pesquisas Sociais, Políticas e Econômicas (Ipespe), divulgada no dia 04 de setembro deste ano.

Um olhar inovador: o paciente como um todo

Isabelle Afonso, enfermeira-chefe da Estratégia de Saúde da Família da unidade de saúde de Campo Alegre II, acompanhou todo o tratamento de Agda. Ela conta que a troca de experiências com os profissionais do Programa Mais Médicos está sendo enriquecedora.

“Os médicos cubanos têm uma visão de prevenção de doenças e olham o paciente como um todo, não apenas a doença em si. Esse acompanhamento tem sido muito gratificante para mim, eu tenho aprendido muito como profissional. E o retorno dos pacientes aqui da comunidade tem sido muito bom”, afirma.

Segundo Isabelle, longe se tratar de um caso excepcional, foi essa visão integrada que resultou no sucesso do quadro da paciente. “A gente trouxe a Dona Agda para a unidade e trabalhou não só olhando para a ferida ou somente para a pressão, mas para a paciente de um modo geral. E juntamente com a médica e outros profissionais da equipe, nós trabalhamos a questão da nutrição, pois a alimentação dela era muito rica em sódio, trocamos a medicação da pressão e estimulamos uma vida saudável e exercícios físicos. Temos uma academia pública aqui ao lado da unidade.”

O trabalho em equipe, a visão de saúde preventiva e integrada, o retorno da população e a estabilidade dos profissionais são fatores que ajudam a impulsionar a Estratégia de Saúde da Família em Itatiaia.

Dona Agda. Foto: OPAS

Dona Agda. Foto: OPAS

“A Dona Agda está hoje muito feliz porque depois de todo este tempo está com tudo normalizado. E eu também fico muito feliz como profissional por esse resultado, assim como toda a equipe”, sorri Isabelle.

Da mesma forma, o secretário de Saúde diz estar satisfeito com o Programa Mais Médicos: “Nós não temos uma reclamação sequer de nenhum desses quatro profissionais. O retorno da comunidade é de que eles nunca tiveram um atendimento tão bom quanto estão tendo agora. Isto repercute na equipe e dá uma segurança de que agora sim estamos no caminho certo.”

Demanda hospitalar diminuiu

Segundo o secretário João Lima, o reforço na atenção primária de saúde já reflete na demanda da rede hospitalar na região. De 2009 a 2010, ele foi diretor do Hospital Geral de Itatiaia, antes de ser nomeado para assumir a Secretaria. “Naquela época eu tinha apenas cinco médicos trabalhando, sendo um clínico. A produção em termos quantitativos era de 170 a 180 pessoas atendidas em 24h. O clínico sozinho atendia um número que variava entre 90 e 110 pessoas”, conta.

A grande demanda interferia diretamente na qualidade do atendimento, além de prejudicar a atenção àqueles pacientes que realmente estavam em uma situação de emergência: aproximadamente 70% dos casos eram de pessoas que vinham de suas residências, com um problema que poderia ter sido resolvido na unidade básica de saúde mais próxima.

“Com a implantação da Estratégia de Saúde da Família no município de Itatiaia, a partir de outubro de 2010, esse quadro começou a melhorar, mas nós demoramos a sentir os efeitos. À medida que fomos avançando e hoje com a sétima equipe implantada, nós temos os sete médicos trabalhando na atenção básica e a demanda do hospital caiu quase pela metade. Tudo funciona melhor, a classificação de risco, o atendimento e a espera diminuiu. Nós qualificamos a atenção hospitalar e temos a unidade básica de saúde onde as pessoas podem ser atendidas perto das suas casas”, explica o secretário.

“A Medicina social oferece uma oportunidade de doar-nos e servir ao povo, porque são essas as pessoas que mais precisam de nós”, diz o médico cubano Pavel Vigo Cuza, lotado na unidade de saúde de Maromba.

Depois de seis anos de estudo em Cuba, Pavel se formou em Medicina geral. Em seguida, fez uma pós-graduação de três anos em Medicina Integral. Ele tem ainda pós-graduação em Neonatologia, mestrado em Ensino Superior e outras especializações em atendimento de emergência e atenção integral a mulheres e crianças.

“Tem sido uma experiência muito boa a relação com os pacientes, o intercâmbio com a cultura, a possibilidade de conhecer a comunidade e de ajudar, de prestar nossos conhecimentos para que a saúde das pessoas desse lugar fique muito melhor. Eu estou feliz por estar aqui”, diz o médico cubano.